10, AGOSTO, 2022.
JUCA E SAUDADE.
Ao lado um homem estava sentado, próximo a entrada da varanda. Uma porta de alumínio gemia em seus movimentos pegajosos, manchando aquele silêncio plácido. Seus olhos estavam grudados em um livro aberto, tateava-o com seus dedos esguios e longos. Suas pupilas eram negras e opacas, cabelos emaranhados e lisos, magro de uma forma quase espectral. Estremecera de repente, erguera a cabeça mostrando seu pescoço longo, maxilar quadrado e uma face inteira que remetia a vórtices. Olhá-lo causava inquietude.
– Vê, Juca, cá estamos de novo, em? Quanto tempo que não nos víamos? Você fica entre essas ideias, né? Esses sonhos minúsculos. – Puxava do bolso um cigarro, tragando-o agressivamente antes de continuar. – Ah, ah. Olha, eu não queria estar aqui hoje. Tenho outras coisas a fazer, você bem sabe.
– Pois é, meses. Achei que tinha lhe esquecido finalmente. Ou que não tinha lhe chamado mais. Sobre você, é difícil, sempre será difícil. Vejo que ainda não consertou os olhos, né? Não tem cor alguma aí pra ser vista. Ah, mas confesso que senti sua falta. – Juca mirava dois pássaros pendurados nos galhos finos da árvore próxima ao prédio.
– Como não sentiria? Qual foi a última vez que você viu alguém? Eu não conto, saiba disso. Ainda que tente, você não me tira de si. Tenho lido bastante, ah, dúvidas? Eu tenho, diferente de você. Consigo! Veja. Sim, esse daqui é sobre a certeza, ainda que não tenha me dado nenhuma.
– Isso é verdade, peste, verdade mesmo. As vezes invejo os acumuladores de livros, sabe? São tão mesquinhos na estrutura deles, acham que cada livro lido traz diferença, contraste, hierarquia! Até que, né? O vício em hierarquias. – Tremendo as pernas ao pensar nisto, estica o braço pedindo um cigarro. – Há sempre um tipo de inveja, mesmo? Você concorda com isso? Inveja?
– Não acho que seja inveja. Aos poucos cada um tende a se organizar, a única tragédia é a estagnação. Você sabe que, você sabe que detesta acúmulos pois não acumulas, né? Então nestas percepções raras, não só descobre sobre o mundo, mas sobre você mesmo. Ah, ah. Se viesse a ser um burocrático leitor, eu lhe abandonaria. – Um riso desata dos lábios convulsivamente, pausando-o por dois longos tragos – É bem verdade que não iria embora, mas daria um jeito de jogar os livros fora.
– Jogar fora. Não deixar que fiquem, não deixar que sejam. Sinto essa coisa tentacular quando observo capas de livro. Desejá-los é como acrescentar algo a mim, que sequer existe; parece uma demonstração de mim, uma exposição a quem me vê. Não é isto? Parece que são roupas, trejeitos, sei lá. É bizarro.
– Talvez na sua estrutura, você precise de razões que lhe escapam os dedos para tê-los ou adquiri-los. É óbvio que é isto, seus acessos são como despertares inquietos de pesadelos constantes. Toca e devora livros como um condenado. Eu admiro, mas tenho medo.
– Medo de quê?
– De que entre lapsos, como estes, em que a certeza é somente uma miragem composta dos fascínios e horrores, você caia no absurdo.
Dante silenciara de repente, levantando e indo até a cozinha. As luzes de um corredor longo piscavam cores verdes. Uma penumbra adocicada mordida pela eletricidade da geladeira e o bater dos pés na sala pelo Juca. Ele pegou um vinho sem nome e dois copos longos. Voltando arrastando as sandálias na cerâmica.
– Ah, então achou o meu sonho?
– Não podemos continuar sem isto, você sabe.
