UTILIDADE PEQUENA./ DIALÓGO SOBRE OFÍCIO./ ANÁLISE DE UMA NÃO ATITUDE/ONDE.

16, JUNHO, 2019.

UTILIDADE PEQUENA.

A agulha perfurou o telhado, arrastou-se, esgueirou por entre baratas e aranhas, besouros e teias, até tocar um forro antigo, maltratado; rejeitou qualquer pensamento, tal qual um embrião ou recém-nascido; a ponta chacoalhava como rabo de cobra diante às afrontas, apesar de ser um objeto simplório, tão antigo que nenhum operante das costuras o aceitaria. Esta agulha reluzia entre migalhas empoeiradas, rabiscos iluminados entre frestas esburacadas pela ociosidade do tempo; regozijava, saltitaria caso tivesse pernas.

Ela tinha um objetivo qualquer, até risório diante das histórias incríveis ou poesias robustas, majestosas, metafóricas -queria apenas furar, perfurar. Conseguiu sentir, arrepiou de ponta a ponta, encontrou seu alvo. Em uma cama minúscula, sentava um homem pequenos de corpo esguio; projetava uma sombra pontiaguda na parede suja e rabiscada. Puxara um cigarro, que encontrou debaixo de um lençol surrado; acendeu e ligou a televisão.

Este seria um momento perfeito, caso houvessem situações incríveis, calculadas que iam obviamente acontecer; diante de si, em um forro qual as frestas reluziam e se reproduziam como embriões, a agulha postou-se frente ao abismo e o homem. Estava recuperando algum relato, da linha, uma ultima que atravessara-o, fazendo de si um objeto útil, uma ferramenta perfeita; tinha sido previamente o mais utilizado da senhora Rocha Balbo, até que apresentou um pequeno problema radiante: adquirira forma, pensamento e ódio.

O círculo ondulado, dava um perfeito ataque-livre. Aquele sujeito precisava de um corte profundo, asqueroso e magistral; o asco não viria de si, ao menos não da agulha. Quem quer que fosse este, veria com um olho só pro resto da vida.

Caiu, como um pássaro ancião ao farejar uma presa.

Não houve grito, não houve nada. Estava por dentro do globo ocular, uma perfuração cirúrgica; esgueirou-se em extrema velocidade através da íris, fez o sangue jorrar como saquinho de gelo; ao sentir a pressão gritante do nervo ótico, sentiu um alívio divino e pode enfim sucumbir; seu foco era cegá-lo, não matá-lo.

O grito deste pequeno ser projetou-se por todo o cubículo, arranhou os lençóis e sujou as roupas; o medo escorreu pelos dedos, e os ossos pulsaram; um azul cintilante começava a instalar-se, no canto esquerdo, vagarosamente tomando conta do visto; cada tentativa de rever, era uma agonia, tal qual seria por e retirar uma memória instantânea. Até de fato reconhecer o azul celestial como cegueira, teria já posto tudo em letras, imagens e desenhos.

11, JULHO, 2020.

DIÁLOGO SOBRE OFÍCIO.

-a problemática de por esta obra em movimento é desgastante, como será colocá-la também. ler, ler para ser um ofício um ato-puro – como puro, o simples ir e finalizar algo-, movimento solene e calmo de uma arquitetura que se faz necessário. este momento, irmão, é o que fode.-por em prática tua crença? tuas virtudes viciosas?

-por em prática tua crença? tuas virtudes viciosas?

-sim, elas me rodeiam constante e deliberadamente, rodopiam, mascaram e transformam estas páginas lidas em meras, desnecessárias; uma falta contínua de propósito no ato-de-ler.

-e que espera? que de repente virará carne e unha? não acho que deva ser deste modo, ler como ato-puro é fazer do lido um objeto de conteúdo contínuo e obrigatório para a própria essência do dever-ser. vejo que lhe falta isto, a noção prática do seu objetivo.

-curioso, sim, sim, curioso, que eu caminho por estes cacos e rasgo minha pele, nos farpados, nas unhas e o alheio; sim, o alheio, que é o outro, transforma-se numa figura obrigatória para meu espírito.

-e deve, que seria se fizesse por si e só pra si? parece-me insustentável, como se tu fosse incapaz de seguir e dar cabo disto, sozinho.

-há este que tenha ido só?

