28, 07, 2022.
ERNESTO E AS CORES.
Vi-o descansar sua cabeça roliça na parede, curvado prestes a quebrar-se; a camisa esticada pela protuberância cômica, os botões soltando gemidos agoniados. Ao lado duas garrafas e copos, cigarros, cartela de comprimidos. A luz turva esverdeada manchava o piso sujo pelos passos de pés, sandálias, botas molhadas; acumulados entre lama, vômito e bebidas derramadas. Ele não sentia cheiro, em coma induzido, submerso nos silêncios dos tentáculos mórbidos de sua finitude. Ele quis naquela noite dar cabo de si.
Vozes entrecortadas dão-lhe asco; o ruído cáustico das vontades alheias, desejos alheios, visões. Empanturrado deste rancor, pediu desculpas a um homem e exigiu-lhe ao mesmo tempo silêncio. Seus olhos pretos gigantescos sobre olheiras inchadas, lábios finos entre bochechas volumosas; em verdade parecia uma esfera. Descansou os cotovelos na mesa, acendeu um cigarro azulado e suspirou em asco.
As horas não passam ali, são pequenos tiques nervosos arranhando sua coluna curvada. Os ruídos cáusticos dos telefones, vozes convolutas emaranhando-se entre terminais como uma coisa só, disforme. Atende e diz a mesma frase uma centena de vez, na primeira parte do expediente; na segunda já soa feito uma gralha, um chiado rangente e agoniado, apressado. Seus olhinhos esquivam da lentidão fustigante dos segundos, minutos. Os tiques acompanham-no até o brusco rompante gemido asfixiado do relógio colossal sobre suas cabeças; um alerta celestial, de que a partir dali, podem ir embora.
São corredores desorganizados, salinhas pessoais acinzentadas. Um recinto onde toda subjetividade é esmagada, triturada e desta composição resta somente uma voz para repetir padrões de perguntas. Os rostos nos corpos, embutidos, autômatos; submerso nas inquisitivas vontades alheias. Pessoas que buscam estes números são chicoteadas pela infinidade burocrática, aos poucos mergulham no óbvio de que quem lhes responde também não sabe o que fazer. A lógica é o estresse instaurado, substância locomotiva dos desesperos iniciais, pois todo este inferno é só para cancelar algo.
Ernesto cabisbaixo, sussurrando respostas sob o tique-taque volumétrico, eufórico já prestes a bater violentamente o telefone. Finais de expediente a este são como restaurações da fé. Suas pernas gorduchas-gelatinosas balançando energicamente. O horário lhe empurra, rememora cigarros fumados entre passos ligeiros até o bar, pois é sexta-feira amor. A gralha ainda insiste, indignada, pedindo pelo amor de deus, eu só quero can…mas não finda a frase, mais um dia imersa nestas gesticulações sádicas, mais um dia devendo algo a uma coisa que sequer existe. Ele levanta, junto de mais outras centenas; as cabeças subitamente surgidas, uma coreografia sistemática. Lá na diagonal esquerda, José dá um grito escarninho apontando para cima; o relógio ignora.
O triângulo defronte a sala pisca três vezes desativando o sistema. Todos já de pé, arrumam-se nas fileiras específicas. Silêncio massacrado por passos sincronizados. Cada um mira o corpo na frente, cada um sabe exatamente a velocidade e distância do próximo passo. Visto de cima todas as curvas caóticas unem-se, serpenteiam como algo vivo, gigantesco e profético. Um som metálico ecoa quatro vezes, quatro saídas, quatro portas imensas abrem-se dando vista a corredores retilíneos e curtos, como desinfetantes para uma rotina miserável.
Pisar a calçada larga, ver fileiras e fileiras de carros. Acenos mecânicos, sorrisos simplistas. Ernesto busca o cigarro nos bolsos, põe na boca, masca um pouco e enfim acende. Ao seu lado José com olhos avermelhados, lábios carnudos e testa quadrada, gesticula, recebe um cigarro e se envolve naquele instante cósmico, onde os presentes continuam nas posições impostas e religiosamente entram em carros, posicionam-se nos pontos e pegam seus celulares. Nada novo, de novo, né? Ele diz a si mesmo, desmanchando um sorriso.