A lua iniciava suas instâncias ritualísticas. Os postes injetavam seu torpor nas calçadas. Pessoas iam a cada hora tornando-se mais escassas. Chiados de gralhas, agulhas dos silêncios no apartamento. Um olhava o outro entre goles breves, saboreando o amargo leve e deslizante das uvas, do álcool. Juca esboçava caretas perceptivas nos intervalos de um copo ao outro, ao sentir um átimo de afeto abria seus lábios e lambia os beiços. Depois de quase trinta minutos conseguiu dizer.
– A saudade tem sido cruel a mim, Dante. Tem sido cruel. O pior é que uma saudade sem nome, tem todos os requintes de uma maldição. Como sentir somente saudade, sem nada detrás, sem desvelamento?
– A substância da tua pele, do teu corpo? Não consegue ser só? Eu lhe acho tão lindo.
– Não é sobre ser só, ah, ah. Só é um caminho infinito, ser só é condição de ser. Quando sou açoitado por alguma saudade, está sempre movimentada pelos labirintos mais inexplicáveis e indizíveis do meu âmago. Sou atravessado por uma sensação inexorável, perpétua. Um tipo de amor raro, puro. Ah, ah, eu sei que você odeia a palavra puro, mas não me vem d’outro jeito.
– Você sentia minha falta? Não, né? Não há falta de mim em você. A falta parece que é como um espectro que lhe rouba, lhe tira e não lhe diz a razão. – Dante com os dedos entrelaçando dois cigarros, chamava-o para sentar ao lado, na varanda. – Então é puro, a pureza aí está contida no inexplicável e inadiável, necessário. O amor aí, Juca, é idêntico ao desespero.
– Desespero? Achas que por não dizer? Que é isso?
– Você consegue dizer?
– Não, pois se digo, a substância pode perder o efeito e como toda outra saudade em mim, deixa de ser. Deixa de ter este efeito, deixa de causar, deixa de me tirar. Ah, ah, bizarro né? São vínculos de afeto puro, que desvelados talvez não se provem. – Abrindo e fechando os olhos agressivamente, afastando algum rosto específico da memória – Ué, preciso prova-los! Todos próximos a mim, conseguem diferenciar suas relações, suas permanências.
– E você não, né? Você nestes anos todos e já são alguns, não está aqui como um infante. Tua cabeça permite entradas e saídas de sensações que a você são colossais, Juca. As outras pessoas ou eu, não lhe tiram e dão paz alguma, ao descreverem como é simples e repetido. Teu espírito rejeita a obviedade de que talvez, a sua saudade seja amor, mas que se fosse amor você teria saudade de outras pessoas também.
Juca despencou de repente, com os braços esticados e uma das mãos segurando firmemente o copo. Pôs a cabeça no ombro pontiagudo de Dante, acariciando com movimentos leves e rápidos. Entre soluços ásperos e pigarreados sentou-se de novo.
– Se eu tivesse a mesma saudade dos outros, é isto? Se eu tivesse também saudade comumente, não me seria puro? Ah, as curvas disso são incessantes. Ah, ah. Não sei se devemos.
– Sim, meu íntimo, caso você esboçasse saudades genuínas ao teu ser como a esse rosto específico, então a pureza deslocaria para o comum e isto lhe causaria medo. O comum a ti é a repetição, a repetição é desespero. Você vê humanos ou corpos, Juca? – Dante puxara-o pra perto, abraçando forte. – Talvez a ti isto nunca mude.
– Caso seja, então, caso realmente não exista diferença e sejamos enfim caixas e manequins, colapsarei. Não somente, ah, ah, pelo fato de também me ser um manequim, mas de que estarei errado. E a pureza das minhas saudades, são manifestações de um lugar que só existe em mim.
– E caso seja?
– Que seja.
A noite deslocava-se devagar, manchas brancas no céu azul-acinzentado. Carros em raras aparições e motos com suas descargas chorosas. Envolvidos na densidade turva das luzes apagadas, na penumbra suplicante inominável. Juca atormentando por um rosto específico, grudado nos vórtices prognósticos da sua cabeça, vendo-a nos mares e lugares que queria tê-la mostrado antes e agora, e sempre. Dante não se movia, estático, nos giros velozes das suas pupilas detrás das cortinas opacas. A porta é batida duas vezes, na terceira um dos dois levanta e vai, empurrando fagulhas e acúmulos de poeira e fumaça, acúmulos dos ditos antigos e ali renovados hoje.
