Outro café.

JUNHO, 30, 2016.

Mais um café sem objetivo algum, outro remorso num terremoto de ideais esquecidos. O ambiente ainda tem um cheiro apodrecido pelas memórias antigas, dos mortos de outrora. Revigora-se por este contexto unicamente egoísta, de ainda bater o coração, na locomoção sem direção alguma. O princípio de sobrevivência lhe falta, sempre faltou. Ainda assim de soslaio mira o luar esgueirando-se, iluminando um recinto morno, dando um toque poético. O cigarro no bolso inflama, mas não ousa colocá-lo na boca, é cedo para martírio. Deixa ser vivo por alguns minutos, ao menos, depois de certo tempo, o sol insiste em brilhar e é capaz de usurpar os sentidos, dos segundos, que se tornam angústia.

Lembrou-se, coçando o queixo, quando criança em sala, as janelas eram pequenas, mas o sol ainda assim penetrava, dava um teor de sombra, mas algumas crianças gemiam pois não viam o quadro, e mesmo com tudo aquilo, seu astigmatismo soava-lhe vampiresco e em completa raiva, dos pequenos, dos míopes, de qualquer, gritou: Apaguem a maldita luz! A professora por pouco não infarta de susto, seu cristianismo, tua fé que no brilho, em qualquer luz é de lá a vida, fez-a agir amargamente, suas palavras ecoaram na pequena cabeça de vampiro dele. “Maldita é a escuridão” e não o era, não para este, nem para o que foi pequeno. O breu, os dilemas do coração petrificante, a imaginação dando forma às sombras, ali fez-se o que é hoje. E ela debochou, como o próprio fez, mas tua raiva vinha de um problema ocular, e só.

Exige ao divino, três goles puros, de qualquer cálice forjado pelos sábios mestres, qualquer anjo, que descesse dos céus, ou viessem do subsolo infernal. Um diálogo breve, uma vontade forte de sentir o pós-existir, para um próximo nível, outro canto. Avança o processo inteiro, ao levantar-se finalmente, caminha até a janela. Vê o primeiro som de portas se abrindo, o dia começa, ali começa. Para cada ser, pensa agora, o dia deve nascer ao abrir os olhos, antes disto, ainda não o é. É ser soberano ao tempo, aniquilar o relativismo, ou a fruta que cai da árvore e bate no chão, para ele só acontece quando se nota e vê. Mesquinho corpo tolo, mente sã, porém inútil. Pretende em diálogos, convencer não aos que ouvem, mas a si, caminhar pelo chão de espinhos, dos pavores que bolou, dos desafios que impôs ao próprio ego. E a cada segundo ou hora que insiste em nascer, é um cemitério de gigantes mortos, com o próprio nome.

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