22(3), JUNHO, 2022.
JUCA.
Vamos deixar este ar atravessar as grades, esgueirar-se pelas frestas, complementar as garrafas vazias, gavetas; vamos permitir o viscoso abutre destas ideias ali fora corromper este santuário dedicado ao declínio. Declínios exigem astúcia, organização, para uma decomposição nítida e satisfatória, os processos devem tender a um fim retilíneo, onde todas as curvas possíveis rejeitam novas fórmulas; tudo deve ficar exemplar, repetível, prático; um declínio deste modo é objetivo, poderá ser contado e a linguagem estará satisfeita em dizer: “cá, esta queda foi deste jeito!”
O fato, um corpo raquítico, esguio, aos poucos alimentando-se dos ideais imaginários e rotineiros destes ilusionistas requintados; manchados do eruditismo falastrão e parvo. Trágico neste olhar difuso, ferrugens debaixo das pupilas; misturados às sardas ou manchas de graxa, poeira pingada das diagonais do quarto, maçãs d’rosto como bolotas pontiagudas; lábios finos e secos, miúdos, escondendo dentes amarelados finos-tubarões. A sua fome já não lhe impulsiona, a inquietude imposta pelas figuras robustas em seu imaginário, dão-lhe convulsões repentinas; pela fraqueza gigantesca do seu ego. Então rejeita o corpo, a desilusão atribuída ao próprio tempo existente, faz da sua inabilidade um suicídio típico; prefere encapsular na espera deles, do que fazer qualquer coisa.
Juca, maltrapilho. Desperta inquieto, seus olhos invadem a liquidez nefasta do dia anterior, alvejado por cortes milimétricos; ideias ou memórias, resquícios dubitáveis. Uma certeza nasce, um golpe, pêndulos chocando um no outro, o som odioso contorce seus ossos. Invadido por aranhas pequeninas com pernas-laminosas caminhando velozmente pelo sangue, músculos, pele; até chegar na sua testa, centenas delas, amontoando-se na diagonal esquerda; em um átimo, no chegar da última, algo se rompe e o seu olho grita, avermelha-se; a dor dilacerante causa um gemido, suas mãos tapam os olhos. A ânsia segue, range os dentes em revolta; deixa o corpo cair, junta os joelhos em seu queixo quadrado e chora.
Vozes tentaculares, caminhando pelas paredes, golpeando a porta do quarto. Comprimido na mesma posição, suas mãozinhas pressionam a testa latejante; os resquícios começam a surgir, um gosto vil nasce na ponta da língua, passeando pelos dentes; algo podre, carne, cigarro, cerveja. Rostos surgem manchados, rasgados feito papel diante da escuridão nebulosa desta dor; tenta atravessar uma pequena ponte de madeira sobre um rio colorido, na distância uma mulher chora com uma criança no colo, de cabelos iguais aos seus. De novo, as vozes chocam-se violentamente na porta, despertando-o; um dos olhos abrem e a luz turva esgueira pelas frestas pequeninas da janela, onde o pano cinza não as esconde; ao tocarem o olho aberto, um grunhido escapa junto das borbulhas vis da malograda memória do ontem. Mira para sua frente e contempla o acúmulo d’bagas de cigarro e cerveja.
De novo, um eco. São vozes femininas mescladas com risos agudos e uma rouquidão petrificante. Seu cérebro ainda corroído faz proposições e a figura possível se mostra Ruíz, o argentino; mas não há memória alguma dele lá. As mulheres possíveis ou o intervalo e despertar, fazem da repetição intercalada de suas expressões, duas mulheres, sendo obviamente uma só. Alguns segundos passam, o calor chicoteia as paredes do apartamento, e o odor levitado por cada milésimo ali dentro com tudo lacrado. Melissa, o nome lhe traz uma afetação estonteante, não consegue posicioná-la em canto algum do dia anterior, mas dela estar ali lhe anima ao ponto que a bola de ácido na ponta da testa se desfaz um pouco, seus músculos respondem levantando num átimo. Vai até a porta.
Repara um corte curto nas costas da mão, o sangue coagulado dá a impressão de uma ferida antiga, cicatrizada; ergue-a até a boca, nariz, cheira antes de passar a língua na textura que se desfaz e o gosto enferrujado arrasta-se entre os dentes, mescla com a saliva e engole; o bafo mortificado regozija aquela novidade depois das horas entorpecido e vergastado por um tipo de sono vertiginoso e sem descanso; como uma neblina viscosa deixando rastros d’algo que de minuto a minuto incomoda, querendo coçar.
Melissa tem a voz aguda, em primeiros instantes lembra mel a tocar nas glândulas; o ouvinte é eriçado, atiçado pela expectativa e o arrepio que desperta, na velocidade calma que traz consigo uma vontade de repetição. Seu corpo esguio descansa e marca o vestido entre curvas ligeiras, ao movimentar-se; esconde uma tatuagem detrás dos cabelos na nuca, outras duas perto dos seios e uma poção medieval com líquido verde, com a letra L cravada, no pulso esquerdo. Seus olhos são bolotas de pupilas enormes e pretas, esboçando um teor líquido rompante d’algum planeta devorador; lábios finos donde o superior tem uma curvinha e traço no meio, sobre um inferior mais cheio e da cor d’uma maçã.
Parada defronte a porta, respira a fumaça azulada e amarga deste cigarro peculiar; o teto goteja bolotas de poeira, passos agitados e vozes chispadas. Agitada pela fome arranhando seu estômago e a lentidão esdrúxula do Juca, vai da porta até a sala umas doze vezes; acendeu no mínimo três cigarros, jogando as bitucas no santuário posicionado na esquina próximo à cozinha. Sua memória ainda é vívida do que acontecera, pois, de praxe Juca submergira entre as poças d’álcool; dando a si toda a complexidade de evitar derreter junto, pois o pretérito convoluto dos seus encontros deu-lhe esta lição magistral. Enquanto um for aos cumes, o outro está a evitar o salto. Na noite anterior, coube a Melissa evitar o desaparecimento completo dele.