11, ABRIL, 2022.
OBSERVAÇÕES DO EU PRÁTICO.
Múltiplas são as voltas que dou ao redor destas ideias nascidas como úlceras na minha pele; açoitado por cada detalhe minúsculo, entre lapsos conduzindo a quedas introspectivas, ante os outros que me atormentam sem causa alguma. Ondas acertando os recifes quebradiços desta estrutura pífia, constituída por sombras e organizada por diabretes caóticos, impiedosos. Pulsam nos horizontes intermináveis de toda tentativa minha, quedas; qualquer movimento, está prestes a ser um novo abismo e a queda, até estatelado estar em algum piso aleatório pela própria premissa do meu ser, onde independe o lugar, a ruína será a mesma.
Um lugar específico parece inescapável, construído por algum lamento nítido esgueirado da boca deste ser divino. Formas caminham feito transeuntes incomodados uns com os outros, entre sussurros e cochichos criam devagar pequenas partições, sociedades intransigentes e cheias de si; egos elaborados pela ausência completa de nitidez, ali ninguém sequer alcança no imaginário como se é ou ouve, mas entendem-se. Este lugar é mantido por uma apatia completa, certeza escancarada de que nada há para além dos murmúrios, lamentos e feito fumaças fantasmagóricas ecoam, espelham-se, flutuam neste espaço completamente ausente e preenchido por esta noção injetada, natural, de que nada de fato se manifesta e é isto que exatamente permanece ali.
Nas pequenas rotinas que conquisto, no desgosto agudo do hábito nascido, grito até sentir um rasgo nas cordas vocais e sou transportado para lá, onde sou completamente ausente de forma. Não há fluidez lógica para satisfazer minha inquietude, o devir parece um detalhe homogêneo entre meus dias, e toma conta das minhas partidas indubitáveis e como me transfiguro em átimos mais parecidos com absorções inefáveis. O conteúdo necessário das razões de estar, não surge sequer diante da guilhotina.
O ato sempre surge como algo corrosivo ao prognóstico. Submergir no redutível ou o que escapa dos dedos controláveis, planar na obviedade indigesta das existências alheias autônomas. Caminhar do terceiro andar ao térreo e ir em busca da finalidade organizada nos diálogos ininterruptos de si a si, visões cósmicas habitadas por semelhanças fictícias e todas os seres manchados na alma, quais não deixo desgrudar de mim. De uma calçada a outra nasce o detestável, irascível como em paradoxo o incrível e surreal. Em todos os tipos de premissas e previsões, a robustez específica sempre é o gosto deplorável que o real tende a causar.
Dialético. Calculo nas distopias mirabolantes um tipo de metamorfose constante nas minhas permanências, transfigurações e recusa líquida de costume ao meu próprio rosto, cada vez ao passar em corredores espelhados percebo um trejeito novo, articulado por dedinhos invisíveis, a mim como evidência do lugar das sombras apáticas. Sou feito uma sombra, semelhante ao desejo impetuoso de tomar forma. Diferenças constantes percebidas soam como insatisfações de um homem, mas na verdade são todas variações metamórficas. Contrastes entre ser isto e pensar algo; a dialética parece justificar-se na pura inconstância diante do conceito determinante ou material a construir e ser. Em mim o ser é indeterminado e tudo que me surge eu devoro e transformo em pulsões do espírito, não parece aprendizado, parece ser.
A robustez da forma prática, o paradoxo do ser algo determinado na pura indeterminação; impermanência permanente nas criações atribuídas a este conceito. Tornar meu espírito caótico em algo prático, distante do hábito, da organização, do sistema; mas retornar até a ponte do delírio deste novo ser, que diante dos inebriantes constantes delírios, sempre se percebe no final da queda, mesmo estatelado e pisoteado por angústias divinas. Há em todos os cantos que atravesso, humanos que percebem esta robustez da forma, e ficam, pois no ato de ser percebido os percebo e mantenho comigo, com o afeto eterno; a mim a incerteza das razões das suas permanências é suficiente para amá-los; pois os devoro e sou devorado, aprendo e cresço, pois, permito que seus cortes me transfigurem e me façam seguir no puro paradoxo da forma prática.