ARRASTADO.

10, NOVEMBRO, 2022.

ARRASTADO.

JUCA.

A chuva estava prolongando-se e ficando mais violenta, nuvens cobriam o céu azulado. Sentados lado a lado, Juca e Dante entreolhavam-se. As ondas findavam na beira, ecos misturados entre gritos e choros a cada trovão. Juca tira da bolsa uma garrafa e dois copos, estica a mão dando um ao Dante, ambos enchem até a beirada e brindam. Não se viam há semanas.

– O que tu sentes a cada gota de chuva? Em verdade? Olhando o mar frente a nós, mordendo as beiras com suas ondas. Eu, eu estou exausto. Sabe? É, é fantasia, é agonia, é tudo isso. É, pois é, por isso te chamei hoje, precisava lhe mostrar uma coisa.

– Ah, não sinto muito não. – Dizia Dante dando uma golada agressiva na bebida alaranjada misturada com gotas de chuva. – Tenho ido para alguns lugares diferentes esses dias, como se para provar algo.

– Não durmo bem há semanas, vê, meu corpo está dando aqueles tremeliques chatos, e minha mão tem ficado meio dura. Sim, tipo rígida na verdade, sim, rígida; nas aulas as vezes dá vontade de chorar, cores ficam intercalando e alguns tons, sabe? Tons de voz, tipos de voz, tipos. Eu, eu não aguento mais. Vê, lá no fundo, acho que é alguma plataforma de petróleo; em um horário específico brilha uma luz amarelada. Penso no pessoal que lá habita, como escolheram ir; é, ir… Ah, ah, são dias assim. Dias…

– Quais dias não são desse jeito a você, Juca? Quais horas não são repletas destas agonias.

– Não tenho memória se foi a mim possível não ser deste jeito. Vê, olha minhas mãos como tremem. Tenho rangido os dentes, até comprei algumas bebidas essa semana. Não, é, na verdade sim, tenho bebido sozinho; na varanda quando a Lúcia não pode vir, quando não dá mais. – Juca desatou um choro ruidoso, como aberto das costelas e numa voz diferente, infantil. – Vê a mim, Dante, que coisa eu viro ou me transformo. Vê a mim, pelo amor de deus, diz que está me vendo. Ah, ah, tão minúsculo, tão asqueroso. Eu nesse fim de semana saí com o Melo, me arrastou para uma praça lotada de gente, rostos e corpos; troquei olhadelas, conversei e dancei. Em uma esquina, esta ladeira, sabe, uma ladeira como uma língua descendo por um lábio; no fim, dois postes tremeluziam e convidavam-me. Não dá mais, Dante. Que é isto? Quem crê em mim?

– Ninguém. Talvez seja um caso de desistir. De sair deste lugar. Sair, visto que é recorrente, repetido. Eu lhe vi desde lá, acompanhei pelos anos. Nas esquinas ou diagonais do seu desespero, me fiz presente e ausente, até hoje. Não pude fazer nada além de permitir que se alastrasse. Pensava, sim, pensei que os anos de quedas seriam a sua resposta ao descrente. E toda a tua existência, toda a tua tentativa, um mártir. Este golpe seco de machado no meu crânio, ao lhe ver deste jeito, ao ver que ainda depende destes parasitas mesquinhos. Ah, permita dizer, Juca, permita dizer, vá e diga… Não morra.

– Súplicas, são súplicas. A quem mostrar qualquer coisa? Ah, quem preciso ouvir? Os caminhos e o entendimento fizeram de mim esta criatura rastejante, raquítica. A linguagem, a investigação do sentido; pertencimento, razão, poder ou não. Vejo entre vertigens o aprendizado deslocando meu ato para um lugar de agonia, agonia de quem não consegue e é completamente escasso. Vislumbres de um nada latejante, um nada que lhe compartilho por amor. Eu preciso morrer, preciso não mais estar para que faça sentido? Oh, os arrogantes que leem românticos e pensam nisto conhece-los, arrogantes que apontam seus dedos deploráveis a dizer que exagero, que não possuo e não tentei. Vê, vê como sou pífio. Se isto for uma doença, se isto não for meu, não for eu, me mate.

– Sua forma é tua, você é isto. Não suponho que manuseie a língua e diga como aquele que perde horas e dias procurando a melhor frase. Tua vida é simples, teus atos e seu existir são ordinários; por debaixo disto, há o evidente, a exposição destes labirintos quando consegue dizer, quando consegue mostrar, me dão a experiência de um homem arrastado do inferno.

 Ondas repetiam seus processos, esvaziando a praia, deixando-os a sós. Uma multidão simples, dois homens. Juca de pé, levantara em um átimo, açoitado por alguma ideia pestilenta; dois saltos, contorceu as costelas e ajoelhou, dando testadas na areia acinzentada salgada. Mirou de soslaio a catatonia daquele que tanto admirava, ele que não mexia um centímetro sequer; nem esboçava reações no rosto, quando o mirava suas pupilas estavam sempre entre vórtices.