Depois de alguns minutos, depois de dois cigarros, os dois começam a caminhar. Submersos neste silêncio específico, nascido somente aos que precisam necessariamente dizer algo entalado, organizado. Eles sabem exatamente para onde ir, quanto tempo têm e quando voltar para casa. Acostumados, esperam algum efeito milimétrico, substância para não dizer o mesmo, mas sempre acabam no mesmo. Rotinas tendem a compor diferenças cíclicas, repetidas, toda nova suposição é somente o mesmo refeito; por ninguém ou nada novo surgir, ficam interagindo pelos labirintos de opiniões estagnadas.
A noite esgueira-se, postes acendem luzes amarelas musgosas. José e Ernesto entre passos rápidos, conversas escassas. São amigos desde a escola, formaram na mesma universidade, fizeram o mesmo curso. Projetavam e pesquisavam incessantemente, davam sonhos e futuros curiosos, como se tivessem algum controle ou fossem completamente inábeis de olhar para fora de si. Notas altas, artigos publicados, projetos e um futuro idêntico. Eles dividiam nas dosagens certas, suas reações a isto, como sequer houve diferença e como talvez tivesse sido melhor não ter feito nada.
Crianças passam perto deles, maltrapilhas; seus senhores ficam nas calçadas, anotando em cadernetas velhas as metas alcançadas. O sinal vermelho trava os carros, dando liberdade a outros. Os dois caminham próximos, vendo os pequeninos cutucando janelas, olhos penosos e brincalhões. Alguns trocados eram arremessados; janelas fechadas; dedinhos de lado a outro em negação; nenhuma resposta em si trazia superação, eram somente metas. Neste anoitecer, um dos pivetes saltara sobre um carro, deslizando pelo capô, nas mãos a bolsa chacoalhava produtos de maquiagem, carteiras e celulares; atrás de si dois homens altos fardados blasfemavam alto; na distância de passos a mulher chorava entre gritos ásperos. Lucas costumava ir ao bar pedir e as vezes vendia anedotas por isto, Ernesto sempre comprava quando as tinha, mas não dava crédito, até hoje. De soslaio vira aquilo, parou depois das faixas, cutucou José. Ambos desataram um riso acalorado e choroso.
Lucas se movimentou pelos carros e motos, percebido pelos homens na calçada que ativados quase instintivamente assobiaram; as crianças entenderam, pararam de pedir e viraram obstáculos pros fardados. Um dos guardas acertou a nuca de um dos pivetes que cambaleou pelo excesso, acertou a testa num carro parado. A algazarra iniciara, empurrões, desespero. Lucas serpenteava por transeuntes, suas costelas continham a eforia violenta de seu coraçãozinho, pelos bater dos itens na bolsa. Pensava na janta que ganharia e o dinheiro, mas o dinheiro não lhe significava nada.
Chegaram ao bar. Ficava na esquina, arrodeado por cadeiras e mesas amarelas e defronte um espaço pequeno, para fumantes ou quem suportava fumantes. Sentaram ali, acenderam seus cigarros, pediram cerveja, esperaram. José parecia aflito, balançava agressivamente as pernas e cutucava a mesa; sua boca abria e fechava, cortando palavras pela metade, seus olhos avermelharam-se de repente deixando escorregar algumas lágrimas. Não causou estranheza alguma ao Ernesto, sequer movera ou inquirira, parecia parte deste ritual.
-Eu tenho tido estes sonhos, um em que, é, um que uma mulher bate na porta do meu apartamento e me xinga. – Tosse umas duas vezes a fumaça presa na garganta calejada – Não tenho medo dela em si, mas por ser uma mulher, acordo completamente suado. Desesperado.
Ernesto abre um riso escarninho e lhe diz.
-Ah, é. A famosa mulher de José. A que nunca chega. – Sua voz é arrastada, laboriosa. Parece que diz com extrema dificuldade. – Quem será esta mulher, José?
-Não sei, ela me lembra a Jéssica. Sendo que foi há tantos anos.
A garçonete abre um sorriso satisfeito, põe copos e cerveja. Seus olhos verdes devoram a escassez desta penumbra que os acinzenta.
– Jéssica? Ah, sim, Jéssica. – Reage dando uma golada severa.
