SOBRE NÃO SERVIR PARA NADA.

16, OUTUBRO, 2022.

SOBRE NÃO SERVIR PARA NADA.

Estas corrosões vão continuar, vão arrastar-me pelo piso fétido desta tragédia contínua. Sou vítima ou mísero, sou isto ou nada; patético, pífio. Vão pisotear minha memória no acúmulo dos fracassos neste pretérito vertiginoso, onde a pele junta-se ao sangue coagulado e feridas expõe-me a mim, repetem processos quiméricos. Repetem, pois nada há fora do meu espírito que eu alcance, o prognóstico é como metáfora e a guilhotina decepa e me rejeita, cabeça minha que rola por salas e estes quartos repetidos. A guilhotina da metáfora mor, a possibilidade pútrida da minha voz germinando no ouvido alheio um caminho possível; cá, de novo, cá não há nada.

 Repleto das chagas raquíticas, arrastadas pelas cordas vocais do meu silêncio. Uma sordidez lamentável, um dia inteiro submerso neste limbo; nesta ternura inquieta, neste diabrete. Vão olhar-me e ver que de novo, não fiz, não alcancei e nem consegui fazer nada. A rejeição ou a cobrança, qual cobrança é feita a um que sequer exigiu antes algo. Vão apedrejando minha insólita forma, meu espírito maldito; vão, pois devem, são maquinários transitórios e catracas giratórias contínuas, vão, pois, são só isto e eu nada, absoluto nada.

 Não consumi o afeto, não consumi a carne que nascera da minha língua e movimentou um mar inteiro, dando cores misturadas no quebrar das ondas; misturadas ao odioso céu nublado, manchando os lapsos claros do sol lilás. São sonhos inquietos em dias inquietos, onde eu estou de novo na ponta de um cume; um cume que possui a placidez, o imagético transfigurado por considerar e perceber que os atos são translúcidos e opacos, meus dedos são imagens, minha língua uma imagem, tudo uma imagem misturada e configurada para dizer o absoluto, um nada. Considerar este movimento, isto, as curvas mirabolantes nas palavras simples, nas tentativas e no ato de escrever, mas é como dissera um lá atrás, quando ainda estava germinando nos vórtices dos rostos, olhos e bocas, braços interligados e pernas; junto a entidades, a vocês e um eu tateando pisos, escadarias, sendo assistido ou feito de chacota; não tiveram piedade alguma daquele infante, sequer esticaram um dedo para tirá-lo d’outra queda; lá, nos vórtices dos membros em cores difusas, misturadas ao gosto enferrujado, abri pela primeira vez os olhos e vi que eu e o nada, somos o mesmo.

 Não há absoluta desculpa a se pedir, há somente medo. Medo pois os anos dizem sobre mim uma coisa, os anos mostram. O material não se desfaz no tempo, todo condenado guarda consigo a memória, um pretérito áspero que a cada toque fura e abre feridas no corpo. Despenco entre calçadas, faixas de pedestre, postes intercalando piscares amarelados; despenco nas verdes folhas, alaranjadas ou nenhuma; despenco na chave que erra o trinco, lembrando dos ecos impuros; ecos como a sordidez da minha alma. Não fiz nada, não sou nada, repleto e fatídico fracasso.

 Vê a mim, olha nos meus olhos, qual o valor d’algo, qual o valor daquilo que a substância é completamente de um corpo, de um eu; de mim. O valor que mancha e abre cabeças, expõe convulsões nos outros, nos alheios. É sobre mim, tudo é sobre mim, oh, são sobre nós em verdade, mas há quem ou a que outro há tempo de nos considerar, de me considerar. A peste disto, é que não consigo lhe mostrar, não consigo dizer, não consigo ser, não consigo nada. De novo. Nada.

 Feche a porta, tranque a casa. Feche a janela, feche a porta. Lá, este dedo que tenta ou aquele corpo que chora e despenca, vê, são quedas e janelas, degraus e varandas, grades; uma repetição oriunda de um desespero, desespero frágil, incapaz de arrancar enfim minha cabeça; pois nós nos alimentamos disto, somos viciados na desgraça, desgraça surgente e repleta dos meus próprios rostos; vivo neste privilégio, de poder sentir a agonia, toda ela, todo centímetro minúsculo da agonia. Mas, é escassa, é uma agonia subjetiva. Ah, como as vezes comparo isto, mais uma noite caído no piso empoeirado, nas penumbras rastejantes e sombras, eles e eu, em um tipo de ode, ode ao privilégio do nada. Pois, de mim aos céus, é sobre mim e de mim aos céus, sou nada.

