CAOS SIMPLES. (ANTIGO)

????, 2013, ????

Eu, você e nós, quem seremos no fim? ou CAOS SIMPLES.

Todos prestes a serem como são, todos como eram… é tão empolgante e assustador, que as entranhas se contorcem pela traição que está perto. Passado tanto tempo sendo um falso projeto de desejos alheios, agora tudo se desmorona pois do nada, é necessário desmascarar toda a mentira contada, por mais leviana que tenha sido, um mundo sem positivismo, uma falsa liberdade projetada; intuito de apagar inverdades tolas, sérias… simples inverdades!

 O que fazer diante deste choque, no final da tarde, o sol se pondo, eu cá escondido de trás de uma pedra, tentando acender meu cigarro, um pecado claro, pois como é de se esperar, seria uma atitude no mínimo asquerosa na visão da velha, sim, da velha… Mas então, o sol ganha uma voz, uma voz terrível e assustadora! Ele diz “Poupem o tempo, pois é chegado o fim! É a hora de contar, de dizer, de ser quem és de fato! Eu sou o sol, e porra, eu estou falando! Vamos, apontem, mostrem os seus cigarros, as bebidas, os teus pecados! Pois eu sou a verdade, eu comando tudo…!”, e então se põe, como um humorista ridículo e sua piada tonta. Eu estava confuso, devo ser idiota, não tava nem dopado ou algo do tipo… era um simples cigarro, atrás de uma pedra, com o rio a lamber a beira.

Mas o maldito do sol realmente falou e as coisas enlouqueceram. Meu vizinho, o João, saiu correndo com uma bola na mão e uma mochila nas costas, sorriu pra mim e disse “Eu sou livre, macho, o sol falou! O sol falou!”. É, eu devo estar drogado, foi a primeira coisa que pensei. Mas todo mundo fugia, poucos ficavam em sua estadia comum. Percebi do que se tratava… era a libertação, nós, todos nós agora seriamos quem eramos, vamos ser, seremos! Mas mesmo assim, tudo isso era uma besteira, uma extrema de uma idiotice. Larguei o cigarro no chão, coloquei a bolsa nas costas e segui meu rumo comum, fui pra casa.

 Era uma loucura, a cidade estava uma zona, os garis jogaram as vassouras, os policiais as armas; os taxistas os seus carros, os motoristas dos ônibus os seus ônibus. Pelas barbas de satanás, o que fazer?, pensei mas decidi caminhar, estava longe de casa mas não tanto assim. Encontrei com Tales, o gordinho da casa de pau. O maluco estava segurando com a boca o cachimbo e dedilhava um violão enquanto cantava uma canção sem rimas.

“Que porra é essa, Tales?” “É que eu me sinto livre, finalmente livre!”

É está tudo lascado, olha pra isso, o gay mais engravatado do mundo, fumando maconha e cantando canção a Jah… tem algo errado nessa espelunca e eu não estou dopado. Caminhei por alguns quarteirões até perceber que as coisas se perderam, as pessoas, suas vidas, tudo tinha mudado. O padeiro agora é roqueiro, o sambista virou rapper e no fim do dia o que mais poderá acontecer? É, está tudo fodido.

 Peguei uma bike que um malandro deixou na calçada e pedalei até a casa, a adorada casa. A portaria do condomínio estava abandonada, os postes apagados, mas mesmo assim funcionavam. Tudo era a porra de um  paradoxo, nada fez sentido até o momento que entrei na guarita, e vi o corpo estirado no chão. Gritei de espanto, o copo de café largado no chão com o pequeno lago negro e fedido que caminhava até a escada. Eu não sabia o que fazer, até perceber a agulha no chão… o maldito tava drogado, em pleno trabalho… mas que porra! Chutei o copo, joguei a televisão no chão, depois arremessei pela janela. O som dos cacos se partindo, a rachadura que vem antes do partir, tudo em câmera lenta e, nossa como eu fui feliz alí, com a raiva transbordando. Era isso, eu me apaixonei, eu amo isso, eu quero ver as coisas sumirem, quero ver tudo se quebrar, partir e morrer!

 Até que enfim, a televisão caiu lá embaixo e os cacos espalhados pelo chão, como uma belíssima obra de arte. Desci as escadas, peguei a bicicleta e saí varado pelas nobres ruas do condomínio abandonado, de carros arrombados e gente esmurrando, gritando e vivendo como se fosse o último dia. Avistei então a casa, a amada casa… o velho carro enferrujado na garagem, as janelas malfeitas, o poste tapado pela árvore que já o ultrapassava, o mal cheiro do esgoto aberto de semanas. Caminhei pela sala, até deparar com meu irmão sentado na cadeira do pc, jogando como um viciado, o pote de sorvete já estava na metade, várias xícaras de café ao lado. Quanto tempo eu fiquei com o cigarro?, pensei, mas continuei a andar, até que vi minha mãe com as malas prontas. Cantarolando qualquer merda em inglês e sorrindo feito uma criança, acho que finalmente aconteceu, ela finalmente decidiu seguir o sonho dela… mas isso me irritava. Não agora, mãe, não agora, pensei.

 Ela pareceu não ter me visto, caminhou pela sala, se despediu pro nada e entrou no carro, bateu a porta e fez a roda derrapar antes de partir. Corri, tentei, falei, mas a mesma estava mergulhada em uma hipnose insana, seus olhos voltados pra estrada, pro canto, pro seu caminho; o maldito Sol, ele me fodeu! Agora a ficha caiu, ele me fodeu!

 Mas tudo isso não faz sentido, afinal, eu cá estou, não mudei porra nenhuma, continuo o mesmo, vendo as coisas mudarem, o tempo passar. Eu ouvi o sol, eu vi as pessoas morrendo, nascendo, crescendo, mas eu não mudei! Por que porra, sol? Por que porra?!?!?!?!?!?

E de repente um arrepio que fez meu corpo estremecer, uma epifania libertadora, uma real, não daquelas comuns que eu tinha; essa foi a pior! Meu corpo adentrou numa certeza absoluta, aquela que eu mais temia, a que meu corpo negou, tentou esconder; minha mente buscava adentrá-la na mentira! Mas de repente eu percebo… eu sou esse cara, eu sou quem sou! E isso me deixa puto! Eu estou puto por saber quem eu sou! Por que porra, por que? Isso devia ser libertador, isso devia… mas, pera aí… eu sou quem sou, num mundo de loucos! Eu… finalmente, eu… Sol, seu maldito! Eu gostava de achar que era centenas em um só, gostava de ser tantos em mim, mas agora eu sou só um louco em mim mesmo… E isso… E isso me fode.

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