– Pois é, há tanto tempo. Mas é só um sonho, sonhos não dizem nada de nada. Hoje eu preciso beber, preciso. É sexta-feira, amor?
– Sim, mas não quer dizer nada. Tenho dois relatórios para entregar segunda e meu apartamento tá parecendo uma cela.
– Tu achas que o Jorge aparece hoje? Aquele corno. Me deve umas três doses.
– Não sei, não chamei ninguém.
A lentidão inicial é quase cômica. Seus nervos labutam aos poucos, pois vêm-se todos os dias. A diferença ali é somente o lugar, somente a substância. Mulheres e homens chegam aos poucos. Fumaça de cigarro, vozes entrecortadas, carros e motos. A mania de José é olhar para mulheres bonitas, trocar olhadelas com Ernesto e rir. Suas cabeças enraizadas demais, travadas demais. Ambos carregam amores rompidos, pessoas que não existem mais.
Jorge os vê, abre um sorriso largo e se aproxima. Esguio, trajando um terno surrado, cabelo curto e bigode grosso. Puxa a cadeira e senta. Busca nos bolsos um vape, traga violentamente e tosse em resposta.
– Canalhas, que é isto? São contra mim?
Nenhum dos dois responde. Reagem com risinhos, pois sabem que nunca foi necessário o chamar, ele sempre vem. Põem rotinas em dia, as mesmas histórias. Jorge advoga em um escritório no centro, recém-formado, ganhou o terno que traja de um dos falecidos tios. Não possui um átimo de escrúpulo. Tá sempre puxando fumaça desta canetinha ridícula.
– Velho, hoje eu quase caí da moto umas seis vezes. Peste de cidade. A Lúcia não queria me deixar vir hoje, disse que toda sexta pode virar um vício. Vício é o caralho. – Ri histericamente, mostrando seus dentes amarelados – Mal sabe ela que eu praticamente vivo aqui. Ou Julia, traz duas doses pra este corno aqui. Nem, nem vem, vai tomar sim. Foda-se. Amanhã é sábado. Ah, lembrei que perdi meu celular pessoal. Vocês não chamaram, mas eu perdi. Obrigado, minha santa, és uma santa sabia? Sério, ah, ah.
– Como tu perdeu? Mais um? É o que, o sexto esse ano? – José pergunta, quase rompendo as ligas do rosto depois de virar uma dose.
– Pois é, dormi na casa do Pedro, a gente saiu pra beber depois de ganhar uma causa; ele ficou feliz demais. Nunca o vi daquele jeito. Chamamos uma galera. Peste, ali é a Lúcia? Covarde! Disse que não viria. Vou me esconder, ah, ah. – Estica o pescoço pra debaixo da mesa – Não, sou um homem ou um rato? O que devo? Quem é ela? Enfim, ele levou um pessoal; esse pessoal levou outro. E então chegaram outras coisas, outras drogas. Eu consumi tudo que me deram. Lembro de celular vibrando, línguas de todos os tipos e gritaria. Mas acordei em casa, de cueca e todo sujo de lama, ah, ah. – Deu um trago longo na sua canetinha – A lama pode ter sido pela chuva. Posso ter vindo andando. Não entendi muito bem. Só sei que se meu tio falecido tivesse vivo, pegaria de volta este terno, em, ah, ah.
Ernesto e José riram por alguns segundos, apontando pra Lúcia. Ela beijou aqueles lábios finos, deu-lhe três tapas e sentou. Jorge deixara escapar um brilho dos olhos ao vê-la, silenciou.
– E a causa, vai lhe dar outro celular pelo menos?
– Sim. Promessa, este não perco. – Cruzou os dedos e os beijou.
Lúcia tinha olhos castanhos claros, piercing na sobrancelha esquerda, era tão magra quanto o Jorge. Lábios finos, nariz pontiagudo e inquieta feito um rato. Apertava uma bolota de estresse, que descansava sobre os joelhos. Cabelos curtos e um óculo quadrado escorregava pelo seu nariz e de minuto a minuto, empurrava com os dedos. Sempre vestia calças e blusas longas, lembrando um fantasma. Trabalhava como editora, reclamava constantemente de escritas alheias e formas. Ao ver o Jorge sempre suspirava aliviada, fora do seu alcance e dedos, certeza estaria morto. O via como algo tão genuíno que ardia seu âmago, latejava. Suas contradições a apaixonavam.
