Ópio.
Eu ouço os passos lentos, caminhantes observadores, sonhadores; comparações que outrora lisonjeiras, formam-se realidades palpáveis e faz meu estômago embrulhar, em borbulhas lentas e antagônicas. Meus estímulos reduzidos a perspicácias catastróficas, mirando semblantes simpáticos ou cadavéricos, doentes; fazendo dos passeios, dos transeuntes, quaisquer forem, pestes gigantescas e os desafetos que causam, como reais — apesar do simbolismo subjetivo — e dilacerantes. O verso lúgubre cavalga sobre minha alma, vergastando, julgando as feridas como quaisquer e meu trejeito, uma dissimulação perpétua.
Respiro com brevidade, antes de me levantar, já não me sentindo bem. Respiro algo que lateja e fere as partículas minúsculas do oxigênio, qual minha visão funesta palpa sorridente, fissuras pequeninas e formas de pontos pequenos diante da testa, dos dedos; tateio de forma idiota, as coisas na minha frente, tentando rasgar o que vejo e sugar o por detrás de tudo isto. É uma racionalidade oculta, submissa ao desejo melancólico, submissa ao entardecer e anoitecer, à insônia ou qualquer jovialidade oriunda de alguma epifania. Seleciono uma canção, deixo meu corpo grudar as costas na parede fria e faço um movimento escárnio, meus olhos esbugalham, estremeço inquieto despencando; com um baque seco, ergo minhas mãos até o fundo do crânio e abro um riso resoluto.
A dor desta forma é totalmente hilária ao jeito qual preciso resistir; não havia ali uma atitude, sequer vontade; um tipo qualquer casual, fortuita casualidade, qual motivo senão o de fazer vivo o ser? Por uma demanda inumana, transigente e contingencial, os olhos recuperam a sonoridade das imagens e cores, causando ojeriza e ternura, no ódio, na culpa. Perco sentidos simples, fome ou sede, perco qualquer vontade. Então peço ajuda, peço repugnante ao topo da lâmpada, paredes e à cama, uma parte robusta, erguida do interior da calma, alma, de mim. Nada há lá ou fora dos meus lábios e língua, catraca evolutiva suficiente interiormente para produzir objetividade; meu semblante cadavérico se forma, agonizando, cuspindo na parte física, dos movimentos e oposições às inércias conscientes… Meu corpo tateia o breve. A consciência mastiga o caos, detestando formas, transformando-se em reflexos sinceros fluidos e decadentes.
A consciência insuportável, insuportável.