ESCRITA/INFERNO/VAGOS.

30, JANEIRO, 2021.

ESCRITA.

-já lhe veio a mente que talvez não tenha nada a dizer? que estas tentativas inteiras são como gritos ecoantes na beira de um abismo cáustico e que toda a tua voz reverbera as oscilações dantescas, ridículas; ora mas é possível que seja, todo um delírio coadjuvante nas beiradas obscuras dos teus pensamentos quaisquer, todos arruinando-se como que por ordens divinas; ah, sim, ora mas são os divinos desafetos, nada caóticos, todos moldurados pelos olhos claros da besta que lhe condenara; sim, sim, uma outra oportunidade para detê-lo, pô-lo diante das mesmices que digita, que desenha, que opina! para, verme, desista!

-e se eu for atroz, for torpe, for mero! quem dirá, oh, pros sete infernos com estes divinos, estes profetas! de nada lhos sirvo, lhes dou! digo e repito as mesmices da minha voz com alegria, tremor!

-é aí que mora a solidão, o silêncio de suas noites, idiota! é aí que vive todo o teu acanhamento, teu desandar, tua desgraça! ah, mas me ouvirá até o fim… não há cerveja, droga, ópio que lhe tire da própria carne! vai sempre delirar, tudo será sempre delírio, eles escrevem que seja.

-ah, aí vem tu! com esta ladainha de termos escritos, não há forma pretensiosa suficiente para digitar, escrever nossos dias! não há! ah, te fode! mais um vinho, por favor, obrigado… e quem disse que escrevo nos borbulhares, nas antecipações; eu escrevo, somente isto! não há ousadia, alegria, pretensão, é tudo numa maré; não me corte, peste! é uma maré, uma correnteza infernal, que me faz descascar feridas nebulosas, odiando cada centímetro da minha forma! -não vês, estas quedas, estes motivos! são as artimanhas malditas! és patife, és medíocre!

-e daí?!

-e daí que eu o disse!

30, JANEIRO, 2020.

INFERNO(?)

Eu a ouço crepitar da janela, feito um infante desesperado. Rastejo até o teu ruído, mordo meus lábios, suspiro já entrecortado pelos involuntários espasmos da agonia contida naquela madrugada. Vou até a cerâmica, escorregando da cama feito algo viscoso, contorcido e desesperado; despenco, acerto a testa com força e desato a rir, um riso que ecoa a desgraça, os instantes tétricos daquela forma. Tateio pensamentos ordinários, resquícios fantasmagóricos duma solidão resolvida, visito todos os rostos, princípios e não encontro paz alguma.

Vasculho os escombros do cômodo e apago todas as luzes; tenho na ponta dos dedos uma brasa que devagar vai criando bolhas na palma da minha mão; mordo-as e assisto a gosma descer pela minha língua, o espelho já não reflete a peste; me sou a peste, e de novo desato a rir.

Eu então vou até a janela do sexto andar, ouço debaixo carros chegando, pessoas rindo; visito os rostos alheios, relembro, marco cada trejeito e os manejo, dentro do crânio solitário, daquele inferno diário. Diria ainda que não pulei, mas já caí várias vezes, me assisti deslizar pelo ar, as imagens formuladas e o silêncio ensurdecedor daquela morte náufraga e ridícula. Reviro os lençóis, as gavetas, queimo todas as gravuras ressentidas de uma época distópica, inabitável daquele amor inebriante e detestável.

Resisto por um motivo místico, indissolúvel; resisto sem pressentir quaisquer proposições positivas, mesclas cognitivas saudáveis. Resisto por algum interesse magnata, sociopata, coordenado por algum diabrete sagaz, que mastiga minha carne todos os dias. Respiro na medida dos passos, todas as esquinas um mormaço maleável; as luzes que jamais se repetem, onde tudo refaz-se novo.

Traga tua alma da próxima vez e a deixe nua, arranque os olhos para que os lamba, tire do corpo a língua, os dedos; vou corroer cada centímetro dos teus traços, jurando-lhe a ternura que me é indiscutível, factível; preciso cheirar os espectros, toda a superfície… voltar das curvas puramente entorpecido, incontestável. Não juro nada, nada mais que o óbvio.

20, JANEIRO, 2021.

VAGOS. (1)

Trago-lhe de novo, a mesma questão, sinto-me até pífio de de novo, trazer-lhe o mesmo; os dias não parecem trazer justiça, minha voz se embriaga na rouquidão solicitada, de tanto cigarro que fumo; visto os mesmos trapos, tenho uma colossal preguiça de rastejar até uma nova loja, escolher uma nova forma; e digo, com sobriedade líquida, que estou só. Me sinto só, do abismo de uma epopeia cínica, de uma tentativa mesquinha por algum poeta maldito. Ocupo meus dias com o ócio plácido, tétrico e plástico, são repetições oriundas do massacre diário do meu ego; não pareço trazer no bojo quesito algum, força alguma para sustentar-me. Oh, se pudesse, daria cabo, rasgaria meu crânio com um machado e esquivaria, escaparia, preencheria meu corpo de algo outro, qualquer outro impasse que não eu. E esta solidão crepita, morde minha pele e arranca pedaços, por estar só, me sentir só. Ouço por aí que é tudo meu, culpa minha, que devia resolver sozinho; que este movimento, é simples carência. Mas sinto, oh, que estou de novo fazendo parte de um encontro, de um movimento coadjuvante, assisto a melhora do outro na minha ruína.

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