12, NOVEMBRO, 2021.
CONDUTA COVARDE.
1.
As quimeras do meu crânio gesticulam estes delírios, mostrando formas e motivos de cada minúscula queda; movem-se pelo tempo e espaço, invadem meu imaginário, transfigurando o visível diante de mim em ambientações detestáveis. Vejo, com a nitidez mórbida de uma ideia maldita, assisto com calma o decompor lento e fustigante da minha carne, dos meus sonhos. A tragédia cauta, modificada em momentos certeiros para que findasse, derretesse e trouxesse consigo este desejo único, de morte.
Substâncias que germinam situações, conduzem o espírito para reflexões deploráveis. A carne solicita dos próximos movimentos algo que finde, transforme a pulsão de dentro da alma em algo factível, inefável. A visão turvada, mordida por proposições mirabolantes e o caminho então se estreita, na mira de algo. Algo como uma busca, um projeto e o ideal está contido neste esvanecer lento, amedrontado. Desaparecer pelo princípio simples, pela ausência de alguma estrutura sólida em si.
Os sonhos derretidos e guardados nas gavetas, ecoando gemidos pelo quarto. Imagens das ideias, dos pequenos planos, as exaustivas racionalizações sobre si; nada mais que um corroer, o desespero das minúsculas mortes diárias. Janelas diferentes com grades diferentes em cidades diferentes, em um mesmo motivo, mesma sensação. A intenção fora sempre cair, surgir como uma ideia que enfim foi.
2.
Direções sempre foram um tipo de problema grave aos meus olhos, processo agoniante. Dizer como e por onde, o que eu quero. Qual decisão realmente cabe a mim ser, cabe a mim dever. A existência sempre fez de mim um fantasma nítido, atravessando paredes e dentro dos olhos alheios, residi como um inquilino odiado.
Sempre observei atentamente os processos alheios, sempre em uma tentativa de justificar a necessidade de esvanecer. Dei ao outro motivos, desculpas e até uma compreensão nefasta que vez ou outra me ridiculariza, arrasta para uma posição triste, idiota. Não há nada neste suposto outro que devesse me submeter àquilo, mas dei-lhe e me arrependo, em todos eles.
Impiedosos, cheios de si, com desculpas ridículas feito a pior de todas que sempre é algo como “é como eu sou”, como se houvesse algo lá no início que condenasse a ser. Existir é um movimento de contradições, percepções e evolução contínua. Permanecer estagnado em premissas para justificar condutas no decorrer do tempo, é uma tentativa pífia de escapar da própria liberdade, da culpa.
Não há motivo algum em mim para continuar existindo. Vejo a decadência das minhas motivações, das aspirações. Não alcancei nada nestes anos que faça de mim algo possível, algo para lá. Os ambientes imaginados, posições ou forma de mim, caíram pois iriam de qualquer forma.
A tragédia é visível ao olhar crítico. Ao olhar crítico como algum outro que criava a partir desta chaga, da doença do espírito; não fiz nada diferente, talvez só tenha sido mais covarde.