??, ??, 2014.
O PRATA.
A arma na mesa, bela, prateada roubava o brilho que perfurava os vidros da janela. O cigarro aceso, a fumaça passeando pelo breu do quarto. A lâmpada apagada, nesta lua cheia, nem lembrou dela. O cabelo ruivo, escondido com um chapéu de cowboy. O terno preto, da cor da noite. O cigarro de um lado pro outro na boca magricela, os dentes amarelos, entregavam um vício. Mas o homem não tirava os olhos da porta, ansioso para puxar o gatilho da obra de arte que era a pistola.
O quarto pequeno, uma cama atrás da cadeira, toda bagunçada. Os travesseiros largados pelo chão. Já imagino o residente… Seu sorriso nascia quando ouviu uma chave rodar e o eco torturante da porta velha, guinchando de dor. Um arranhar num silêncio perfeito. Sacou a pistola, e mirou onde seria a cabeça do homem, do sortudo da noite. Este primeiro foi a cozinha, o soar de cascas sendo quebradas, deu a certeza que ovos seriam fritos. E pior ainda, para o estranho ruivo, o liquidificador rasgou o silêncio. Poderia colocar a cabeça dele dentro, e beber tudo.
Os ovos foram fritos, os pães cortados. O rapaz era bonito, de traje simples, camiseta e uma calça jeans preta. Fedia a perfume feminino, e a baba no pescoço. O cabelo bagunçado, e a fadiga, deixavam claro que a noite tinha sido divertida. A mesa da cozinha era trágica, um pedaço de pau segurava uma enorme pedra de mármore cinza, balançava com o respirar do homem. Puxou uma das cadeiras para perto da geladeira e abriu o sanduíche, empanturrou maionese e um pouco de ketchup. Deixou aberta, pôs de volta lá e começou a pensar.
Nossa, esse cara deve ter vindo caminhando do inferno. Puta que pariu. Já cansado, a arma voltou a descansar na mesa. Começou a perambular pelo quartinho. Uma estante, lotada de livros. Um foi reconhecido “Ideologia Animal, uma crítica ao capitalismo”. É, o viado tem bom gosto. Continuou inspecionando a bibliografia do jovem, e se interessou. Pegou um dos livros e começou a folhear, com a esquerda segurava a arma e a outra mudava as páginas.
Cara, eu sinto que ela vale a pena. Abriu a geladeira de novo, a luz desligada, a janela dava na garagem e como não era coberta, a lua brilhava. Este tipo de noite… eu amo. Lembrou do dia com a moça dos cabelos negros, o corpo de nuvem e o vestido cor de céu nublado. Os olhos claros e gigantes, verdes feito o rio. Isso o empolgou, escreveu algo como rascunho no celular. Um poema breve. Sentou de novo, fritou outro ovo, comeu outro pão. A porta do quintal estava lá, solitária. Ao lado da pia. Caminhou até lá, e abriu, dando vista a uma penumbra deliciosa. Um pé de coqueiro escalava a noite, e o vento fazia os galhos de fantasmas. O chiado das almas cansadas, empurradas pela brisa. Um sorriso formou-se no rosto magro do homem que teve um belo dia.
“… Temia ter conhecido a verdade diante dos olhos do momento. A sucessão de felicidades com ela, fizeram-no passar a sentir-se como um daqueles, seres, que de fato eram completamente diferentes. Agora era um travesti, e não percebia.” Caralho, que foda… suspirou … Esse eu levo. Um morto não sente falta dos bens, afinal. Continuou na leitura. Fungou, já era tempo. Estava ansioso, queria conhecer o cara. Colocou o livro na estante, caminhou feito gato até a porta e suavemente foi abrindo. Botou o olho esquerdo na fresta, e avistou-o em pleno devaneio, contando as estrelas. É, um morto não lembra de nada.
