Abstrato afeto de um olhar qualquer.

ABRIL, 19, 2016.

Vi o teu rosto algumas vezes rápidas, e fui sugado para um tempo atípico, inovador e geométrico, fizeram de mim um círculo meio caricato. Pude assistir quadrados, retângulos e todo o resto, caminhando de forma desengonçada, como se fossem girados por mãos, vi de soslaio umas linhas quase invisíveis dando movimento a eles. Mas quando focava as mesmas sumiam. Entrei num pavor de desconexão, não encontrava os dentes ou a boca, vi lá em cima o teu rosto esférico brilhoso, sorri, digo, algo fiz. Notei uma áurea poderosa rodeando-te, dava a si ou fora feita rainha deste plano inconsistente. Rolei até próximo do monte o qual estava, bati a testa e tentei dizer algo.

Seus olhos petrificaram a minha razão, fui despido de qualquer lógica, transportado para um pequeno cubículo roxo, paredes erguiam-se furiosas até o infinito e um lustre esbranquiçado emanava uma luz azul agoniante. O colchão que recebi era pontiagudo, minha coluna era arrebentada e feito mola, as pernas e as vértebras estendiam-se quase que soltas. A agonia deu-me uma tontura absurda e o grito ecoou por toda a minha alma. Lá estava o teu sorriso, seus lábios murmurando um sussurro desolador, uma resposta ao meu dilema, exigi o fim do pesadelo e fui presenteado com o teu cheiro!

Salto da cama feito um felino, olho para a cômoda e a mesa, saí da correnteza de fluxos ilusórios, sou real! Então ouço um grito, sua voz passeando pelos neurônios, a casa infestada. Corro até a porta e a chuto, ela se quebra e me deparo contigo. Seus olhos atravessam o meu âmago e assassinam o tempo, dando ao mesmo uma crueldade ainda mais degradante! Tento tocar, fazer você real, gesticulo em forma de chamado e vira de costas, foge. Não, não, não, não. Dou um passo, dois passos e sou largado da nuvem, vejo em queda a casa prendida por um enorme algodão doce e as pipas lá em baixo, roubando os pedaços do céu. Estive no céu, e caio enfim, o teu espectro, seu existir caótico e simples, a distância jogou o meu corpo para longe de mim.

É caos por causar tanta dor ilusória e das metáforas boladas, tiram prazer e uma certeza do belo. Um manifesto esclarecedor de um luto, luto por tudo que não veio a ser.

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