25, NOVEMBRO, 2021.
SÚDITO.
As situações previam este colapso, os dias contados e a montagem dos anos, arquitetando devagar, silenciosamente esta queda; um pequeno vazio no cosmo do seu existir, miragens e ilusões introspectivas projetadas através da córnea. Todo e qualquer afeto, borbulhado e transitório, decompondo sobriamente os seus ideais; uma reação sempre patética a formular-se nas suas têmporas, o olho a encharcar-se e as lágrimas escorrendo nas tuas bochechas. Teus dentes amarelados, desejo mórbido de viciar-se em qualquer substância decrépita. Todos os cigarros que pôs na boca, tragara feito imbecil, homúnculo de uma suposta existência inábil, qualquer espectador atento riria caso prestasse de fato atenção na forma como conduzia a fumaça para dentro de si e a expelia, sem sequer atravessar a garganta. Tuas movimentações lembravam sempre algo escarninho, movimentos de dedos e olhares que tentavam rasgar os outros, mas somente se feria.
Dentro das imaginações, aspectos entre real e fantasia que se confundiam desde os inícios tenebrosos da linguagem; donde fora capaz de deduzir, dentro si, uma forma sistemática de erros e enganações. Neste espetáculo, observava nos outros ao redor, sempre os tons entre verdade e mentira. Nas visões que lhe acometiam, havia sempre algo de absoluto; um absoluto mar, ondas atrás de ondas que se repetiam inefáveis. Estar consigo sempre fora contraditório, uma dialética que no tardar do seu existir vil, notaria, como método; e a tragédia que rompe as suas veias, é perceber que dialeticamente não há escape de si, é sempre um retorno à alguma dúvida.
Sons e ruídos, constituições de pavor líquido. O medo que rasga a composição dos seus sistemas. A brevidade, a finitude. Todos os horizontes mostram-lhe um só sentido, uma interação contínua dentre existir e não. O nada como fator decisivo das próprias criações, então nas inquietações diárias, dos dias que assemelhavam-se a guilhotinas pro seu espírito, surgiam questões infernais, destas subordinadas ao sentido; a este não haveria nem há sentido algum em dizer ou expor o que se é. De fato torna-se aos poucos um súdito do outro, qualquer outro que o perceba e note.
A incapacidade de materializar-se como um, dentre a metamorfose constante das épocas e os fajutos detalhes repetidos dentre os ordinários. Permanecer algo que flutua sobre os mundos e ideias, na expectativa contínua de um desaparecer; um trajeto mero, idêntico a qualquer outro. Qual aspecto dos movimentos individualizaria ou transformaria o ser em algo que fosse de fato ser? Ser neste espaço, em busca de alguma forma de ‘eu’ que não esteja rastejante e em desgraça, alcançar com dedos pequenos, fétidos, minúsculos, alguma forma do espírito, da consciência manifestada. A linguagem reduz-me ao corte grave de uma projeção. O eu estará contido na infinita ausência de si.