18, OUTUBRO, 2022.
SOBRE PROGNÓSTICOS.
Isto é uma condição, uma condenação. Verdes os olhos, as causas e os efeitos, não me restam forças dentro deste silêncio induzido. Meu dito escorrega da língua como átimos metafóricos, minúsculas tentativas de escapar e possuir vida. Lá fora o sol chicoteia paredes e testas alheias, lá fora há um tipo nascente constante; parece haver vida. Que hábito é este, que rompimento de causas e caminhos me fizera esta deplorável movimentação letárgica, caótica, improdutiva; há odes e conhecimento, há introspecções, sabedoria, há tudo isto e ainda que haja, o espírito descansa no absoluto decomposto, um choro áspero cheio de unhas abrindo espaço entre traqueias, coagulando meu silêncio.
A resistência parece requisitar prognóstico, parece pedir a mim um tipo de razão. Dentre línguas e estudos, encontro permanência como esta, como se por viver, viver ser a razão; estar vivo, pois sem estar não poderia dizer nada. Lembro d’alguma noite idêntica a esta, sentado do mesmo jeito, observando nuvens alaranjadas no crepitar de um céu acinzentado; a lua que mostrava seus olhos cáusticos nos lapsos inquietos; esticando braços e mãos na borda da mesma janela, em algum andar distinto -hoje é o terceiro, lá fora o décimo terceiro, n’outra o sexto. A resistência é inaudita, não se transmite e não se compartilha.
Meu corpo rasga a mesma pele, rompe as mesmas costelas, açoita a própria súplica. Houvesse a mim um dia discrepante, para que a tormenta fosse desfeita, não dita e como epifania, derretida e decomposta; para que deste rompante, meus olhos verdes incautos atravessassem a última curva mórbida neste labirinto.
Não tenho mais resistência, não tenho mais linguagem, visto que o existir ou as condições e as causas, efeitos. Eu estou cá, entre vertigens, entre cosmos, tentando; mas como uma testa que agride um mármore pensando ser ferramenta, moldo um futuro decrépito cheio de padecimentos, acolhimentos detestáveis; nos soslaios, nas premissas, as pestes e chagas envolvem-me nos seus tentáculos e a vida continua nas ruínas.
Falhar ou não ser, ter tentado e não ser. Cuspir, manchar, chorar; o que vem a trazer consigo no bojo, no fundo do gole, ao contato da língua; atravessar do olho ao olho, vir dentro deste e regozijar uma solução, uma razão; o que traria ao instinto, âmago, espírito, razões reais de permanecer; razões para que pernas não corram até uma esquina, até uma distância específica, mas que sejam minhas; quais contatos, brevidades, solicitudes ou míseros relatos, o que a mim substituiria o eco odioso desta inquietude introspectiva, sistemática e solitária; como satisfazer alegorias tempestuosas constantes, como apontar para um futuro que não é queda, que não um salto do cume.
Ouço nas vozes e vejo relatos, histórias contemporâneas, vidas atuais recentes; não há este ou aquele que em desespero não compartilhe, não vá até e cause, vá e transborde em gritos, erros, desandares, chacotas, traições, agonias; ouço e vejo, estas experimentações dos homens às mulheres nos seus cumes, que traduzem-se no mundo, em histórias.
Minha agonia está em todos estes dias e o futuro dissolve-se nesta realização, nesta condição mirabolante, fatídica. Toda esta criação, este contato ao divino, é meu; só meu e não significa e conduz a nada.
Queria ou seria. Não parece a mim questão de querer. Trago a experiência rasa, escassa, específica. Não vim a esta terra para trazer histórias, ser homem ou humano.
Afísico, sem corpo, sem espírito.
De ser sobre alegria, de ser a pele, os olhos derretendo aos poucos junto da água; das ondas, das cores deste céu.
Peço desculpas não só a mim, mas ao infante que manuseava constantes amedrontadas e o horror. Ao infante debaixo do suor, dos lençóis; umedecido por rostos desfeitos nas sombras, sons ruidosos entre corredores. Este tipo, esta cousa.
Falhar, ser, falhar ou não ser.
Meu ato, meu dito e não dito. Esta história, a minha história é contraditória por ter havido átimos de alegria; átimos de amor, carinho, afeto; átimos em que não fui a substância minha; não fui isto.
Desisto, amor, desisto. A comparação escancara que até o facínora vê de si prognóstico, enquanto eu alimento um nada. E como covarde fico em silêncio, como covarde fico quieto e honesto a mim.