INQUIETO(3)(4)(5)(6)

23, ABRIL, 2021.

SOU PÍFIO. INQUIETO (3)

Existe esta forma minha que é ridícula em suas comparações ordinárias, vive atribuindo a si uma falta contínua de ser, movimento, o outro é sempre maior nas conquistas e em trejeito, forma prática. Existe este ego que devasta o próprio âmago, manchando o pretérito, presente e futuro de chaga, mordidas insólitas de parasitas mesquinhos. Não rejeito esta forma, é eu, sou eu explícito, hediondo no jeito de conduzir-se à negação completa; repleto de abjetas constelações impostas, pelo medo, pela falta, sempre uma falta diante do outro. Meu jeito neste estado é raquítico e pífio, sou mero, indesejável e intragável, vou odiar você e o próximo de você, vou odiar todos. É a sina, daquele que diante de si não se permite ser, continua a rasgar e abrir feridas na memória, nos ecos simbólicos dos dias comuns; sou mesmo nefasto em ter todas minhas criações idênticas à uma chaga qualquer. Sou este, este que descarrega toda uma agonia contida de semanas em uma manhã qualquer, sem piedade alguma, sou a contínua negação de si. Mas existe esta forma, como as outras; porém, como todo movimento, todos os ecos são mesquinhos, rastejantes e delirantes.

Entre eles, neste estado, sou o minúsculo trajeto desgraçado de uma ideia fajuta, vou atribuir a tudo que construí comigo, contigo, a um tipo de inferno indesejável, deletério e que em momento algum fui capaz de produzir sentido plano, plácido e claro. Espero desta forma somente isto e o seu retorno aos meus olhos, virá sempre com o caos das afecções, as uniões, serem pestes sólidas. Neste trejeito qualquer um é maior que eu. Qualquer ideia, qualquer tentativa, qualquer ser. E ele em mim pulsa, resiste, existe e explicita a ridícula parte de me ser. Pro inferno com isto.

Maior que eu, melhor que eu, ah, a satisfação de uma comparação oriunda de qualquer desastre introspectivo. A satisfação que nem é melancolia ou luto, é só chaga, putrefação do sentido. Eu sou pequeno, sou mero, sou pífio.

29, ABRIL, 2021.

INQUIETO (4)

Os aspectos mórbidos do fim, que ecoam pelas breves tentativas inaptas de respirar. O corpo exausto, escasso, diante de tentáculos ásperos, enveredando a pele, expondo-me a navalhas inebriantes, um silenciar e diante do trágico rotineiro, pulsão completa de morte.

A morte! Ah, ode, desespero humano. Nefasto, simples, bárbaro. Voltar ao princípio básico, o sórdido conteúdo maléfico do existir e os dados sensíveis que gesticulam e aprazem, transformam tanta chaga em continuidade, rotina. Forte, impacto, deveras desgraçado.

Sinta a chuva escorrer e passear pela tua pele, ela é rara! O sol arde e arrasta-se pelo piso, pela memória e o molde, o espectro é justamente o insustentável, a necessidade execrável de ser. Ser, diante da impotência, esta, simples, o ato! O ato!

Veja a decomposição simples, você devagar a esvanecer. Veja, de perto, de perto, pertinho, o cheiro último do gozar, satisfeito! A última vez.

18, MAIO, 2021.

INQUIETO (5)

um dado sensível desta forma é a corrosão, o ato inconsciente de devorar a si mesmo constantemente, incessantemente. é terrível, sem metáforas ou quaisquer resquícios poéticos, é uma proliferação tétrica de ópio, torpor. sinto machados escorregando do teto, cravando na minha testa, todas as noites. sinto agulhas arrastando-se pelo piso fétido das minhas veias, cavando espaços vertiginosos, me causando movimentos de agonia. sinto tanto, tudo, todos eles mordendo sem piedade alguma o meu pescoço, deixando rachaduras nas traqueias e silenciando meus dias, tornando-me não apático, mas mero, devorador de tudo e refletindo nada; um reflexo esplêndido da morbidez celestial, das pausas insignificantes e lotadas de agonia. dividir minha alma com estas vozes constantes, dentre o medo delirante num movimento completamente caótico, todos os dias. não consigo acessá-los, quais comprimidos virão a calhar? desgraça.

25, MAIO, 2021.

ME PERCO. INQUIETO (6)

sinto a forma esgueirar-se pelas curvas malditas dos meus dias, formulados pelos desejos sórdidos; rastejo devagar como uma tentativa de escape inútil, num desejo nítido de ser alcançado e decair, descer ao nível deletério e estático, de um ser infrutífero. ouço com atenção as proximidades, invejo de forma escancarada a mediocridade, que é a esplêndida continuidade dos dias, de ser; oh, se pudesse afastar a golpes puros as aberrações contidas em cada tentativa pífia de tentar por pra dentro do cérebro algum conteúdo. a desgraça, a peste que é repetir incontáveis vezes o mesmo trecho, a mesma imagem; tudo parece veloz demais, claro demais, de arder os olhos.

vez ou outro sinto os lampejos, são lapsos borbulhantes que afastam-me da agonia comum, põem-me numa cadeira desconfortável e caricata, a coluna curva-se, os os dedos ficam estreitos, convolutos e as palavras impossíveis, detestáveis, insuficientes. oh, mas eu ainda os vejo, como os vejo feito espectros esbeltos trajando e golpeando aberrações convulsivas.

perco o ritmo, desculpa. é parte da chaga, a pior mesmo ante as vozes, eles.

me perco.

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