SOBRE O NADA.

02, 07, 2022.

SOBRE O NADA. 

Intromissões alheias projetam-no a isto, a ausência significativa, formuladora; todo o teu ser é a decadência formal, subjetiva, pois é óbvio que detesta o corpo; mal consegue vê-lo, tocá-lo sem desesperar-se inteiro. Das evidências cintilantes que lhe arrodeiam nestas madrugadas insólitas, mórbidas, traduzíveis por sistemáticas linguagens autônomas; regozijando cada minúscula nova agonia tateando a lágrima que desce devagar abrindo fendas na pele do rosto. Olhar o hediondo deu-lhe isto, deu-lhe conteúdo meticuloso, já que não há utilidade prática em nada que emana do teu ser miserável.

Pensamentos convolutos como tentáculos introspectivos criando algazarras dentro das pupilas, emanando insólitas transformações nos transeuntes; isto não cessa. Tua pele está desfeita, pálida e covas dos olhos dão um tom vil a tua permanência. Há um nada esgueirando-se pela cerâmica destas casas, um nada líquido e viscoso, tateando e gerando ruídos pequeninos e saltitantes; chiados escassos aos desatentos. A maldição que está na ferida da sua testa, em uma queda pífia quando criança. Ele corria entre passadas flutuantes, trajando um sorriso espetaculoso borbulhado pela expectativa da visita improvável d’algum familiar que não via há tempos; as crianças mesquinhas nos seus juízos rogavam maldições, torcendo por um tropeço, não lembra dali um rosto sequer, todos estão organizados por dedinhos caóticos de massa-de-modelar, sem face – como eu. Uma salinha se instalava antes dos portões, dois bancos estendiam-se nas laterais feito poltronas em um teatro para a desgraça que aconteceria. Ele sobrecarregado pela imposição ilusória do afeto, alguém que há um período gigantesco se fizera ausente prestava-lhe visita, viria enfim tirá-lo daquele recanto de rostos disformes; e ao notar a sombra deste, pôde jurar depois que aquela alegria pode ter sido corroída por completo e jamais retornaria, pois ao ser atravessado, tropeçou violentamente e foi arremessado para frente, seus bracinhos como de marionete impotente balançaram e o que havia diante de si sumira, bolotas no piso para evitar escorregões cravaram e abriram sua testa.

A cama deste hospital não parece próxima d’alguma memória peculiar, recorrente; há ecos sórdidos vindo do corredor, vozes entrecortadas por suposições da profundidade do corte – mas já havia sido costurado. Seus olhos investigavam os frascos, panos, algodões; consegue expurgar completamente a dor da agulha. O homem que devia estar ali não aparecia, será que lhe afastou pela apresentação patética? Possível, pensava nos soluços que surgiam lentamente pela percepção desta crueldade. Uma moça como as crianças da escola veio, deu-lhe a mão, disse que esperavam lá fora. Ele não falou nada, tinha esse costume de não dizer nada.

Aquele mar o recusou. Podia sentir algo puxando suas perninhas, algo espectral e inadiável, inexorável. Um sol escondido detrás do nublado que vinha se instalando, como ritual para leva-lo; dá-lo um suspiro leve e uma eternidade de imaginações, introspecções infinitas. Podia ver que o abismo da sua alma ou as premissas apáticas tinham um quê razoável, que de fato viera disforme – do nada absoluto. Via na beira onde as ondas findavam corpos como engrenagens cuidadosas; autômatos intocáveis, invisíveis; todos ali mostravam-se desenhos cuidadosos como os rostos daquelas crianças na escola, como a médica. Seus olhos encaravam a leveza pura da correnteza, olhava para os lados naquele vazio físico; a impotência germinante e evidente das suas condutas, do seu ser. Deitou na prancha, aceitou o destino do abismo donde surgira, para representar o nada; ser puramente inútil.

 Fora salvo, depois de horas. Salvo de um lugar que repetiria na fala, no espírito; nas raízes de qualquer contato. Abandonado e arremessado de volta aos dedos hábeis destes diabretes inescrupulosos, manchando as paredes e os olhos de todos os lugares. Um sussurro contínuo, sórdido, sempre ao lamber sua pele, impondo uma questão maldita. Esta questão não surge prática, sequer resposta; é um tipo de condição que evita que se corte, veja o sangue, e ainda assim não emane nada. A utilidade do teu ser, desde aquele dia foi perceber e raciocinar como de si a si, tem a única certeza de representar o nada – absoluto.

2.

 Ela pediu algo a ele, ao corpo. Outros pediam o mesmo. Um tipo de desejo nascido da desgraça. Seus olhos invadiam-se de microrganismos capilares, parasitas mesquinhos criando maquinários e imagens horríveis. Ela mostrava corpos em contato e jeitos, falava das genitálias como ferramentas de utilidade. Ele colocara grilhões nos seus calcanhares; não bastasse trancou a porta e a televisão rugia aqueles gritos, aqueles corpos disformes; homens e mulheres, homens e mulheres. Um homem estava parado estagnado, andava de uma esquina a outra, fumava cigarro e trazia nos olhos uma coisa pestilenta, labiríntica viciante, uma letargia. Ela debochava do seu rosto, do seu corpo, das tentativas. Ele não tinha tempo. O oráculo daquela instituição era a chaga, a vileza de memórias infinitas.

Um chiado robusto caminhava pelas paredes da casa. Convites vindo da janela enorme, pequenos olhos amarelados, alaranjados feito lua. Que é isto no canto, que é isto caindo sobre si, quem tenta atravessá-lo, quem tenta mostra-lo algo que não significa nada.

Ele está ali mesmo, voltando ao princípio deste fascínio, destas formulações quiméricas. Seu imaginário é de alguém que recusa o real; pois todo a real a si, foi hediondo.

 O hediondo? Ele é muito é fraco.

 Fraco.

 Fraco.

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