– Há infernos, é bem verdade. Dante, deve perceber que eu acabo hoje, acabo aqui. O fim está tão nítido, como a proximidade da luz que lhe disse. O existir, a vida, o sentido. Sentido? Ah, ah. Sentido, palavra simples. Onde habita a lógica, a razão; o para quê, o por quê. Vê a mim, Dante. Quem está hoje dando testadas, mordiscando areia da praia? Quem ontem disse tanto, adormeceu com úlceras nas cordas vocais. – Não resistindo a agonia do que dizia, via palavras tremeluzindo ante si. Na distância as vozes confundiam-se com o baque seco das ondas. – Vê, nem sustentar o que acabou eu consigo. Acabar e conquistar, a mim, tem o mesmo princípio ativo; é dor, é desespero. Saudade, tenho saudade.

– Ah, ontem quando voltava pra casa eu a vi. Você sabe, precisei parar onde estava. Ainda não sou capaz de conversar sem sentir a língua travada. Palavras desconexas. Talvez ame ao ponto de ser necessário continuar saindo todos os dias, evitando. É, é bem patético, bem estranho. Existem coisas que não devem ser ditas, algumas coisas precisam ser abandonadas. Decido hoje, neste segundo que se desfaz, em abandoná-la. Não me olhe assim, eu sei, não continuei sobre você ou pros cumes que quis chegar; as vezes é preciso ficar quieto, não creio que tivesse mais nada a dizer. Quando está se desfazendo, você fala que está com saudade.

– Mas eu não esqueço, não a esqueço, não me escapa das veias, dos ossos. Toda fagulha de existir pulsa entrelaçada pelo rosto dela, o chegar, ir; desgraça. A ela o que me resta é dizer? Como se mudasse, se existe evidência estática do espírito, é que dizê-la, não modifica. Lembra dos decretos? É, sim. Eu, eu… Eu estou com saudade.

– Quem vem lá?

 Ambos tremendo de frio miraram sincronizadamente para uma silhueta esguia formando-se ao longe, na curva próximo ao início da calçada. Trocaram olhadelas ligeiras, encheram mais uma vez os copos e esperaram. Lampejos inquietos levaram Juca até a espuma mordiscada por pingos de chuva, seus pés protegidos pelos tênis encharcaram aos poucos. Trovoadas, ecos melindrosos de perspectiva, piscava velozmente, tentando ver se a luz amarelada da plataforma seria acesa. Os dias até ali foram excruciantes, todo despertar um chiado malogrado entrecortado, pelo horror em ser minúsculo e dizer algo minúsculos. Ser repreendido em um destes dias, teria lhe matado; então ficou quieto.

– Lá, Dante! Vê! A luz qual falava, rompendo estes pingos velozes, esta neblina. Este cinza! Oh, de lá até cá em átimos. – Virando o rosto circundado pelo amarelo fosco, nítido. Os olhos verdes acinzentados caiam na mescla e via-se o choro desatado. – Cá, é um dia em que tudo isto acaba! Eu, eu acabei aqui. Meu laço, meu existir dependente do silêncio, dependente dos saltos que escorregavam meus dedos na beira. Não pertenço ao cume desta doença, acabou para mim.

– É linda mesmo, traste. Meu deus, a cor parece ter travado no teu rosto. Brilha e manifesta o que está tentando dizer. Acabar aí, onde está. Aos sons das ondas, da chuva. Ah, Juca. Os ecos do que você diz, dos lugares e todas as suas idas e vindas. Sempre lhe vi em silêncio, inábil. Tão angustiado, na expectativa, na vontade e virtude. Todas as vezes que ecoaste um nada tão nítido. Mas não ficaste em silêncio, saiba, quando manifestou e conseguira, disse tão bem que até hoje me rói a alma.

– Somos isto, íntimo! Vem até aqui, me abraça. Pega, vai, viremos! Mais uma, vamos. Ah, ah. A alegria de acabar aqui, Dante! De ter lhe visto agora, hoje, em todas as curvas da alma. Súplicas, súplicas. Sou a voz, o eco, o silêncio. Mas deixemos para lá. Estou com saudade. Vamos, mais uma!

 A luz projetada pela plataforma os moldava, derretia. A junção dos olhos opacos e o verde, dois homens no afeto puro. Na saudade incauta, amor, que se ousassem tentar manifestar em palavras sucumbiriam e as gotas da chuva desmanchá-los-iam como papel. Então deixaram o sentido ir até o seu ápice. A luz piscou seis vezes seguidas e então se desentrelaçaram.

 Entre passos calmos, esguia. Lúcia os grudou de novo, beijando ambas as testas várias e várias vezes. Sentindo o bafo misturado de menta e álcool. Roçou bochechas nas lágrimas coloridas do Juca, mordendo-o. Seu dia até ali fora um turbilhão, ministrou algumas aulas e corrigira várias e várias redações; um clichê atrás do outro, um gênio novo atrás do outro. Escondendo-se tipicamente entre blusões e calças folgadas, notou de chofre a agonia e os tremeliques dos dois. Respirou aliviada por alguma razão íntima, que ao tocar o olho marejado do homem que acabaria hoje percebeu.

