28, JULHO, 2021.
INQUIETO (9)
Engraçado que estes resquícios vão vergastando a pele, deixando marcas hediondas de cada época medíocre da minha vida; cada passo que ousei, todos os rastros de pavor e medo que engoli em seco, como comprimidos volumosos que travam na garganta.
São resquícios, algo profético, simplório, detestável. Dentre eles e aos quais conheço o nome, sou o ápice de algo pífio, o alcance de um cume que regozija-se nas sensações que transitam e formulam estabilidades vis. Dentre todos, dos rostos e formas que arrastam o senso para um tipo de questão espectral, sou então um fato mórbido, algo repleto de ordenações abjetas; e como um fardo factível, um tipo de afronta aos ecos de uma divindade torpe, que em seu desejo infantil projetara a condenação de vozes criadoras a manterem-se dentro de mim.
A sobriedade de quaisquer comprimidos ou comparações não afastam sequer por um centímetro a suposta chaga. Os movimentos que faço em revolta, toda mínima observação meticulosa de todos perto de mim, é uma análise, um ato de súplica, algo que aproxime-me deles. De nada adianta. O estado estático ou a estabilidade como chamo, produz e manifesta coisas ordinárias que me faz e mantém no cume daquela doença, ser um tipo de obstáculo para eles.
O cômico é justamente o conceito de ‘chaga’, ‘doença’; a sensação é de uma perpétua instabilidade entre o nítido e o contraste, uma projeção que solidifica um tipo de eu completo, repleto de sistemas e a exposição de mim ao movimento do mundo; sempre um conflito, uma antagonia nefasta.
04, AGOSTO, 2021.
INQUIETO (10)
A rotina destas transfigurações vão transformando-me numa composição abstrata, que reflete ordenações próprias; são convulsões sólidas, postas sobre mesas ao som de relógios.
Meus dias são contados por diabretes simplistas, trajando roupas medíocres para labutas mórbidas; vão roendo as unhas, trocando olhares e me categorizando como algo pífio.
Tenho um pavor líquido das incertezas que pulsam diante dos trajetos que me dou, cada curva e brecha, respirações oscilando entre o arfar e a falta.
As ondas findam-se em beiras quais escapam minhas vistas, ouço-as atento, cálculo com cautela os seus intervalos e sempre que encontro um ritmo me perco, volto ao início.
Tenho testemunhas demais para traduzir isto, as tenho orbitando sobre meu crânio como um planeta distante, elas sabem do início ao fim o que quero dizer; o agudo gemido que solto, na reação insólita ao fato de que enfim, tenho a certeza de estar falando sozinho.
Respire, quero conversar com você. Ouço com um tipo de aspereza mórbida, rejeito a tese, não apresento nenhuma antítese, só levanto-me e levo o café até o corredor, ofegante deixo as gotas caírem e mancharem a cerâmica recém passada. Não vou mostrá-lo, digo, não permitirão que me mostrem.
Detesto dias assim, dias em que as coisas parecem se repetir, como se as organizações fossem tão cíclicas que em seus lapsos temporários confundem os medíocres, fazem-nos crer em um tipo de devir, em um tipo de caos. Não há, é um ritmo e as quedas surgem para romper o silêncio, somente.
Tenho medo, talvez seja um medo discreto, obscuro; o medo que perpassa a solidez própria de mim, faz dos meus dias algo que obsoleto e o caminho um grito de desordem; nestas voltas a vejo e fico estático, é da minha natureza ser?
O hediondo fato, desta tentativa de ser algo que não si próprio.
11, JUNHO, 2021.
DESISTA (2)
Arquiva esta sensação torpe junto daquela anterior, mas cuidado para não amontoá-las, para que não caiam sobre você; se bem que um retorno, uma nostalgia rompante em si não seja tão horrível, mas se for desprevenidamente pode surgir como uma epifania de uma desgraça guardada nos escombros da consciência.
Arquiva, deixa-os lá, são memórias como todas e quaisquer coisas do tempo, dos dias. As figuras, os fenômenos e o desejo mórbido de codificar cada sensação e enfim uma piscina curta de serotonina.
Voa até acertar a janela do alcance das tuas asas, escorregue no vidro e caia. Flutue se der, rejeite a atrofia química e sufocante da morte. Deixa que o espasmo, a explosão dos ossos, o que for, que seja.
Desista.