Caramba, como o céu é lindo. Perco tempo, sentado bebendo meu café. Distante da porta da cozinha… Caralho, preciso disso todos os di… Passos vindo do quarto, o alertaram. Olhou de lado, e viu um indivíduo, de terno e chapéu de cowboy. Virou-se por completo e encostou na pia. Buscava a faca, ou qualquer coisa parecida. Seus lábios tremiam e o peito feito gelo, congelou todos os seus movimentos. Mas que porra. Derrubou um copo, enquanto mexia na bagunça. O estilhaçar do vidro, foi cortante no ouvido apavorado. Fixou os olhos do ser, que mais parecia um fantasma e conseguiu falar, gaguejando feito criança chorosa.
-Olá. – A voz afinada fez o sujeito rir, que agora estava ali parado, ao lado da geladeira.
-Oi. – Paciente, estilhaçou o medo do sujeito de camiseta.
-Quem é você?
-E isso seria importante? –Agora já puxando uma cadeira, o ruivo sentou.
-Depende…-Revistou o homem com o olhar, mas não percebeu nada suspeito.
-Boa resposta. Vamos, garoto, por que não senta?
-Não sei, não acho que seja uma boa ideia.
-Preciso dizer mais alguma coisa?
Ele então sentou no lado oposto do possível assassino. Seus olhos agora baixos, amedrontados. Lembrou que a moça tinha-o chamado para dormir com ela, mas os pães e os ovos, falaram mais alto. E agora podiam ser as últimas refeições de uma breve vida.
-Eu vi alguns dos teus livros. Gostei do que tu lê.
-Eu curto coisa boa.
-Eu também.
O silêncio voltou, por um longo minuto, entreolharam-se, analisando as possíveis semelhanças. Livros são importantes nessa parte do jogo. Estudando um ao outro. De onde esse sujeito veio? Por que está aqui? A camiseta estava fria, com um suor que descia do rapaz assustado. Porra, deve ser algum primo meu, só pode. O ruivo colocou a arma na mesa, como se fosse um presente.
-É uma má notícia? –Sorriu, e o prata da arma brilhou.
-Não preciso responder. –Já soluçando.
-Vamos, não é assim tão ruim. Eu lembro de suas reclamações.
-Como assim, cara?
-Não vem com esse papo, porra. A vida semana passada era o que pra você, moleque? –O sorriso sumiu, e os olhos penetraram a alma do jovem.
-Foi só uma fase… eu não, eu não… – Como porra ele sabe? – E como tu sabe disso?
-Eu escuto tudo, garoto, as paredes guardam os segredos. Eu ouço o que elas dizem. E um bastardinho ingrato feito você, buscando esvaziar a complexidade da vida. –Cuspiu no chão – É comédia, mas isto não é um filme. Vamos, quero ouvir você dizer.
-Era vazia, sem cor. – Chorava –Eu não sabia o que fazer, senhor, eu… eu estava perdido.
-Perdido com o que, desgraça?
-Eu não sei. –Roçava os dentes como se fosse quebrá-los –Eu só estava. Que culpa eu tenho?
-Nenhuma.
A palavra ecoou até a última porta do seu medo. O ruivo levantou-se, sorriu e foi embora. Abriu a porta da sala. Mas antes, olhou pros sofás e a televisão. As lâmpadas e a cor do piso, infestado de formigas. Olhou de novo pro rapaz, que agora estava congelado. Mas o tempo estava parado, o moleque não se movia. Desceu o degrau da porta, arranhou o fiat uno preto e seguiu por entre as ruas do bairro. Os postes banhavam a noite com as suas luzes podres e amarelas. O que o guri vai fazer da vida depois disso? O que eu vou fazer? É tanto lado, tanta pergunta… eu já me contento em não mais perguntar. Sou assim, é o que sou. Acendeu outro cigarro, chutou algumas latinhas perto de um lixo e tossiu a fumaça.
Não se sabe quanto tempo levou para acordar do transe. A noite o levou a um estado elevado de abstração, foi a todos os questionamentos possíveis que bolou, os momentos, a negatividade que espalhava em seus pensamentos e opiniões. Viu-se lá, pequeno contando histórias de terror para a garotada. Fez uma reviravolta em seu próprio livro, escrito pelas suas próprias memórias. Nunca houve um por que de esvaziar o meu tempo. O ruivo partiu e deixou a porta aberta, nunca mais poderia ser o mesmo. O vento do quintal trouxe a resposta para a sua última pergunta: o que fazer agora? E a brisa gélida o arrepiou e com os passos mais pesados de sua vida, abriu a porta de onde o fantasma saiu. Sentou na cadeira, onde ele leu um dos seus livros. Deitou na cama a qual o senhor viu. Não teve bons sonhos naquela noite, porém acordou mais feliz do que nunca.
