08, FEVEREIRO, 2023.
DÍVIDAS.
As coisas fluem, mas não retornam, não há horizonte que modifique essa história. Melhor deitar sem assumir nenhum risco, deitar como uma despedida necessária, deitar esperando um contágio. Contágio qualquer lhe tiraria da culpa, esvaneceria ausente da culpa do desejo de não mais ser vivo, vivente. Nada retorna, nada sequer deseja retornar. Há praças e momentos específicos, rostos alheios introspectivos, robustez, solidez; qualquer palavra para compor justificativas deletérias para permanências pacatas. Todo mundo está aqui, todo mundo está vivo ainda por alguma razão própria. Estiquem seus dedos miúdos perversos, abra frestas na pele; vejam-no descansar desolado.
Cores tremeluzindo nas diagonais, nos cantos dos olhos. Sussurros pegajosos, vontades alheias; não há um que justifique, sabe a si que noutrora fora diferente. Descalço sacode o corpo acometido, vai de uma ponta a outra da calçada, observa transeuntes quaisquer, na necessidade explícita de uma encomenda. Crianças reparam na insólita composição dele que mirando-os sem vê-los, tocando, mas sem sentir; há um formigar vertiginoso que lhe causa a repetição, mesmo depois do uso, mesmo com a encomenda em mãos. Seus olhinhos miúdos avermelhados fustigam o dia, desnorteiam qualquer expectativa escapatória; n’algum lugar neblinado, turvo por afetos decompostos, emana um borbulhar simétrico e autônomo, de mais vontade ainda, mais desejo daquilo d’outras encomendas. Todos ali reparam e calculam até que semana ou mês isso sustenta-se, quando enfim vão por algemas, quando vão começar a assistir o ruir daquele espírito; especulam em silêncio sem apostas, mas dizem entre si que é um dos condenados.
Pernas latejavam a cada passada, vislumbres minúsculos entrecortados pela pressa de algum objetivo invisível. Pressa, alguma pressa sustentando esses movimentos; o respirar ofegante comprimindo costelas, expurgando um suor áspero. Esquecendo respostas, rotinas, necessidades. Curvas involuntárias pelos automóveis, buzinas, fumaça. Há desejo, ver rostos específicos para pausa momentânea como resgaste desta utopia miserável. Exige na primeira pausa algum nublado que lhe arranque do corpo ante um trovão, relâmpago que o acerte e derreta até tornar-se migalhas de ossos. Pernas gemem no desespero, não há resistência para mais uma curva; há pressa ainda assim, que na queda o asfalto abra, braços raquíticos e dedos navalhescos o arranhem e no fundo d’algum abismo caia.
A calma resgata algum alheio, não para movimentá-lo de volta ao ciclo, mas salvar enfim de alguma sensação. Amenidade relapsa, miopia dos horizontes plácidos; resgata-o dali antes que infeste-se de si mesmo. Humano, inumano, linguagem. Arrodeado do que sustenta, do que impede quedas eternas. Uma queda diante de si nesses dias recentes, modulariam e transformariam todo seu ato existente na pura inutilidade; cair para o sutil desgaste, para os mirabolantes labirintos detestáveis; nas ordens burocráticas manuseadas pelos destinos cautelosos, és inútil. A cautela produz um corpo hábil, nenhum corpo inútil deve permanecer. O abstrato a si, como uma maldição tentacular.
Entrou na água buscando onde apoiar os pés, depois de alguns minutos desistiu. Ondas acertavam sua nuca incauta, braços miúdos triscando em beiradas pontiagudas; ferrões e queimaduras. Sol roía a pele exposta, olhinhos miúdos a princípio encolerizados no torpor daquele prognóstico macabro. Histórias repentinamente surgindo a cada mergulho desesperado, nas ondinhas mais e mais geladas. Entardecia devagar, junto das risadas e alegrias distantes. Homens trajando rostos desfigurados modulados, sem olhos, viam-no ali chacoalhando-se tal qual um peixe fisgado na proa dum barco. É isso, é isso então? Fustigado pelo vislumbre dos corpos que viravam areia, dos corpos que viravam mar. Viraria então mar. Quando nuvens misturavam-se ao pôr daquele sol tímido, quando pausava a violência das remadas inúteis; viste no horizonte quimérico, alguns homens flutuantes. Na areia tentou achar o fundo, na areia se perguntou se virara mar.
Um baque seco assusta aquela inércia celeste, olhos pretos vertiginosos como um lago estático banhado pela mescla das cores duma lua assustada perfurando nuvens densas. Outro baque seco eriça os fios do corpo inteiro, tremeluzindo, espancando as costelas pelo torpor. Longos cabelos pretos descansam nas costas e beiradas do corpo, passeando pela forma esguia. Abrindo frestas, vê um tentáculo fazendo movimentos circulares, vez ou outra acertando com violência a janela. Descobre-se e nua passa por cima do corpo ao lado que lhe lembra um defunto, a fluidez das cores cinzas juntam-se à temperatura criando uma agonia singela; coração acelerado misturado ao medo fazem-na tropeçar no próprio peso, apoiando a mão na quina e dando com o rosto nos círculos pintados pelo tentáculo. A coisa reage, estica-se e como em contemplação prazível, curva-se. A mulher abre a palma das mãos em resposta. Cores do quarto vão diluindo em líquido, atrás não há mais destaque ou forma alguma; um abismo incolor, um aspecto puro. Por um minuto inteiro deixou-se ali, observando círculos opacos daquele tentáculo comum na sua rotina. Seus olhos, a coisa tentava imitá-los.
Dê a si uma dívida, exista.
QUÍMICA.
Alguns tipos de silêncio reduzem o espírito a essa distorção, silêncios deletérios. Cada premissa torna-se cáustica, cada lapso uma razão para transfigurar e cair na certeza inefável desta condição. Silêncio ou repetição, permanecer dias em claro no suor que mais lhe vergasta e oprime. Observar dependente mudanças alheias, intenções distantes, submisso. Consumir, devorar e ser esta resolução sensata: nada que reverbera nada.
Corpo ou atos conscientes. A diferença duns aos outros são parcelas ou imaginários que são erguidos pelo prognóstico d’alguns salários; quem são senão as burocráticas férias possíveis. Há uns inábeis, fracassados, uns enfim raquíticos pela diferença exorbitante e que em todo ato de fala assemelham-se ao cume d’uma introspecção suicida. Diferentes nesse novo ambiente onde a própria doença deve propor em si novos prognósticos de salário. Salário, futuro, salário e sustentação de si. O depressivo não artístico mais me lembra uma decomposição; donde aquele nas possibilidades escassas dentro da sua agonia, injeta no mundo algumas cores, alguns traços e ideias. O patológico sistemático, antagonizando uma obrigação detestável, de não somente saber que é descartável; mas que também é inútil.
Perdão, peça perdão, que a substância não lhe tirou deste teu lugar; só mostrou nitidamente alguns outros, e como nos outros, também não reverbera nada.
Dê a si alguma utilidade, exista.