DEZEMBRO, 29, 2015.
Foi um desencontro bem escroto
Se parar e pensar mais uma vez
Foi como um esgoto de desgosto puro
Estou completamente puto, por ter imaginado tanto
Um pântano imenso, de excremento
Cada olhar teu, vago feito madrugada
Os teus sorrisos não me lembram nada
Um corpo esbelto, para maquiar a alma abandonada
O luar é vermelho, sangrento em desespero
Mais um dia esverdeado por um coração fraquejante
Arfante pela dor de mais um plano que é ideal
E está tarde para bolar outro, neste mar escaldante
Já me vejo submerso, em outro universo
Um mais escuro, negro, tempestuoso
Em asco de si, fecho os olhos para não ver-me
O reflexo que suma, leve tudo consigo, desgraça
Mas o tempo cura, os idiotas dizem sorrindo
Você amadurece, dizem de novo
Vejo-os mortos, em calabouços e sótãos
Ah, mas o tempo me cura, e como cura
Soca o tempo dentro do inferno, asqueroso
Venda o teu clichê para o diabo, seu merda
Viva perto, mas sempre quieto
Odeio quando fala as coisas que diz
Detesto lembrar que te vi hoje
Detesto imaginar a sua terapia diária
Como se eu fosse um doente, demente
Viajante, louco, louco
Repito ao espelho, com um sorriso claro
Eu não vou engolir o fardo diário
Ele abre os dentes em resposta, irônico
Eu sei que vou engolir, admito tristonho.
FALEI COM O CURANDEIRO
DEZEMBRO, 24, 2014.
Ah, o mar de tristeza
Me faz ver com clareza
Onde as dores estão
Ah, elas me marcaram
E me deixaram macabro
Pro resto dos tempos, me recriaram
Sou um leve toque de vida
Que se desfaz em todo instante
Tornando o paraíso, uma duvida
Vaguei por ilhas de fantasmas vivos
Tumbas abertas, caixões cheios de fúria
Espíritos enfurecidos, falecidos, sem culpa
Vi tornados de sangue, molhando os tetos de casas abandonadas
Todas largadas para própria decomposição
Vi as trevas ganhando vida, quando os pobres, foram mais ainda
Larguei os esforços “tolos” dentro de uma caixa
Com sonhos de um idealista “pequeno”
Para que eu não morresse em lamento
Vi um curandeiro, de sobretudo verde
Me contando que há sim como salvar
É na vontade que se esconde no peito
Mesmo enegrecido pela dor, em curtos momentos
Pode-se ver o clarão, que é a paz
Dana-te, curandeiro, com palavras esquisitas
O mundo é macabro, e não há nada além da vida
Somos vermes, vírus e bactérias, devorando toda a matéria
Vamos enfraquecer!
Vamos nos ver morrendo!
Até que, no fim, perceberemos!
SUAVIDADE
NOVEMBRO, 17, 2015.
I
Vi, senti lá dentro
Contei, não lamento
É de fato o fragmento mais belo que já vi
A impotência diante do espelho, guardei meu desejo
Vi, os teus olhos crescerem por vezes
Contei, para os cacos espalhados, paredes amigas
O gosto adocicado, da tua presença, esperança viva
Causei um transtorno sem retorno, lá onde tudo some
Vi, a tua risada contaminar minha alma
Tentei guardar toda ela, tentei fazer parte dela, ser culpa
Quero ter culpa das coisas que faz, ser parte do teu
Tornar o meu, o nosso mundo, se é que posso sonhar
Vi, as lágrimas incessantes, o meu olhar distante
Lá onde se imagina, a calmaria, tem seu nome
E esconde-se com pressa, me estressa
Preciso da fé que não nasce, para manter-me vivo
Vi, assisti de fato um pouco do enfraquecer
Temi não suportar nos ombros, capotar e desmoronar
Deixar que tudo sumisse, por razão própria
E assim me largo entre os ratos, os esgotos ociosos
Vi, então tudo acaba
Os corpos descansam
Completamente a sós
Em um quarto escuro, antes ou depois do fim do mundo.
II
Vegetar, planejar um ambiente mais puro
Como se a pureza fosse clareza importante
Num matagal de urubus famintos
Ser a carniça, alimentar, abrir feridas do próprio temor
E do pavor, deixar-se levar
Amedrontado, num beco, voltando para casa
Ser um mero mortal, aceitar
E dormir, pelas coisas simples.
III
Deixa-me entre o ácido piso, a cerâmica que rasga
Os pequenos vermes sobem pelas costas, deixando rastros
O peito enegrece em putrefação
Um objeto obsoleto
Sonhei todos os dias com o dia que vi o teu sorriso marcar
Desgraças e pragas, jogadas ao vento, ofensas ao invisível poder
Jamais terei de novo o mesmo, se é que a retorno pro começo
Ou o perdão tem significado algum
Vagar pelas ruas, buscando você
É como se perder dentro do próprio quarto
Um labirinto de paredes infinitas
Grandes e fedorentas feridas
Jamais abertas ou vistas
Percebidas pelo olhar, o meu
Culpando-se, pela sua visão
Que para tu, tudo é loucura.
FALAR
NOVEMBRO, 15, 2015.
Vagar pela terra sem ideias, é o prazer concretizado
Vão contar histórias de antigos sábios, como se fosse possível
Abir os olhos e não lacrimejar, com as trevas que passeiam no ar
A ciência da destruição, a sabedoria do descaso, o nefasto plano
Tem ideias que são boas, distantes da possibilidade
Existem ideias ruins, próximas da verdade
Possuo um corpo, anulo-me para dizer
Capazes serão os mortos, de sorrirem enfim
Aha! Vai me contar sobre algum paraíso mistico
Soca as ideias dentro do teu papel no mundo
Que é nulo, coisa asquerosa!
Mascarar tudo que lhe faz real, neste surreal manifesto humano!
Tu se é que existe, não é
Tu se é que teve voz, não ouviram
Tu se é que pensas, já me cansas
Tu se é que tentas, não alcança
Corpos e corpos, mortos e vivos
A diferença é nula, se é que estimula algo
Pagar de sábio ou não, escrever ou não
Não muda nada, se não te dá poder
Tu é o pouco de poder que possui
Se toca a mim, de que adiantou, otário
Se toca pouco, de que serve, otário
Você é simplesmente este pequeno objeto, otário
Otário, por compartilhar algo
Otário, por não dizer algo
Otário, por ser você
Você é otário por ter de viver
Não se entende a culpa das coisas, quando você está lá
A culpa é sua, o passado passou e a vida não volta
O que te faz um monstro, é você e pronto
Otário, você tem orgulho de ser hétero, caralho, que otário.