AFETO HEREDITÁRIO.

SETEMBRO, 26, 2016.

O afeto hereditário.

-Trago-lhe uma questão importante hoje…

-De novo, cara? Não cansa?

-Não, não canso. Pensa num indivíduo qualquer, pensa? Pronto, parte dele exige para si um poder que aplique controle sobre propriedade, parte daí, vê? Ele quer se auto assegurar…

-Acho que te entendo, é como garantir-se seguro?

-Exatamente, em sociedade, neste caso. Andemos até aquele banco, cansa-me as pernas… Ufa, é… Ele traz no âmago um orgulho inexorável de vencer, não uma disputa imposta, mas algo inconsciente, imagina? Disto ele tira uma necessidade de se contrapor ou colocar uma superioridade relacionada ao que poderia ter sido feito… julga-se maior que a própria instituição qual vive.

-E neste caso eu concordo com ele, as discrepâncias sociais obrigam que a gente se oponha e aja de forma solitária! Particular, se preferir.

-É, mas o distanciamento das bases e classes, a exemplo de alguém que nos rouba… Porque ri? Sim, se alguém nos roubar agora, cá que faríamos? A princípio um pavor agudo, por falta de opção, daríamos tudo ao meliante e seguiríamos, ou ficaríamos ainda conversando… ah, acha engraçado. O rapaz levaria consigo um certo poder de consumo, que lhe é impossível. Faria dele uma forma de se aplicar no mercado, de forma criminosa, mas consequente de uma necessidade…

-Que ele trabalhe, ora? Damos as oportunidades, está para estes parasitas as opções, mas preferem o crime! As fábricas, empresas diversas, até mesmo as opções do estado!

-Sim, mas e a qualidade de emprego ou que se recebe deles? É um instinto animal fazer o que dá prazer, e aplicar nisso o motivo de empregar-se… Estes “parasitas” são de puro acaso? São contemporâneos nossos desde que época? Ah, se eu hoje tivesse o corpo inteiro maduro, jamais dar-me-ia uma faca, por exemplo.

-Então culpa o que?

-Não é quesito de culpa… é como se fosse algum tipo de malícia impregnada nas consciências todas. Vegeto já, os dentes molengas, sabe, que futuro há de nascer das minhas ideias já tão velhas?

-É sábio já. Mas se for uma coisa inerente, este tipo de probabilidade criminosa é toda comum, então?

-Certamente, para manutenção até, deste caótico estado nosso.

-Discordo, há formas de crescer e uma delas como já lhe disse, é o emprego.

-O emprego dignifica, né? Até que ponto seria o assalariado capaz de ter-se satisfeito com a micharia e os preços absurdos? Dão-lhe ainda promoções de cervejas, cachaças e o cigarro lado a lado… mantém-se assim preconceitos e até mesmo uma cristandade hereditária… Que frio…

-Já está delirando, homem…

-Não estou, cê observa o mundo de um jeito estranho, sabia? Vê solução a todo problema menor ou maior, em uma forma simples demais. Isto machuca o próprio ambiente qual vive, aposto que aos filhos dissemina esta tua versão, poupando-os das laterais todas.

-Óbvio que faço isso, são minhas crias, hão de herdar as pequenas coisas que fiz.

-Vê aí, rapaz o teu erro. Que adianta tu deixar uma serra, no topo um mirante qual desenhou com teus sonhos, aos novatos de teu sangue? Família é um contexto absurdo, és só de afeto, se aplicar ao s degraus sociais, torna um rebuliço de coadjuvantes apontados, por dedinhos egoístas…

-Sinto raiva agora, uma indignação esquisita… Estou com raiva de você, pai.

-Por dar estes tapas sem as mãos? O mundo cresce e decresce em cada ser, filho. Não dei-lhe nada senão o suficiente para crescer, mas hoje me sinto fraco por não ter notado as sementes plantadas nesta tua caixola e também as mãos malditas que as regaram.

-É… resta-me chorar em saudade das coisas que não me foi… DESGRAÇA!

-O luar desce devagar assim como o sol que se põe, e te segue pela madrugada, sorrateira, por detrás das nuvens, assiste o teu passear, as suas convicções recentes e antigas. Não ousa tocar-lhe, mas respira e dá a ti o brilho, para que a escuridão torne-se penumbra. É suficiente para não ter-se morto… Para viver… oh, filho, abraça-me, vem… Sou-lhe uma lua eterna e mesmo nos meus absurdos, em deleite respeito o método qual deu a si, as tempestades que passaste na solidão daqueles dias antigos… Ouvia e chorava, mas a alma cá se sente entrelaçada, sem ter tido o desprazer de ter-lhe acorrentado a nada, senão o afeto.

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