– Lúcia! Ah, quanta saudade! Meu deus. Vem cá, vira um gole conosco. Estávamos envoltos no amarelo suplicante da plataforma. Hoje tendo a crer que nos vira, sabe? Eu roguei antes de iniciar, roguei aqui mesmo onde estamos. Não foi, peste, em Dante? É isto. Você nos viu?

– Sim, meu bem. Ali da calçada, vocês pareciam angelicais. Praia desértica, coqueiros e ondas. Quando estava mais perto e tentei gritar seus nomes, fui cortada por um trovão. Deus, né? Ah, ah. Meu deus, que negócio forte. Onde arranjou isto, Juca? Caralho. Ah, saudade de vocês.

– Ele deu sorte, acho. A luz nos grudou feito mel, viscosa. Há dias e dias, alguns especificam razões ou símbolos. Creio que hoje, de novo, percebi o quanto amo esta peste.

– Ah, ah. Para você dizer assim, Dante, tem que ter vindo dos calabouços da alma. E fala sempre tão devagar, minucioso. Ah, ah, vamos juntos até ali, dar um mergulho? Que é isso, venham comigo. Ah, danem-se então. Eu só vou mergulhar a cabeça, juro que não vou morrer.

 Deixaram que fosse. Dante e Lúcia caminharam até as bolsas, sentaram e dividiram um suspiro aliviado. Juca nas últimas semanas vinha dizendo cada vez menos, mostrando menos e isto os preocupava muito. Todas as vontades daquele homem estavam contidas na possibilidade de dizer, fosse o que fosse. Então o choro, o acabar, tinha um lugar de superação.

– Estou tão feliz, Dante. Tinha medo dele ter esvanecido. Seus movimentos pararem. Sabe tão bem quanto eu o quão necessário é a ele falar, escrever; falar. Não acho ainda que ele a tenha esquecido, porém, havia algo mais profundo nessas últimas semanas. Para além dela, a sua agonia o estava impedindo até de escrever. De nos buscar. De nos achar. Sim, pois é, nós estávamos indo até ele. – Seus olhos mordiscados pela chuva, comprimiam e lágrimas escorregavam. Ele também chorava. – Encontrá-lo é dar vida, mostrar a ele a vida. Não a nossa, claro, a dele.

– Sim, é justo. As vezes penso em enfim abandoná-lo. É, calma, não o faço. Penso nisto como em qualquer outro problema. Mas já que acabou, né, vamos tê-lo de volta. Sim, eu sei, talvez não dure. Ah, talvez seja por alguns dias. Se há agonia em espírito, inquietude; é ali. Todo pragmatismo, todo futuro lhe é repugnante. Não o futuro vivo, mas o futuro dependente do ser burocrático. Tenho horror ao que vai lhe acometer, ao perceber que deve e precisa se moldar. Moldar para sobreviver.

– Sabemos, não atoa pressiono tanto para que escreva. Não, minto, para que mostre. Os cúmulos e os cumes quais visita, ficarem ali aprisionados é um crime. Tanto este mergulho hoje, é um afogar, um afogar como na época de criança. Ele já lhe contou? Pois é, nunca vi um homem tão pulsante para a morte. Ou um homem detestar tão em absoluto o próprio corpo, possuir um corpo.

 Deitados na areia cinza, compartilhando um choro alegre. Copos cheios, tentativas em acender cigarro. E a noite alargando-se junto do cinza daquele dia. Uma penumbra maciça escorregou pelas partículas de oxigênio, caindo junto da água nos corpos ali estirados. Juca brindava e colocava água salgada na boca, cuspia; lembrando de um cisco maldito, qual durara dias e só saíra ao esbugalhar os olhos ante uma onda. Boiando junto ao puxar agressivo da correnteza tentáculo, nadou com força. Ouvia sons turvos, gemidos e falas sussurradas. Um eco balançou seu crânio, germinando vontade de nadar até a plataforma.

– Dante, as vezes penso no Jorge. Jorge e o Juca são contradições puras. Não sei se os aproximo, se os mostro. Juca me lembra um sentimento tão nítido, tão fascinante. Enquanto o outro atropela e esmaga a vida, é puro corpo. Ah, ah, sim. Amo tanto aquele ali vindo da água, meu coração arde, arde tanto. Sinto que a mim o horror absoluto, é receber a notícia de sua morte. Gente feito ele, não permite que o tempo mate; eles tomam a decisão.

– Calma, meu amor. A vontade nele surge da inquietação. Dos cumes como você mesma disse. Um homem a este modo arrasta, abre as costelas nas unhas, mas não para. Ele mesmo insiste que não há nada na morte que a vida não esmague. – Os risos e gritos alegres do homem que acabou misturava-se como uma guitarra ao fundo. – O mergulhar hoje, a quase morte lá. Sabe, que lhe falta? Ao espírito, digo. Quando diz de o José ser corpo, está aí um fato. Juca prefere corroer no labirinto de que é ser-se, ao se render ao silêncio de qualquer outra solução.

 Cambalhotas e cabeça arrastando na areia. Seu rosto brilhava pelas cores coloridas do seu choro, e os goles seguidos de whisky. Entrou entre os dois, beijou ambos e esperou acabar. Pois ele ali acabou.

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