– Esse daí sem mim estaria morto. – O coro de risadas se junta feito tinta.
– Certeza, minha deusa grega cósmica. – Faz uma bolota de fumaça. – E então, pegou alguém finalmente bom? Todo mundo acha que tem o que escrever, né? É uma peste. Estilos, formas. Odeio formas. Olha lá, tanta gente sentada. Ih, de menor ali? Porra é essa?
– Peguei, meu bem, um manuscrito de um tal de Juca. Escreve como se abrissem feridas dos dedos, doesse. Detesta longas coisas, quer publicar tudo junto, dividido entre anos e meses. Achei bacana a ideia, mas difícil, de um ano a outro, parece outra pessoa em completo. – Reteve os olhares como se aquilo fosse óbvio – Daí há uma montanha de contradições, o que eu acho fascinante.
Ernesto desabotoou algum dos botões, deixando sua barriga respirar um pouco e retrucou.
– Curioso. Talvez ele tenha medo de finalizar suas ideias. Não vejo problema nisto, sendo que passo dias e dias, repetindo roteiros.
– Pois é, são várias leituras, bem difícil captura-lo. São realmente contrárias. É como alguém que se apaixona perdidamente por alguma coisa todos os meses e anos da vida. – Jorge enciumado cutuca a mesa e dá-lhe um beliscão. – Ah, ah, relaxe, querido não se dá pra fazer nada com uma coisa escrita.
– Escritor a mim e rato, são o mesmo. Fazem a mesma coisa. Enchem a porra das páginas em branco de ideias e se acham. Detesto. – Cospe pigarro acumulado – Se eu fosse mexer com isso, só escreveria mentiras. Mas né, eu sou advogado. Nunca menti, ah, ah.
José há alguns minutos fora puxado para um canto obscuro. Mirava pessoas como se as atravessasse, incapaz de focar em pontos específicos. O álcool ia dissolvendo-se no sangue e suas interações eram primorosas, dolorosas. O rosto da Jéssica surgia na garçonete que chegava ou qualquer mulher presente, e ele precisava dissimular para não cair no torpor. Jéssica esteve com ele do início do curso ao fim, dividiram um apartamento pequeno por mais dois anos, tinham ideias e nomes para filhos. Amavam-se burocraticamente, prognósticos e situações previsíveis ou completamente evitadas. Aos poucos suas rotinas viravam tentáculos afastando os seus amigos, viravam obrigações profissionais e crescimento; línguas, cursos, viagens, trabalho. Aquele amor mirabolante fora decapitado em alguma parte dos anos, José neste estágio investigava incessantemente quando e onde, o que houve. O que eu fiz?
– Ih, o lá, o José caiu. Volta, peste. Você ainda precisa tomar a última dose. Ah, ah. Você não a esquece, né? Triste, meu amigo! Somos pequenas coisas, precisamos viver. Somos borboletas, borboletas vivem um dia. – Esticando os braços pela mesa, dando sacodidas carinhosas nele, Jorge ria afetuoso – Hoje não é um dia para se atormentar, meu irmão! Hoje devemos comemorar!
Tirado destes vórtices investigativos, José deu um tapa forte na mesa e arremessou o álcool ácido para dentro de si. Ficou em seguida quatro minutos em estática, tentando não vomitar.
– Eu preciso esquecer hoje. – Ernesto falou soturnamente, tragando do cigarro – Preciso beber e mais alguma coisa. Preciso esquecer hoje.
Todo mundo lhe entendeu. Jorge, Lúcia e José ergueram os copos e bateram no dele, sorriram e ecoaram um hino.
O brilho da lua açoitava os rostos presentes, atravessando fumaças e o verde penetrante das luzes do bar. Algumas horas passaram, junto disto a sobriedade. Pessoas passavam a mandar recados, chamar umas as outras, beijarem-se. Casais ali tinham funções risórias, manutenção e pressa; contavam horas para voltarem pra onde quer que fosse. A exaustão de preencher esses ambientes para além do álcool se intensifica, quando dentro de si, alguma coisa exige contato, exige prazer. Ernesto além de esquecer, precisava também sentir prazer.