– Lúcia! Lúcia, Dante, Lúcia!
– Oi, meu bem. Dante, como você está?
– Dane-se, dane-se como deveria estar. Vem cá! Ah, que saudade absoluta.
Lúcia irrompia nestas quietudes agoniantes, no seu bojo um tipo de alegria deleitante ao Juca. Envoltos por alguns minutos naquele apetecer solícito, desenrolaram-se, tirando da sacola estendida por ela, mais três vinhos sem nome.
– Que vocês estavam fazendo? Que silêncio esquisito é esse? Liga a caixa, Juca, meu deus. Como vocês são.
Aberta uma nova garrafa, um novo copo ali ante os dois anteriores. O céu já estava manchando por completo e a lua desistia de atravessar ou abrir frestas. A penumbra se tornava nítida, e uma luz acendia na varanda para que os rostos não se desmanchassem junto das sombras.
– Recebi um livro curioso hoje, Juca. Mas não senti muita vida nele. Acho que vou adiá-lo ou dar para outra pessoa. – Com um cigarro azulado entre os lábios finos. – Fico até hoje esperando você juntar os seus fragmentos. Você não vai terminar, né? Ah. Me dê aos poucos, meu bem. Deixa-me te ajudar.
– Você me conhece. O Dante me conhece também. Não creio que terei determinação para tirar dali, e tornar físico. Ah, sim, eu sei que já é. Mas é diferente. É diferente, sim!
– Não é, você só tem medo mesmo. Na verdade, não acho que seja medo, hoje admito que estou admirado pelo teu ato criativo ficar na imanência de sua condição. Você faz por que é completamente seu. – Dando duas goladas violentas e acendendo um dos cigarros azulados da Lúcia – A complexidade aí é somente, se for por isto, o que esperar disto e caso seja sua condição, então ela não acabará nunca, pois é condição.
– Caso ele fique nisso, Dante, eu não publicarei nada. Caso ele permaneça nessas introspecções vertiginosas, nestas aventuras conceituais, o seu estilo vai se tornar tão ausente de forma e caminho, que terá de ter um nome próprio. Não me abra esse sorriso, nem me abra, isso é perigoso.
– Todo aquele que olha pra si e vê destino, está condenado.
Os três desatam um coro de risadas metálicas e ruidosas, acostumados por frases fustigantes do Juca. Mas tão acostumados que elas deixam de ser, e tornam-se calmarias, tornam-se um simples encontro.
– E então eu ficarei arrodeando tua forma, condenada a ela? Ah, sim, meu bem. Um dia né? Um dia você tira de lá e torna físico. Acho engraçado como a ti, as coisas vão ganhando sintomas e formas completamente diferentes. Parece que teu olho detesta que seja também um olho.
– Que é isso, meu amor? Acha que não queria ser humano? – Juca com olhos marejados, contaminado pelo surreal da presença dos dois ali. – Eu de fato sinto ossos e músculos, sons de dentes movendo-se, línguas. As vezes queria romper de vez comigo, com meu corpo.
– Tá vendo, Dante? Tá vendo quem eu quero mostrar às pessoas? Quem eu quero tirar de si mesmo? Alguém que não só não queria ser, mas que nesse paradoxo faz tudo que faz. – Ela afeta-se por arrepios breves, arrepios de epifania. – Aí, aí meu bem, então eu fico. Pela sua negação às formas.
– Eu lhe entendo, Lúcia. Eu as vezes trago do bojo, trago caminhos e curvas a ele. Mas sinto que não funciona assim. Sinto que o espírito de alguém feito ele, é atravessado por razões impraticáveis. Tudo afeta, é cáustico, se não for totalmente dele, não é nada. E tenho medo, por ele, que meus intervalos se alonguem e ele fique completamente só.