13, 06, 2022.
INQUIETO (11)
Existe algo aí, para além do sintético? Quais comoções vão de fato rasgar a casca desta tua pele vil? Olha-te pelos labirintos supostos, sua incessante formulação de prognósticos, pretéritos duvidosos; tua alma é erguida, soerguida e articulada, por membros incorruptíveis desta farsa mirabolante. Nada de fato fatiaste, cortaste ou desse pra si! Teu pai remói ideias constantes, perguntas levantadas e simples, sobre o que de fato nasceria daí, de ti. Ah, mas não hesite, mostre debaixo dos músculos os ossos apodrecidos, açoitados constantemente pelos diabretes detestáveis das noites perdidas.
Veja, além das constituições intransponíveis, nítidas! Quem em sã consciência duvidaria da tua agonia? Os cenários traduzidos e invejados pelas mentes pífias de alguns, quais ainda considera, só escancarando os caminhos alienáveis desta hedionda simplicidade tua. Não tenha medo ou vergonha de mim, convivemos aí, nesta caixa ou crânio, nestes lugares inóspitos e tétricos. Lá de cima do cume, está você enfim; já que o suposto nós já matamos.
Guilhotinas ou machados, recusas às disparidades; o isolar lhe evita algo, mas lhe salva de quem? Há situação pior que os movimentos anuais e repetidos, quedas cíclicas e nada caóticas. Nada aí está girando, tudo aí se repete, pelo enfadonho meticuloso sistema desgraçado que é a tua premissa.
Veja, há corpos feitos para casos; há um tipo de observação ulterior ao teu nascer que lhe projeta lá, onde aberto e dissecado, milimetricamente observado vão notar: estava certo. O que há de certeza em ser bélico a si, miserável a si, torpe a si? Os outros sequer lhe tentam ver, lhe consomem feito algo que injeta, entorpece. É curioso, é prazível, mas exaustivo como Sísifo. Olha, a escassez cômica do teu linguajar, onde orbita de fato? Quais pedaços do mundo devora? Causa me ranço.
Rouba ainda dos outros, pelas rotinas inexistentes do teu ser. Nada repete aí, sim? Rasga e abre todos os corpos, consumindo suas essências, perspectivas, sempre abre mais e mais, até notar o óbvio que detrás do fenômeno não há nada. Tudo está aí, tudo é aí o caso mas ainda que em desespero nomeie, renomeie, tente criar língua, divindade, novos lares e epopeias; cai, como todo homem, cai pelo páthos, suprimido e devorado por si mesmo.
Veja, toda a saudade que emana e a solidão viscosa rastejando-se pelo quarto, preenchendo as lacunas minúsculas do oxigênio diante de si; todo o mundo se torna nítido, cores e lugares, homens e mulheres, em suas existências simples: lhe rasgam. Que há de fato aí? Assumir? Responsabilizar? Pra onde miraria mesmo ou o que de fato quereria?
Perguntam-no que há no futuro pra si? O mérito? E o contrário, que pergunta se faz para existir lá? É, como imaginei, não se vê lá, né?
Veja, a quantidade nefasta de despersonalizações -usando do termo- vão leva-lo até onde? É indignante ver-te achar justificativas e respostas para perguntas invisíveis. Detesta completamente a possibilidade ser isto, né?
Ah, há amor ainda.
O amor.
O nada.
O caos.
Nada é em si esvanece; tudo lhe atravessa e fica. Feito chaga? Não, feito tu, feito eu, feito nós. Nenhum ambiente é recusa.
Volte se quiser, volte. Aceitar ou assumir, responsabilizar? Até que seu rosto esteja definido, vai corroer-se todos os dias, até que.
Republicou isso em REBLOGADOR.
CurtirCurtir