– Ernesto, porque você não sai de lá? Da caixa? – Inquiria Lúcia já chumbada.
– Na real, eu não sei. Acho que, é… É cômodo, né? Meu salário sempre chega, os horários não mudam.
– Sim, cara! Mas o tempo é precioso, ao menos dizem. Eu não sinto diferença de tempo, escolhi um trabalho que praticamente eu só ressurjo por necessidade. – Berrava Jorge de repente – Então é simples, se eu tenho fome ou medo, eu volto. Se pudesse, né, ah, ah, talvez eu nem trabalhasse. Mas aí vocês ganhariam, e eu seria um rato.
– Que nada, gente como você sempre acha algo. Você tem esse manejo.
– Que manejo, caralho? Eu simplesmente digo o que dá na telha e estudo pra o que der na telha não ser maluquice.
– A vida pra você é um teatro, né, querido? – Lúcia dizia com uma voz parecendo algodão derretendo na língua.
– Pois é, meu amor! A vida é isto! Você mostra suas máscaras e escolhe quais devem permanecer. Eu, veja. Eu, é. Veja!
– Ih, perdemos ele. – Batia palmas entre risadas o José.
A noite começara a tomar a forma de um barco entre águas inquietas. As cabeças borbulhando e asfixiadas por expectativas. Ernesto levantara, caminhou entre cones e corpos, pessoas e cones. Empurrou violentamente a porta do banheiro, foi até um dos sanitários privados e ajoelhou-se expurgando um jato metálico e ácido da boca. O som ecoava através das músicas, barulhos de mijo, descargas. Mais uma vez, mais um jato e então se pôs de pé. Lembrou que ali definitivamente alguém teria bala ou cocaína.
Encostado na pia lavou o rosto, a boca. A cabeça roliça lambida pela luz esverdeada fraquejada e intermitente, com cada pisco sentia seu estômago borbulhar de fome. Saiu dali e trocou olhares com alguns homens, esbugalhando os olhos, fazendo gestos. Tremeluzia inebriado, latejava a testa e lambia restos de almoço entre os dentes. Até que um homem careca e gorducho foi até ele, dando-lhe opções e preços. Pegou um comprimido rosa, tacou na boca e engoliu seco. A risada suína do homem lhe animou e então estapeou-se, jogou mais água no rosto.
– Onde tu estava, camarada? Ih, achou o que queria, então? É um gigantesco homem prático! Ele põe na mente e consegue. Epa, não solta da minha mão. A gente se preocupou, você pareceu um desembestado quando levantou. Só vim por que a Lúcia pediu, eu lhe conheço. Mas nunca vi tomando qualquer coisa de alguém aqui. – Jorge parecia preocupado, dava socos e tapas no rosto e ombros dele, mas em vão – Ok, então. Não nos dê trabalho! Ah, ah. Nunca dei a você. Ah, ah.
– Não se preocupe. Já estarei sentido prazer.
Ambos riram como se fosse a continuação de um ritual.
A mesa já não existia, ninguém estava mais sentado. Todas próximas viravam balcões pequeninos, descanso para copos e garrafas. As conversas entravam em ciclos repetidos, e os risos enchiam todo o resto da noite.
As luzes começavam a virar agulhas nas retinas, vozes pequenas invasões e os corpos cores. Ernesto aos poucos virava um balde de tinta, querendo derramar em qualquer um que passasse, para os mostrar a verdade absoluta do corpo. Corpos são como tinta, pensava, eu sou uma tinta azul, gesticulava entre eles. Lúcia notou a pupila virar um preto opaco e viscoso, cutucou tanto o Jorge e o José para os mostrar, e caíram na gargalhada. Ernesto os abraçava de minuto a minuto, fazendo dancinhas e saltitando.
A sua forma física dissipara-se, seus ossos tornaram-se água. Não conseguia diferenciar feminino de masculino, e nestas horas ainda que completamente delirante, não invadia a privacidade de ninguém. Mas tocava braços, falando da tinta, que eram tintas diferentes. Um ou outro entrava nesta imagética, mas causava-lhe ódio quando se aproximavam para debochar. Odiava simplesmente por nessas horas, estar preenchido pela verdade.
