CORPOS E MANEQUINS.

02, AGOSTO, 2022.

CORPOS E MANEQUINS.

– Por que é sempre uma mulher? – Com os olhos marejados, dando um tapa seco na mesa, Juca geme – Quando não será uma mulher, em?

 Seu choro transborda violentamente das costelas, comprimindo-o, a voz entrecortada pelo tremeluzir violento dos lábios, dando mordidelas nos dentes e em átimos abrindo sorrisos e risos histéricos.

– Será sempre uma mulher, então? Não há outro jeito, sim? Não consigo escapar disto, não há um lugar em que eu esteja vivo e sozinho.

 A mulher em sua frente, tateia com dedos finos um copo e na outra mão pende um cigarro. Olhos pretos de pupilas opacas, lábios tenros e avermelhados, de pele esbranquiçada feito leite e tatuagens escorregando pelo corpo coberto por um moletom preto. Tragando profundamente o cigarro, deixando a fumaça deslizar pela boca lhe responde.

– Juca, é triste ver você assim. Você tá sempre girando, indo e voltando, pros mesmos lugares. Você tá aqui comigo, mas não parece estar, parece falar sozinho. Ah, você sabe? Não? Tu é um monólogo atrás do outro, sempre injetando em mim um canto que sequer existe. – Ela descansa o queixo numa das mãos e traga um pouco mais de fumaça – É assustador, não sei o que devo dizer ou fazer quando estou contigo.

– E por que você vem, então? Fica lá, fica lá. Desculpa. Não vai, pera, volta. Sim, é um ciclo mesmo. Estou tão exausto, sabe? Tão exausto. Antes eu lembro ter sido choro agudo, choro de tristeza, choro com sentido. Hoje eu só estou cansado.

– Exausto de que, meu bem?

– Dessa coisa, desse lugar que nunca chega. Dessas histórias, dessas pessoas, desse mundo. – Pausando para arranhar os pulsos com unhas curtas – Não consigo dividir, sabe? Minha cabeça lateja nos processos, vou e volto pra cidades. Quando eu vou parar?

– Não acho que você deva parar. Talvez você só precise aprender a esquecer.

– Como alguém assim esquece?

– Assim como?

– Assim feito eu. – Sua boca acometida por espasmos longos, lágrimas descendo pelos cantos dos olhos. – Estou exausto, exausto. Vê, oh, traz uma cerveja, obrigado. Minha cabeça está entre curtos circuitos. Não consigo chegar mais perto de ninguém, Lúcia, não consigo.

– Você está aqui comigo, meu bem. Acha pouco? Quem na verdade é essa mulher, então? Se for realmente uma mulher que você tenta dizer.

– Não sei, não a vejo. Não deve nem sequer ser uma mulher, deve ser alguém. Sempre alguém me tira e diz o que fazer, me lembra que estou aqui e vivo. Minha visão está turva, sabe, Lúcia? Está neblinada, acinzentada. Ouço os corpos como catracas mecânicas. Ah, desculpa. Eu não quero mais isso, ah, ah.

– Corpos? Não são pessoas, então?

– As vezes. Na maioria são peças juntadas, manequins. As vezes são fascinantes, as vezes não. Parece que alguma parte do meu espírito decide o que é e não é. – Ele dá um gole violento da cerveja recém-trazida – Eu, eu sinto pena de mim. Pelo que eu vi lá e não consigo sair.

– Lá onde? Tu acha que lá você transformou as pessoas em manequins, em corpos disformes? Peças? Que é isso, meu bem, pode chorar. – Lúcia diz com a voz adocicada, alisando sua bochecha. – Eu sempre estive aqui contigo.

– Sim, talvez, não sei. Eu era tão pequeno, tão pequeno. Sozinho, cheio de medo. De um medo sem forma alguma, sem nome. Ah, desculpa, é. Sim, lá, um quarto gelado e pequeno. Meu irmão vinha com dvd’s, sabe? E um deles era pornográfico. – Juca estremeceu, deixando a testa acertar a mesa com força. – E me disse ser outra coisa, né? Então eu esperei; não lembro quantos anos tinha, mas pela memória, foi a primeira vez. A vez que não entendi nada. As imagens, sabe, meu bem? Aqueles corpos, aqueles gritos, aquelas ordens. O que era aquilo? – Mordia os lábios, transportado para o quarto gélido, para os sons intermináveis do indizível e incompreensível. – E eu levantei, juro, corri até a porta, mas meu primo bloqueava; O Gabriel então me empurrou para a cama e disse que eu tinha de assistir, que eu ia assistir, nem que fosse a força. Eu não soube o que fazer, sabe? Minhas pernas travaram, estava tão fraco. A porta bateu e os dois riam alto de mim lá fora. Eram mulheres e homens, não é? Mulheres e homens. O que era aquilo, Lúcia? Por que eu não saí de lá, não sentia nada, meu coração gelara e eu não conseguia sentir. Depois de o que? Quem sabe quanto tempo? Ah, quanto tempo foi? Desgraça, por que aquilo manchou minha alma? – Arranhava não mais os pulsos e sim os braços, tremendo histericamente entre soluços.

 Ela puxou a cadeira para perto, envolveu-o, deixando-se derreter por alguns minutos. A baba e os ecos agudos esmagados pelos ombros, um homem diante de si caído, despido e irascível. Não reagia, travara feito aquele dia, um vórtice esbranquiçado neste espaço-tempo, levando os dois para lá. Lúcia sentada ali na mesma mesa, na mesma cadeira, com ele; ao lado, um colchão no chão e na televisão os corpos, manequins de peças coladas recebendo ordens; pênis parecidos com massas de modelar; seios criados por dedinhos incautos infantis, vaginas e bundas, rostos deformados. Naquele ambiente, não existia nada além do horror impregnado pelo indizível e corruptível. O puro obsceno através dos olhos do Juca. Ela desatou um choro, tentando convulsivamente tirar aquela criança gritante e chorosa dali, leva-la para um canto onde seria enfim possível esquecer. E que os corpos não são manequins e peças desmontáveis, que os corpos são formas, são seres e que não vão prendê-lo lá de novo. Que não devia ser ou ter sido assim.

 As cadeiras e mesas iam surgindo aos poucos, o pequeno rasgo do tempo-espaço reduzia-se e seus dedos impotentes tentavam amparar aquela coisa miúda desesperada. A nitidez lhe perseguiria, entendendo enfim a rigidez inflexível do corpo do Juca, como tocá-lo e envolve-lo levara tanto tempo.

– Meu bem, meu bem. Volta, vem para cá. – Dava-lhe mordidelas, beliscões para despertá-lo do transe. – Estou aqui, vou ficar aqui. Você quer alguma coisa? – A cabeça pendia de um lado ao outro, coberta pelos cabelos lisos – Tudo bem, quer ir para casa? Em? Tá bom, tá bom.

 A noite esgueirava-se pelos centímetros germinados por aquele afeto cruel. Dava voltas ao redor dos dois, empurrando-os para perto, para um abraço puro e afetuoso. A memória infestara por uma hora inteira seus espíritos, entrelaçados por um amor inexorável.

 Juca enfim erguia o pescoço para fora, apertava o queixo dela e mordia sua testa. Na ternura deste apetecer, brincaram com seus próprios dedos, juntando as mãos e pedindo mais uma cerveja.

– Você acha que faz bem dizer essas coisas? Dizer desses lugares? – A sua voz agora calma e tenra.

– Acho que assim aos poucos você vai esquecendo, meu bem. Assim talvez você consiga escapar daqueles corpos. Eu sei que não está só ali, eu sei. Mas parece ter sido a primeira vez.

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