LAPSOS.

ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO 28, ABRIL, 2021.

1.

O rosto descasca minha pele fustigada, arrasta-se por todo o corpo; divide-se, multiplica-se e as ouço, todas num conjunto sublime de dissociação e desgraça. Tento caminhar a passos rápidos, pelos dias, tentando esquivar dos cortes graves entre os dedos, dos pés às mãos; minhas costelas tentaculares vão virando agulhas, unindo os ossos feito mãos e agarrando meu coração exposto, arfo, junto dum gemido agudo e desmorono. Divido estas horas inteiras com todas estas faces, todos estes ecos, tanta miséria corpulenta, robusta, tétrica, deplorável; dividindo tudo com um sujeito dentro dos labirintos abissais que se formulam em estática, em velocidade, em calma; não há pausa visível para o dia tornar-se comum, simplista, não há pausa pros lapsos mistificados, metafísicos, não enquanto corro, malho, exercito, amo; nada.

Terrível que a agonia confunde-se, mesmo no contato, mesmo no movimento catártico, as ouço puxando pra cima, como marionete de uma entidade dantesca. O gozo voluma-se mas não surge, não há abstração possível de um eu significativo; um eu ordenado que prognostique algo, escape da tentação que é a morte todos os dias.

2.

 A condição humana me rói o espírito, lateja os dedos e ossos; descanso meu corpo exausto, na tentativa pífia de adormecê-lo, compô-lo junto da mente uma mesmice solitária e cândida, para enfim desaparecer por horas. Não há sutileza nos pensamentos aberrantes, a carne mói e a dor excruciante assola as visões, todos os prognósticos. O escape é cinzento, amordaçado, nubla e esconde o sol, qualquer luz embrionária das vistas; tudo fica turvo, inaudível, só há aquela substância horrenda. As imagens vão se acumulando como que organizadas por dedinhos quiméricos, na distância é possível ouvi-los desatarem risos escarninhos.

 Meu corpo vai arranhando os ossos, meu corpo detesta todo movimento vivo; subtraindo-me às laterais, aos meros paradoxos infames. Não possuo resistência física para portar-me, conduzir, sinto que meu estado de solidão é um apetecer fúnebre e minhas conquistas uma imensidão vazia.

 Dividir meus olhares agoniados, dividir todos semblantes e transeuntes que me alvejam feito traças, deixando buracos no meu corpo; meus olhos reverberam somente o odioso e todas as noites deito-me feito feto esfomeado, abandonado.

3.

 Lapsos corrosivos atravessam meus olhos, sinto-me acometido por uma desgraça lenta, santificada; a memória junta-se, transforma todo espaço pretérito em uma navalha, que arrebenta e rompe tendões, sem cautela alguma. Vejo os rostos transeuntes, navegarem da ponta de seus narizes até o meu corpo, atravessam-me perversamente, fazendo de mim uma decomposição completa. Vão girando, latejando as minhas miudezas; pouco a pouco, o dia vai derretendo minha visão, transformando tudo em completa agonia.

4.

 São formas de sombra, arrodeiam a carne exposta e a carcaça que sou é um trajeto simplório diante da agonia contida nos suspiros de cada um deles; todos me habitam, me são. Alvejado por cada centímetro de desespero, contido nas sensações quais não interpreto, me falham, não me aparecem. Sou dividido entre lapsos contínuos de cortes graves, indissolúveis e a ausência de um caminho que não seja labirinto, é impossível. Eles vão fustigar minha pele até que a chaga seja rompida e a decomposição de mim, será a eles, o símbolo supremo de sua soberania.

5.

Os primeiros cortes, a saudade que surge no luto; o eco simbólico da forma física que esvanece devagar na consciência. Versos e parágrafos não alcançam o etéreo, ainda que deseje e tente de todas as formas. Os lampejos metafísicos que ecoam pelos corredores do cérebro, nos dias ordinários, erguem montes e mirantes de lógicas intransponíveis. A morte, então, golpeia a sólida parte que regozijava-se, nas sombras de catacumbas e covas rasas, mortos aos montes, os erguidos templos soberanos de si, da consciência, apodrecem. A morte é a sina, o final.

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