As doses rompiam o silêncio, estava em um poste, sendo beijado por duas cores diferentes. Brincavam por debaixo dos botões da camisa, apalpavam sua bunda e pênis. Ele ria, tentando discerni-los, mas não via corpos só cores. Doses rompiam de novo o silêncio e estava na outra ponta da ilha, as nuvens gesticulavam entre si como mexidas por uma vareta divina, em um balde colossal; a lua rasgava frestas pequeninas, misturadas. Até os céus viraram tinta, choramingava com a língua desta cor cinza na sua boca.
Voltou até a sua mesa. Só restara o Jorge e a Lúcia, ambos exaustos e envolvidos em um abraço afetuoso. Tão puro como a verdade. Ernesto juntou-nos debaixo dos sovacos gorduchos, beijou ambos na testa e dissera que podiam ir. Eles não hesitaram, era mais uma parte do ritual.
– Me preocupo com o José, sabe? – Dizia ele a uma cor amarela. – Ele não a esquece. Eu, eu. Eu. – Soluços entrecortados pela ânsia de vômito – Eu entendo. Eu nunca amei nada ou ninguém.
– Oh, love, não diz assim. – Era a garçonete, atrás de um balcão alto. Afastava o copo dos dedos gorduchos dele – Você ama, a gente sempre ama.
– Ah, ah. Minha mãe dizia que eu seria gigantesco. E eu consegui, não é? Nunca consegui parar de comer.
– E onde que ela tá?
– Não sei. Não vejo nem ela, nem meu pai.
– Por quê?
– Por que eu preciso esquecer, esquecer. Sextas são dias para esquecer. Ah, ah. Cadê?
Levantou agoniado, suas entranhas embrulhavam feito lençóis apertando tripas, órgãos. Esbugalhou os olhos e a cabeça roliça assemelhou-se a uma bola de assopro vermelha. Alice, a garçonete, percebeu e correu para abrir o banheiro que já estava trancado. O cheiro coagulado da miséria de toda uma noite jorrou para fora, a luz intermitente iluminando os rastros enlameados de vômito, passos, botas e esquecimento.
Ernesto ao passar correndo lhe olhou como a uma santa. Engoliu o choro, não desatou diante dela. Ela só abriu a porta do banheiro.
Seus passos ecoavam naquele silêncio de três partes, seu bolso lateral estava cheio de comprimidos para insônia. Uma das partes chacoalhava seus tímpanos, agudos gemidos caóticos. Outra parte vinha em forma de duas cabeças, seu pai e sua mãe, contando histórias para uma criança na cama de um hospital. A última parte vinha depois, vinha ao ingerir alguns poucos depois de vomitar uma cachoeira de bile e nada.
Eu lembro que queria esquecer hoje. Falei a eles. Eles não me pararam. Sentado na única fresta não tão imunda, tirou a cartela do bolso. Eu quero esquecer toda sexta, ou não quero mais estar em sexta alguma? A luz rachava os inícios da testa, rachavam seus dedos e pernas. A luz lhe impedia de submergir naquele último silêncio. Vou experimentar isto. Colocou três dos nove comprimidos restantes. Seu último psiquiatra lhe dera, para em noites horríveis, que a dosagem comum para pessoas comuns, um só bastava. Então três pode ser que eu sinta. Suas memórias rasgavam partes dos nervos, abriam espaço entre ossos e músculos.
Engoliu em seco de novo. Duas garrafas ao lado. Uma na metade, pegou-a, leu o rótulo e virou para ajudar a descer. Líquido quente feito mijo, sopa, um gosto verde.
Quero sentir exatamente isto. O nada. Chorou então, na escassez da sua linguagem, já disse tudo que conseguia. Seus vinte e oito anos. Seu curso, suas pesquisas. Nunca amou ninguém. Pediu desculpas a todo mundo. Não achou o seu celular. Então não pediu desculpas a ninguém.
Acabaria ali. Neste nada induzido.
2.
(o ‘conto’ veio desse pensamento abaixo)
Experimentar a perda, diz algo sobre a inconsistência-impermanente de estar vivo. Submergir nesta finitude é atravessar um sentido tentacular; cada membro disperso e caótico, diz algo sobre o ser. Diz que a finitude não somente esvanece no físico, mas amputa suas possibilidades. O que já não está, não pode ser e fazer nada.