Diálogo sobre a memória \ Não digere. (Sabor)

JULHO, 29, 2015.

Não digere. (Sabor)
A digestão das ideias opostos as tuas, como dores que caminham pelo corpo dos pés a cabeça. Seus ideais são tão insignificantes, mas ainda assim o teu olhar não o é, as coisas que fala e produz, enchem-me de um vazio completo sem fim ou pausa. Para que as cordas vocais da minha alma não explodam de tanto gritar em uma repugnância infinita de coisas finitas e fúteis que caminham do teu cérebro a ponta de tua língua. Esperando o tempo que não tem pena do meu pensar, que está entupindo com toda esta fraqueza admitida vinda de teus planos. Contando todos os segundos do mundo, para que feche a boca e deixe-me selar com um beijo fútil, simples hormonal, fazendo-lhe pensar que enfim aceitei com todo o afeto dos céus, este bueiro que é o teu existir. Mas ainda assim, os teus seios, os teus desenhos, fazem-me fraco de novo e vou ter de estar sóbrio amanhã, lembrando que fui comprado pelo puro instinto animal.

Diálogo sobre a memória.

JULHO, 29, 2016.

-A memória se esgueirou por todo o meu corpo, e me despedi de qualquer futuro provável, pela mágica que houve em uma época atrás.
-De que adianta carregar o tempo nas costas?
-É completamente doloroso, mas me é automático, inerente… Lutar é como tentar deformar a imagem do espelho.
-Não, não é. Você que se prende a isso.
-Como de fato se despede de algo próprio?
-Primeiro é buscar lutar contra ele, ser contra o mecanismo que desperta isso.
-Ah, seria como despedaçar por dentro, um lamento que cresceu em vinte e poucos anos?
-Sim…
-E tu acha ainda provável?
-Sim, nada é improvável neste ambiente caótico.
-Gosto quando tu fala deste jeito.
-É culpa sua, sempre.
-Teu jeito é metódico demais, se brincar jamais foi melancólico em vida.
-Devo admitir que não, tristezas que me vieram foram puro luto e afeto quebrado, nada mais.
-Ah, então agora o que me diz é puro deboche ao meu ver… sua estética é mecânica, até mesmo mesquinha.
-Que? Pelo fato de não me ambientar?
-Pelo fato de considerar minha problemática simples, só isso.
-Não considero…
-Percebeu?
-Realmente, desculpa.
-Eu que lhe peço, é até injusto fazer você ver dessa forma, é uma composição profunda para o teu olhar raso.
-Sim, mas gostei, gostei bastante.
-Pronto, agora que saca, tenta tirar de mim a memória que usurpa o meu futuro… Dando unicamente probabilidade de amor, a uma peça do meu passado.
-É impossível!
-De fato seria?
-É!
-Se eu hoje conhecesse alguém, suficiente em aparência, aproximando de contato físico, dando centenas de beijos, entregando os meus braços e pondo-me por completo nas asas desta… Até que minha traqueia de repente se fecha, ao notar “memória” caminhar do outro lado da rua, e que me compõe agora, se reduzir a uma carnalidade confusa… Como sair disso?
-Meu deus!
-Pois é…Não é que choro por isso, mas é a sinceridade que moldei ao meu espírito.
-Entendo…
-Tu se tornou simplório ainda mais, é aí que está, aí que me junto a você de verdade, tu não tem dedos ou capacidade de perceber a dor… E ela se torna invisível.
-Mas estou interessado!
-Obviamente que sim, mas a partir de agora, tudo que vier de mim, será tão inovador a tua cabeça, que participará já ingrato ao próprio corpo, vê, você se anulará, para tentar me tocar… mudando teu jeito de falar, aproximando-se do meu.
-Seria isso possível?
-Óbvio que sim, eu chamo de a logicidade do louco, diante do acorrentado…
-As correntes desprendem, pelo teu jeito?
-Quase isso… Não posso te despregar de imediato, teria que ter noção do teu passado, sua MEMÓRIA.
-Ah, não lhe daria isso… Não me é íntimo a este ponto.
-É daí que tu se despede de si, ao meu ver medíocre, quando a intimidade que necessita de mim, não é algo nascente e fluente em teu âmago, é só o que foi criado e produzido pelo espaço em que convive… Que dele, a qualquer pessoa próxima, são passos, e desses passos se percebe e se aprofunda, a partir deles.
-Caralho… Caralho…
-Não se deixe levar… Não vá por mim.
-E por quem iria?
-Qualquer um que se alia ao tempo, de forma menos dolorosa.
-Prefiro ter você de perto…
-Então me terá, não garanto-lhe ser completo, mas estarei perto…
-Fica, seu jeito me é gole de vida.
-Então embebeda-se, pois o tempo me é cruel, talvez não dure muito.

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