28, DEZEMBRO, 2015.
ACORDOU, OUTRO PESADELO.
Acordou assustado de mais um pesadelo, seus nervos estão mais cansados que antes de deitar, e agora os olhos lacrimejam em pavor, desespero, como se o rancor de toda a vida agora se fizesse real. Sentou-se com a calma de um anjo semimorto, os olhos avermelhados, suor que goteja lentamente, em um colchão ensopado. O lençol marrom, conta uma breve história sobre um ser descansado e acomodado. Um pequeno cubículo traz-lhe vida, a janela circular detrás da cama, deixa-o próximo do sol que lambe um pouco de tudo ali, mas nunca suficiente para ter luz. O breu é quase palpável a qualquer hora do dia, e não ajuda a aflição deste, que agarra o rosto com as mãos em puro temor.
Vagos relatos passam por sua cabeça careca, todos repetitivos, contando histórias de um mundo sombrio e macabro, um mais real impossível. Abraçando o desespero de toda manhã, antes de levantar, viu-se detalhado por um dos pessimistas. A anarquia para libertar, mas sorri em descaso, não pretende de repente tornar-se grande, sempre foi minúsculo. Um bom tempo para simplesmente ser asco, ser pouco. Viu-se de pé, em um espelho que mostra só o rosto, a barba feita, um rosto redondo, de queixo pontiagudo, lábios finos e sem vida, com um nariz torto que fora quebrado na infância. Não há nada em si que faça suficiente para sorrir, nunca foi capaz de rir para ele mesmo. Sua face lentamente se dissolve, como em vapor, os olhos esbugalham-se em torpor, sentindo se próximo de um ataque de pânico. Pega o espelho com a mão direita e acerta-o na parede, espatifando-se e espalhando uma tempestade de cacos. Sorri, finalmente sorri. Pisa em um dos cacos, como que orgulhoso, vê o sangue gotejar e está feliz.
Precisando de ar, abre a janela. De lá um vento sombrio, completamente negro. O ultimo apartamento de um prédio velho, vendo lá embaixo o caminhar apressado de centenas de pessoas como ele, com objetivos chulos num mundo imundo. Ri de novo, finalmente saca o teu projeto. Sempre foi simplesmente ser sincero, anotar as histórias breves dos pequenos que conheceu, tornando-os grandes. Não está sorridente, mas também não se deprimiu. Buscou o terno, precisa ir trabalhar. Está triste de novo. Vê riscado na parede uma frase sua: as vezes é mais fácil imaginar-se morto.
O telefone toca, o ruído azedo que tornou-se máquina de medo, feito um velho monstro barbudo que puxa o pé das crianças, amedrontado com o que pode ser, deixa tocar até cair. E cai, como seu ego, como tudo que construiu. Vê a janela comprimir-se, a parede lentamente derreter. Tenta juntar-se aquilo, mas inutilmente é somente um ser humano, e está em descaso consigo. Toca o velho violão pregado na parede, próximo do criado-mudo, toca algumas cordas que rangem, entendendo o asco que está passeando por si. “E mais uma vez, mais uma vez o mundo é meu”, canta em tom morno, a rouca voz de anos no cigarro “Suspiro suado, em meu próprio plano paralelo”.
De novo toca, e deixa cair. Toca de novo. Está no corredor, com as pernas molengas, a barriga apertado o zíper, apertando os botões, apertando o próprio ego. Desce o primeiro degrau, o desespero de mais um, de outro. Volta correndo para o quarto, e se anula. Abre a janela e simplesmente pula, deixa-se voar, buscando o céu, qualquer coisa que te salve de lá. Deste ambiente escroto, dessa vida escrota, desse mundo.
O vento atravessa seu corpo como faca, o chão lá embaixo, um moleque do outro lado da rua o vê, sorri e espera a sua queda. Já foi criança, lembra sorridente, já foi capaz de ver-se grande, mas hoje é somente notícia principal de um jornal. Quase hilário, por infelizmente ser trágico. Sua memória viva, foi o fato de ter sido mais um suicida.