09, JUNHO, 2022.
AUGUSTO.
Observa-te, desfigurado; a pele derretendo ante ao espelho, em um átimo refaz-se ao ouvi-la. Habita-o, esta conclusão inesperada e contínua de parasitar os alheios e ser alheio; o medo escancarado da nitidez, de perceber algo ali. Ouvi-la traz a si um contexto disruptivo, curativo ao corromper diário de ser-se totalmente apático dentro do próprio corpo, um tipo de fantasma e trejeito formulador de apoteoses simplistas, minúsculas; onde diante das conquistas chulas, mantém-se vivo por alguma razão específica que o escapa. Há nos lapsos constitutivos das aparições substancias dela, um tipo de voz única e avassaladora; cheia de forma. Ouvi-la traz para fora do espelho um rosto com alguma nitidez e verdade, nas proximidades da sua forma fantástica, este rejeita as decomposições propostas para o dia. As razões de permanências contidas nos detalhes únicos e definitivos, como delírios vertiginosos; nela há uma questão contínua e eterna, uma que não há necessidade de conclusão, mas que entre lapsos ou não, que ressurja para testemunhar se este ainda possui forma e rosto.
Passos ligeiros dos transeuntes contínuos neste corredor pequeno que divide os quartos; um dos já dorme há horas, mas o tremeluzir sistemático destas lâmpadas e o chiado fajuto do andar de baixo, impõe insônia na morbidez introspectiva dele. Sussurros memoráveis, deslocados e caóticos, atravessam as frestas da porta e um riscar de unhas, onde a maçaneta mexe um pouco e feito ato involuntário ou percepção de lugar errado, cessa. Seus olhos movem ligeiramente por todo o cômodo atrás d’algo para fechar as vistas turvas, não assisti-los entrar.
Vinha devagar atravessando luzes esverdeadas dos postes, e um chuviscar mequetrefe mordia seu pescoço. Mascava um chiclete azedo, antevia conversas específicas que rejeitaria ao pisar em casa. Uma abrupta sensação rasga seu coração e o inquieta, da curva na espera dos carros passarem, vê-o na janela do quarto; um rosto antigo, atrás dele uma fumaça também repetida, e a luz ali faz brincadeira das sombras, e este lá percebido assusta-se como pego de surpresa e corre até a porta. Debaixo, na curva, já há alguns segundos em estática, sente vibrar o celular. Uma mensagem maldita para despertá-lo, pois nada aconteceria sequer o absoluto desejo de ser em completude, nem que fosse morte.
De uma calçada a outra, as luzes modificam-se, agora amareladas e turvas; olha acima e vê nuvens compondo a cor cinza da noite. Na distância d’algumas casas, vê aquele que detesta observá-lo a criar maldições com seu nome; mostra o dedo e xinga. Abre a porta, rejeita a alquimia sistemática possível daquele ódio e tenta relembrar o rosto na janela. Alguns homens olhando para o chão passam por ele no térreo; os dois trajavam chapéus redondos e ternos empoeirados, rasgados em algumas partes. Sempre projetava nestes os chiados, sussurros e vozes no corredor, mas não havia certeza alguma.
Algo verde crepitava no olho mágico da sua porta; talvez de fato tivesse alguém lá, seria calmaria. A nitidez ou a verdade está na rejeição das suas suposições; atravessar delírios fizera-o quebrar uma vez, cair e rastejar como um ser detestável e as contorções convulsivas eram-lhe tudo. Mas ao girar a chave, mesmo ali diante do verde; escutou algo na porta ao lado, passos rápidos e uma gritaria agoniada. Tremeluziu e por pouco não quebrou a chave no trinco, a luz viscosa do piso escancarava sujeiras entre as linhas da cerâmica; os gritos e murmúrios continuavam a repeli-lo e enfim entrou.
O verde cessara imediatamente. A sala projetava um vapor, o vazio plácido e inquieto dum canto repleto dos objetivos inacabados; janelas erguidas por choro obtuso d’algum infante inescrupuloso, onde o sol rasgava todas as continuidades e só um curto canto para esquivar-se do torpor áspero das tardes inomináveis. Seus olhos rastejavam oscilantes, a mesinha de plástico guardava contas antigas e o líquido que escorregava das garrafas preenchidas d’água. Hesitou por instantes pífios ao olhar medíocre, mas a este fora salvação mirabolante; a sua direita estendia o corredor donde todos os ecos transeuntes nasciam em suas noites, e chegara tarde; por pouco não foi visto por eles, e nunca teve o contato com a prática do que significaria se os visse ou fosse visto. Do quarto já lhe era suficiente a chaga desta possibilidade. Este hesitar o dera alguns centímetros de paz; porém seus braços estavam exaustos do peso das sacolas. Lembrou em um átimo daquela feita, onde os olhos negros engoliram-no pela primeira vez e o rejeitar tão simbólico do contato na pele, a rispidez daquele encontro ecoara naquele instante e o fez tropeçar parado; soluçando e contorcendo-se rejeitando um gemido choroso. Aquela mulher tirara algo de si.
O cinza manifesta-se entre entraves aleatórios, a pele é repelida ou atravessada por estas horas. Nada se faz concreto nas luzes caóticas dos seus olhos claros; nada passa despercebido. Devorar o ambiente atravessado feito rotina, engolir cada discrepância entre feches de luz. Augusto está sempre ali, está sempre submerso em algum movimento; inábil à estática ou placidez; rejeita qualquer sistematização de si.
Depois de alguns instantes, afasta algum pensamento torpe; tenta imaginar o pescoço esticado e os olhos alvejando qualquer homem ali, pois no rememorar das madrugadas infernais, presumira que estes seriam formas de sombra ou compostos derretidos e modulados por crianças inescrupulosas; dentro de si não havia resistência a esta possibilidade, fosse de fato como presumia, talvez desatasse em choro. Em alguns segundos corrosivos, o silêncio começa a pulsar de novo, os passos reduzem-se aos poucos e portas abrem e fecham com violência. Aliviado, Augusto tateia os bolsos atrás de um cigarro.
As compras abandonadas pela sala, acende o cigarro com um isqueiro velho prateado; abre uma das janelas e descansa os braços. O cigarro vai de ponta a ponta da boca, entre risos mequetrefes e deboches hediondos; seu pensar o chicoteia, traz dos cumes certezas discretas, medíocres, passado e presente convolutos em desgraças premeditadas; seus olhos compõe o cenário diante de si, mancha o verde e pinta o céu azulado de um cinza mórbido. Trovejava neste dia, uma chuva se anunciava e Augusto a afastava com seus dedos esguios.
Existe uma composição ali, algo que se arrasta pelo piso empoeirado entre a luz escassa que escorrega pelas janelas e frestas; uma coisa viscosa, ruidosa, como murmúrios infantis debaixo de um lençol para não despertar alguém ou alertar da posição, esta coisa vai preenchendo o ambiente e alterando as cores, modificando a nitidez, tornando o visto em abstrato e somente possível; definitivamente incerto. Isto o arrodeia, mancha sua pele e introduz-se pouco a pouco, abrindo pequenos furos até chegar nas suas veias. A percepção estica-se, pisca violentamente tentando afastar, mas a causa é inegável e o efeito repercute nas incredulidades que se seguem. A chuva vem mesmo assim.