29, OUTUBRO, 2021.
FAJUTO DETALHE DE UMA SUPOSTA PATOLOGIA.
Acordo e me submeto a um tipo de transe, submerso nas expectativas que borbulham diante das córneas, imagens de ambientações sólidas e intransponíveis que se substituem na sequência do meu respirar. Sou esta passagem contínua de um lapso ao outro e diante do desespero que surge na incapacidade de permanecer em um estado, grito de mim a mim, em uma certeza absoluta de que não há outra forma de ser. O espírito parece condenatório nestas pequenas percepções, um fardo indesejado. Em tentativas pífias de soberania, dou a estes delírios algo que não eles, como se não fizessem parte de mim, que são aberrações; mas de chofre noto a estupidez desta racionalização, a tentativa de transformar o ser em um tipo de doença nefasta, em busca de silenciá-lo.
As perspectivas destes momentos vão criando metafísicas, labirintos pulsantes e inebriantes para os meus olhos claros. Despeço-me do entardecer e mergulho na torpe noite que se aproxima, em braçadas rápidas atravesso as ondas acinzentadas e viscosas. Assisto o eu que esqueço na beira, ao girar meu pescoço, detesto o semblante assustado daquele que fica, feito alguém que notou a escatologia germinada por esta despedida. Deixá-lo é arrancar uma das cabeças constantes, uma das vozes, um dos criadores dos pensamentos intrusos. Os cenários fazem de mim súdito das histórias intangíveis, repletas de desgraças mirabolantes. Resquícios e memórias caóticas erguem torres e mirantes, observatórios improváveis para situações inexistentes, donde não nascem histórias ou personagens, mas sim ruína. Destroços destas sensações que impulsionam na medida que escancaram a sua própria irrealidade.
Ouço algumas certezas sussurradas enquanto espero algo na esquina de um lugar qual desconheço. Vejo carros e gente passar por mim, como se inexistisse, um fantasma. Meus olhos atravessam cada um que me ultrapassa e os guardo como fato irredutível. Alguns rostos me cravam o espírito, mordem com força e abrem a carne, sangro ali mesmo e me ajoelho em prece, por um pouco de equilibro, paz para conseguir ir até onde devia, mas este lugar já me escapou, não o percebo de novo, até o transe dos sussurros pararem. Luas vermelhas e sangrentas em um céu cinza, mórbido. A letargia se inicia, em um lapso a outro estou sentado na calçada onde deveria estar, o café quente desce pela minha garganta e as vozes rompem meu silêncio, desperto como que eletrocutado, reparo nestes diante de mim e reinicio o processo de estar e ser.
Entendo pouco das afecções que rompem meu silêncio, até por submeter-me a processos de introspecções nefastas, ambientes e cenários corruptíveis, deploráveis. São ideias de vida própria, como vozes que compartilham minha consciência, e em vão tentei afastá-las, com comprimidos ou métodos psicológicos, sempre surgem rasgando a carne, não há escape para o que se é. A verdade de cada uma delas não parece importar, são autossuficientes, vivem nas curvas e preenchem-se dos meus olhos. O que vejo produz mais e mais. O que leio pior ainda. Então entro em hiatos longos, para ter alguns dias ou horas de paz. Mas a realidade faz cortes graves no meu espírito e percebo que é hora de aliar-me a isto, pois não há outro eu.
O silêncio da realidade diante desta constante metamorfose imaginativa, transforma-me nesta certeza, o passar dos anos explicita algo que me habita, que me é. Estar entre um ideal de anos decompostos em quedas prováveis e a negação de um outro lugar. Uma contradição, uma dialética assombrada pela realidade. O horror de não ser percebido.