-no teu ramo? com certeza, posso contá-los.

-a questão não é esta disputa de ego, é meramente a de que e em qual momento isto se tornará natural; como antes fora chutar a bola, iniciar uma partida e a lista poderia seguir.

-mas deve-se atentar que todas estas exemplificações que deu, acabam de roerem-te mais ainda; pois em nenhuma delas, houve ato-puro, somente um passa-tempo ordinário e calejante para tua alma.

-é real, não consigo identificar o que faz deste ou aquele(a), um ato-puro em determinada área; as obrigações eu percebo, os motivos, os tipo, o tempo, o futuro; não é como se eu fosse pretensioso e destrutivo, simplesmente exponho uma falta; um momento que estático está meu espírito, na posição deste objetivo diante de mim. entenda, é como e é nas observações puras que faço, quais guardo e nelas está coordenações e finalizações últimas de pessoas que não eu.

-o papel de observador não liga-se no teu objetivo?

-não, pois eu também passo a me observar; quando obviamente não deveria, ler-me ou julgar-me deve ser a partir de fora, não completamente de mim. o espelho muda meu semblante, minha alegria, meu medo pois quem está a observar sou eu.

-entendo.

-não há um final predileto para isto, pois sinto que devo continuar a ler excessivamente e eventualmente será meu ofício. por ora é sempre um desmotivo, um desmedir longo e cansativo das páginas todas, das ideias complexas que injeto no sangue.

-e delas, na mesma hora que as capta pergunta: PRA QUÊ? é isto, então?

-exatamente isto. como pode Lukács ter alcançado a prática de tamanha bibliografia? ou escolho o método ou questão errada? por não ter escrito drama, romance algum? provável.

-vai te foder então.

-que é isso?

-exausto, tô exausto de tua meia-boca, falta de… de nada, cabeça miúda, lhe falta empenho, deixa toda esta arquitetura modular seus labirintos e vá, vá sendo.

-…

27, ABRIL, 2020.

ANÁLISE DE UMA NÃO ATITUDE.

esta forma, visível, de rastejar pelos semblantes dos homens quais detesto e admiro, na medida as atitudes vis, sombrias; como esta forma, visível, de rastejar pelos semblantes dos homens quais detesto e admiro, na medida as atitudes vis, sombrias; como se houvesse algo discrepante entre meu silêncio e o grito deles, seja ricocheantes em paredes alheias, voltadas pra si, que quebrassem espelhos, ferissem almas. eu não fui capaz de tê-los, emulá-los, fora sempre observador crítico, crepitante até um ápice em que gritava aos quatro cantos de um cômodo lotado de mim, que devia também quebrar e ferir; e era posto ante uns que diziam, não é questão de ferir, como se não fosse, é questão de agir! e os tormentos da alma as vezes são amorais, são tormentos que precisam escorrer e ecoar, nem que arda, destrua, derreta! e eu nunca fui, jamais soquei a parede, quebrei a garrafa, cuspi o nome ou simplesmente fiz o choro brotar dos olhos alheio, como estes fizeram… e então acuado, descanso o corpo na cama, de algum pretexto, loto meu espírito de afeto cardíaco, brilhante e adormeço, satisfeito, de não carregar nenhuma maldição… e ser chamado de moralista, por algum deles é a diferença simplesmente de um analítico, ao que será analisado.

talvez o meu não-ato, seja o ato que me molda, me esculpe e me faz ser, este que sou e causo o tipo de indignação e escancaro o abjeto, deletério robusto e medíocre dos supostos magistrais atuantes, protagonistas. talvez ao teor lukács, sou crítico, talvez seja nada.

28, MARÇO, 2020.

ONDE.

[…] em um dia destes dou cabo de mim, rasgo as costelas com esta faca de serra; junto meus joelhos perto do queixo, vejo-me devagar esvanecer. sei bem da dor que virá, do estímulo e o natural, esta pré-história malograda, duma evolução forçada e uma involuntária formula de acasos trágicos, feito o meu; a teia de laços não me comovem, já fizeram; até que assisti uma chantagem colossal do sangue ao sangue, o hereditário. caso encontre meu corpo decomposto ou em ato, o chute, chute como chutou a coitada da pedra, no caminho ao mercado ou aquela lembrança detestável… […]

Deixe um comentário