28, JUNHO, 2016.
O sol se foi.
As vezes espero o pior da própria agonia contida, em um certo tipo de destreza melancólica específica, por-se em um pequeno canto, esgueirar o máximo possível para lá, onde o sol nasce somente uma vez. Acompanhar o grito de homens e mulheres, todos lamentando o que haviam e haveriam de ser, mas não foram e nem hão de. Repetindo calorosas ideias plácidas, quando olham para o céu azulado, de poucas nuvens, afastando até das ultimas horas, qualquer lembrança ao temor de um trovão. As águas se acalmam, mas onde estou nunca chegam, evitei qualquer entrave ou conversa, preferi inexistir nesta terra. Comigo uma vela, alguns amores antigos, a barba crescida e um aspiração enorme em conhecer o pós-vida. Alguns profetas medíocres iludiram o meu corpo, por alguns dias, devo dizer-lhe, mas não me foi suficiente. Em algum ponto da fala de qualquer ousado, sinto um calor distante das condições propostas, e as almas se expõe -leio-os feito diário infantil- e é o fim. Faço-me soberano, não para que se aplique, mas em alma, um egoísmo para acalmar meu espírito rebelde.
Distanciei o espírito do espaço físico, sou um ser sonoro agora, de passos e motivos automáticos. Dei ao orgulho um abraço apertado, mas a promessa foi fajuta. De cima do muro me vejo, passeando pelas calçadas, sentindo ainda um pouco de ingratidão em raros momentos, quando assisto da tela, detrás do espelho o teus olhos pressionando os meus. Grito, mas ecoa só para o breu do inexistir, e lá é sem fim, passam-se semanas e ainda me ouço, e te vejo, me vejo ai fora, pondo todos os projetos de sossego numa forca, solta por um mesmo ser.
Golpeiam-se as grades, quero voltar para esta cidade, de ruas, bairros, prédios preenchidos pelas milhares de faces que me dei, antes de despedir-me de mim.
28, JUNHO, 2019.
Mantra abertamente (morto).
As minhas pernas começaram a tremer, tremem como que de surpresa tivesse visto a morte; elas insistem, pois de conta própria conseguem e por conta própria são capazes, ainda que, irritadiço como sou as reprima e acalme. Não em toda noite, nenhum das noites, caso eu pudesse ou tivesse a chance de ser preciso relacionado a algo; estas pernas deveriam sem dúvida, supor alguma relação maior ao tremelique angustiante, porém, serve de convite aos braços -juntam-se como que ordenados-, logo inteiram a dança e sou-lhes servo. Meu abdômen resiste, acho que pela proximidade, íntimo de alguma parte ou desejo mais consciente, um tubo ligado dos órgãos ao cérebro rastejante, delirante. Eu perco, faço-me feto, e a cabeça retém-se e chacoalha-se em movimentos aleatórios e bruscos, socando a tampa da testa no pontiagudo joelho; caí, caí da cama! penso eu, mas é tarde, já caí.
A queda seria respeitável se, somente se tivesse sido vista por uma testemunha ocular; os ruídos de um corpo que cai, nada são, pois aconchegam-se nas empíricas formas dantescas de qualquer outro, como miados, latidos e ódio alheio; eu caí! penso de novo, rastejo até a ponta da cama e mordo a pata pontiaguda da base -que rejeita-me. Meus braços, enquanto tateio ainda exigem velocidade, as pernas também, sou como um pequeno peixe fisgado e retirado do rio, lago; tateando e debatendo-me, precisando ensandecidamente de controle.
Lágrimas escorreriam pela fronte, rasgariam minha pele, meu nariz haveria de ser como a cova ou algumas covas, indicadas aos eremitas; nenhum homem deveria ver-me assim, penso, ninguém deveria. Uso das gotas escorregadias desta desgraça, para aconchegar meu cansaço, exausto desta luta fatigante, metafisica; penso, penso muito na sombria, penumbrosa forma melancólica da morte, do silêncio defuntante, ecoante -sombrio. A morte jamais me traria nada.
Os meus finitos acabam, nesta respiração ofegante, arfante e mais rouca, tal qual um ébrio fumante de épocas, ao esperar um café para despertar um axioma; morte, morte! Reter, popular a esfera cósmica desta ótica, e o oxigênio rarefeito, das pernas que esticam e pendem, expurgam as bolotas do joelho, e eu com as mãos tentando rasgar a garganta, para encontrar ar, furar a pele e os músculos, a traqueia e fazer vazar, para equiparar-me e ser pura atmosfera; é isto, meu desejo, minha peste e alma, ser a atmosfera desta desgraça.
“Se há espírito, eu o expurguei em palavras; espírito na medida do desespero, da angústia; e a palavra desgraça que a mim surgiu cedo, lá na infância, quando traduzia ou tentava sacar o inglês.”
27, JUNHO, 2021.
VOCÊS.
Vai ver eu sou incapaz de seguir em frente, de esquivar-me das memórias que rompem minhas veias. Sinto os espectros de ideias recentes arranhando minhas costas, mordendo meus músculos, prendendo-me no piso fétido, das místicas formas que lhe dava antes de cê partir. Requisito ao divino espírito que outrora me ludibriava, requisito com a calma de uma peste que urge, assola sem calma alguma os meus timbres, meus gritos, requisito uma simples trégua para as vertigens e a queda livre diária.
Todas as suas memórias cravadas na minha carne exposta, minha língua que cantarola versos enquanto sou alvejado pelos fantasmas do teu rosto. Os dedos vão devagar requisitando processos alquímicos ao cérebro exausto, imploram por meios de traduzir a inquietude injetada pelo teu nome. Pros sete infernos com a forma inquisidora de ter-lhe sido, de cê ter passado por aqui.
Não ter dado um fim que ecoasse mais alto que a saudade nefasta e nostálgica de todas as sessões que nos demos. Não ter cortado pela raiz e ter visto a forma derreter e virar um balde de tinta maldito, para arrastar pelas paredes do quarto e substituir os gemidos, o riso, pela mancha infernal do fim. Um fim que ousa escapar dos sentidos, agredindo os passos contínuos, tornando a memória do nome sempre um corte grave na chaga; a chaga que possui espaço, tempo, corpo, alma. A robustez da peste que não solicitei, por uma visita incauta numa foto antiga, que rasgou o peito, abriu espaço entre as costelas e depositou ácido.
Tantas visões comuns ou estados de ser que repetem-se em continuidades simplórias, esquecer, a mim parece um movimento transgressor, metafísico; não dou-me o luxo de regozijar a saudade de uma epopeia, dou-me ao contrário, o purgatório.