 Não me traga influências, nem aponte para lugares. Jamais ousei dizer ou mostrar atos argumentativos, artigos sobre ninguém. Existir prevê interligações, osmoses, continuidades; mas, como todo homem submerso no absoluto do privilégio, de intercalar agonia e desespero, lapsos raros e escassos de amor; todo homem deste tipo, diz somente sobre si mesmo. Pois, como escapar de nós, pois, como viver sem nós. Não dá para provar isto, não dá para ir até o meu osso e sentir, ir até o osso e escrever. Não ser ou não entender parece chacota, brincadeira, parece um eu que tem medo do erro, um eu que fracassa. Talvez, talvez eu assuma o rosto de um privilégio que ante o mundo a esticar mãos para me salvar eu rejeito, para preservar isto, o absoluto nada.

 Ver, ver que estavam certos; o ato desta escrita é praticamente maldito. Maldito pela lógica prática e subjetiva, lógica que conduz e condiz sobre um lugar específico, um eu; todos os caminhos levaram-me até isto, ao cume. Cume perceptivo, sou testemunha destes espíritos ofuscantes, mirabolantes nas suas agressões introspectivas; ouvir d’algo ou alguém que eu acredito como se fosse parte, como se não fosse real. Tudo que me habita é, é isto e não há outra curva possível, nem escape.

 Observações e tentativas mesquinhas, observações trágicas. Os homens e mulheres ante mim, nos seus ápices, nos seus corpos, nas suas vivências. Os vejo como aquele mesmo infante caindo dos degraus das cores opacas, mescladas e difusas. Uma das quedas não houve chão, piso, parede; flutuei por dias inteiros, até cair duma porta aberta no teto deste quarto, ensopando a cama. A agonia, de hoje notar que tudo isto foi para nada.

 Nada, pois, o que valora algo ou o que dá sentido a algo, o que mostra ou o que faz com que seja válido, que eu seja algo. Algo, sim, algo que não somente valora-se, mas percebe-se, vê a mim que sou isto, a escrita nascida da agonia, manifestada pelo desespero e o medo, das confusões e a dialética é simples, se há agonia e desespero, a escrita vem como catarse? Não, a escrita é feita a convulsão dos braços, das pernas, das costelas; o choro inquieto maldito e incauto, destes em mim, deles em mim, de mim a mim, a escrita vem para diagnosticar e mostrar como é; sem manuseios românticos, eruditos, puro e simples eu, puro e simples nada.

 Sinto muito, este dia é idêntico a tantos outros, todos gesticulam com sombras inquietas por luzes amarelas. Não há substância, sequer vício, só isto mesmo; medo, agonia, desespero.

 Meu corpo está caído, caído como deve e deveria.

 Não há cura ao perceber que tudo isto, todos os trechos reunidos, simbolizam um absoluto nada.

Eu não consigo estar aqui, não vou conseguir dar vida a isto, sei que se ficar vou morrer; morrer pois não é a primeira, nem a segunda; são 9 anos, são nove vidas.

 Se puder, arranque a minha cabeça.

2.

 Ser, tudo isto é manifesto de mim. Há valor n’algo que surge e rompe da minha traqueia? Isto é arte?

 Valora-se isto? De que serve manifestações deste âmbito, deste inferno?

 Desculpa.

3.

 Tudo isto a nada.

 Nada.

 Nada.

 Invejo tu, invejo você, invejo vocês. Não como um que sente diferenças, ou que conheceu algo; como um simples que diante desta desgraça, ausente completa de sentido prático; daria os dedos e a língua, para submergir neste lugar em que vivem tão bem, mesmo nos dias ruins, mesmo nos dias difíceis.

 A mim, amor, todos os dias foram e são infernais.

 Eu cheguei até aqui,

 Não seria hoje que arrancaria minha cabeça,

 A certeza é que a inquietude desta desgraça vive dos cortes no meu âmago,

 No inferno dos rostos nascentes constantes do meu reflexo no espelho,

 Mas saiba, amor, que eu estou vivo.

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