Rastejando pela cerâmica, lambendo os joelhos dos dois, Juca vai até a sala e liga uma caixa de som, pondo algumas músicas convolutas como ele. Volta do mesmo jeito, dá as mesmas lambidas e escora-se nas grades de ferro. Seus olhos marejados e claros roubando pontiagudas extensões da luz no topo, roubando para si a opacidade infinda do Dante, e a calmaria transcendental da Lúcia. Razões distantes e impraticáveis, contidas em si, somente a si, na permissão dialética.
– Eu amo tanto vocês. No esticar dos seus tentáculos, ah, ah, vocês me têm em completo. Posso lhes ser. Eu, eu não estou bêbado. – Cai no colo de ambos, contorcendo-se feito um gato. – Fiquem hoje, por favor.
– Ah, ah. Não temos para onde ir. Eu principalmente não. E tu, Lúcia? Entendi, então fiquemos. Não há Jesus aqui, mas podemos sim multiplicar os vinhos. Pernas nos deram, sim? A certeza disto, eu possuo, qualquer outra eu não posso confirmar.
– Noites em que o ser está manifestado, podiam cessar, não? – Com a voz arrastada pela calça das pernas da Lúcia, Juca choraminga – Hoje, é o tipo de dia, em que o ser e o nada está manifestado. A tragédia aqui, é a irreverência ou impraticabilidade, a semelhança! Este dia, meu bem, não se diferencia em nada daquele e justamente nisto, contém dentro de si o ser.
– Ah, ah. A diferença está na repetição, então? A diferença dessa noite e aquela em abril, existe? Existe! Ah, acho que lhe entendo, a diferença desta repetição está em que nenhum de nós estagnou. Nenhum de nós se tornou dogma.
– Exato! Exato! Somos isto, constantes imanentes, impermanências eternas. Nada que seja dito, nada que se pense, nos encapsulará! – Levantando-se num átimo, gesticulando ante a minúscula multidão diante de si – Vamos e seremos isto, no próximo mês, no próximo ano. Repetições completamente diferentes.
– Meu bem, você precisa as vezes estagnar. – Ela diz sem crença alguma nas palavras derramadas pelos lábios finos e azulados pelo cigarro. – Precisa. Ah, você já viu? É, nem eu acredito nisto. Você deve ser. Isso, eu creio e estou para. Você deve ser.
– Sim, Juca, seja. Até que a certeza amarga seja a de que isto é condição inescapável. Que as dosagens desses cantos que arrancam pedaços da tua pele, cessem também. Detesto lhe vê convulsionar, por aquilo que podia não ter lhe feito.
– Em verdade eu sou um fantasma, amor. Um fantasma. – Dançando nos gestos imitantes dos instrumentos recusados desde sua infância.
A madrugada surge repetida, somente uma madrugada. As pessoas lá embaixo vão e voltam, repetidas, somente pessoas. Eles ali, no ápice do amor, da epifania das suas percepções, repetidas, somente amor. A diferença desta repetição, que açoita o crânio manchado de cores e tintas, espíritos e formas, no Juca; é a de que, há sim diferença, pois todo aquele que volta, não está estagnado.
– Não precisa nos inventar saudade, meu bem. Precisa somente voltar. Não terá a pureza inominável, como você fala, de mim ou do Dante. Mas a nós, você volta, e a nós o cabe trazer também.
– Pois é, lástima, entenda que se a ti não é amor ao teu modo, isto é, a nós, amor.
– Voltem, voltem! Canalhas! São canalhas. – Desmanchando por cima de ambos, feito tinta, derretendo como sempre quisera.
isto se pode-se dizer conto ou crônica ou qualquer coisa, veio deste pensamento hoje.
“A necessidade de algo para além do corpo, para além desta finitude, sequer causara chagas no seu espírito; sequer brotou úlcera, desespero. Finitude a si montara um composto orgânico e prático, entre investigações introspectivas notara diante das aberrações ou fascínios, um complexo labirinto – nada mais que isto.“