SOBERANIA NUM CONTEXTO SOLITÁRIO/MEDO DE SER.

5, MAIO, 2016.

SOBERANIA NUM CONTEXTO SOLITÁRIO.

Vi o teu rosto desenhado nas partículas mínimas do oxigênio, gemi num suspiro breve, os lábios golpeando uns aos outros num desperdício, as lágrimas ovulando trevas num consciente entorpecido pela tua destreza em latejar o peito,

Saia deste canto, a voz repete num ouvido semimorto, saia daí antes que enlouqueça,

A perna segue o conselho e os joelhos ligam um movimento mecânico, estou de pé, e ao meu lado no outro banco, tua face ainda reflete o asco de mim,

Os próximos movimentos são cambaleados, tropeço e beijo a ilusão, o pó espalha-se e o sol atravessa uma brecha entre folhas e dão-lhe um gosto amargo e morno, consigo ainda ver teus olhos abrirem,

A mão segura no apoio do banco, a árvore de frente debocha, junto de um vento frio, estou só,

No bolso a faca lateja, a coxa pede resposta ao cérebro que manipula um sentimento antigo, trago-a até perto do pescoço, sinto o teu cheiro e aproximo do olho,

Cega-se, diz a voz, é um primeiro passo nobre, ri, golpeia este que vê-a em todos os cantos,

Vejo a lâmina perto da íris, o peito aperta e um instinto afasta a lâmina antes de abrir um espaço e os bagaços do breu tornarem-se vivos,

A culpa vai torná-lo um acaso distinto, em deboche o sussurro, a culpa vai matar você,

O chão treme e insiste em se abrir, meu corpo cai, mas lá em cima eu fico, um vapor, fogo, sinto as chamas,

Risadas, gritos, observo todas as minhas pequenas desavenças e nas entranhas de uma sombra, o núcleo deste projeto -é o que me parece-, risos agudos!,

Tento contactá-la, mas a voz ficou no topo, lá de cima, onde a calmaria de ventos golpeando uma testa sã, num descontrole inconsciente, jorra lágrimas,

As pessoas caminham e esbarram, xingam-me, estive lá diante delas, numa calçada próxima da grama verde, diante do prédio, diante de homens e mulheres, todas vivas, constantes e maquinando, movimentando a catraca,

Ah, que desgraça, o grito surge, ele percebeu, a voz me é familiar,

Era a tua, você esteve cá e não se manifesta, fez de tudo trevas, por vingança,

A lembrança da faca golpeando o teu peito é agora doce, jamais esteve aqui, foi um reforço ambientado no desespero, de um ser quase alienado,

Criei um próprio vilão, dei-lhe nome e face, movimento e sotaque, para conhecer a desilusão, dentro do ego, o auto e o esvanecido,

Distante do olhar, do palpável, vi-te e dei razão a uma especulação criativa, conheci um pouco de tudo, a raiz deste parasita, e hoje o matei, tornando-me soberano de mim!

18, AGOSTO, 2021.

MEDO DE SER.

As vezes sinto como se o dever, a forma, transformasse-me em algo, sempre diferente de um eu anterior; os dias como pequenos dilemas existenciais, expandindo-se com agravantes mórbidos e de proposições cósmicas. As premissas do meu ser todas em um latejar submisso, repleto de fissuras dilatadas por causas injustificáveis e a hedionda sensação de repetir-se ou não progredir de forma alguma. As epifanias rastejando-se pelo solo fétido de ideias malditas, pequenos e ordinários labirintos projetando-se nas introspecções diárias. Ser será sempre isto, um ato desafiador e degradante, a luta explícita de manter-se, um movimento lúcido de estabilidade, mantida com a calma pútrida. Os ecos de um passado tétrico, anos soterrado nas projeções silenciosas e torpes, o crânio devorado por superstições de cada comprimido engolido. As sensações caminhando pelos lapsos de pequenos ideais, tornando-me irascível, repetível, um mesmo ser. Os quilômetros de escape, tentativas vis de fugir da própria forma; o medo de ser.

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