hoje.

13, NOVEMBRO, 2023.

HOJE.

Verde o olho pulsa inquieto mistificante, inapto ao mover. Estática ululante incessante, passos ligeiros e ruídos distantes. Cerâmica empoeirada, guilhotinas diárias. Lá fora as vidas iniciam e terminam, gesticulam entre si aos prantos lamuriantes dos que permanecem. Arde a garganta ao açoite constante do silêncio induzido. Resquícios viscosos mancham peles, orbitam ao redor cáusticas melancolias. Constâncias miúdas raras e nefastas, propondo prognósticos pisoteados nos próximos átimos de vida. Mistificar se torna labor extenuante feito perder uma parte, quando outrora tudo era automático; bastava olhar e sentir. Ventos breves derretem na janela, empurram devagar e exprimem um desespero. Em posição fetal deixa escorregar alguns quilômetros de choro retido esganiçado, morde os próprios lábios, mas ainda rejeita qualquer esperança. Futuro e passado coagulados nas suas pupilas. A saudade está minguante e rasa, entrecortada pelos diabretes insólitos com seus dedos afiados desenhando rastros no crânio. Abrir o olho enquanto fechado tudo está ainda visto.

 Vórtices e vertigens, corpos lançados ao mar. Caronte organiza as viagens, mostrando almas escorregadias tentando escalar o barco enquanto pulsos histéricos agudos saem das gargantas sem corpos. Exausto destes despertares infernais, acorrentado aos vultos e o choro agudo infinito invisível. Os primeiros instantes são idênticos, pensa cair e se aproximar das almas, virar mais um nas águas dos condenados. Mas não lhe é permitido, a si fora decretada a repetição do desejo. Ao infinito malogrado da embarcação balançando sem destino. Dos tumultos moribundos da sua mente, do inexistir delirante resgatado pelos alheios transeuntes quaisquer. A vida manifestada sempre fora de si para dentro, incessante. Descalço correndo do prenúncio das chuvas.

 Sangue movimenta-se pelas veias, dá-lhe vida resignada. Caos simples das associações simultâneas ao tanger dos horizontes materiais. As alegrias dissolvidas nos instantes seguintes, todo acontecer reduzido a sua própria finitude. Seus dias contados escapam da voz rouca já chorosa inconsciente, observa as manchas feita pelas sombras dos olhos fechados. Sepultado voluntário, quer de si um sentimento próprio, último se necessário, mas que seja genuíno semelhante ao destino humano. As vozes ásperas empurram-lhe para fora, para dentro, para lugares e depois trazem de volta para nostalgias detestáveis, arrependimentos oscilantes tentaculares. Quimeras lhe dão vida, manifestam formas intangíveis inacabadas; sair e ir ao encontro, para desmanchar todo sentir imaginado. Nada tão finito quanto seu próprio movimento.

 Brilhava o sol miraculoso afastando as chagas cósmicas. Risos curandeiros das crianças miúdas dando saltos aos passos ligeiros da corrida à piscina. Pulavam explodindo na água bombas de infinita alegria. Adultos distantes enforcados pela burocracia não manchavam sequer o início daquele dia. Todos ali pareciam libertos dos grilhões cáusticos, do labor excessivo composto pelas rotinas sufocantes das tarefas e obrigações escolares. Abraçavam-se e riam resgatando memórias longínquas de dois ou três dias anteriores. Em seus âmagos crianças sentem os dias esvanecerem ligeiros quase mágicos, anos viram semanas e as vezes dias, dizer não lembrar é impossível quando as vezes dias inteiros são reduzidos a poeira trazida de volta pelos outros. Um deles não rira tanto e pouco pulou e explodiu na piscina, estava absorto e seus olhos pressionados por uma neblina introspectiva robusta, estava só há mais de seis horas e ao passar do tempo sentia mais e mais sozinho, sabia que em casa não havia ninguém e mesmo arrodeado dos seus amigos aquilo não desmanchava. O ofegante pequeno vem e lhe empurra, pede para que dê um dos seus saltos mágicos na parte rasa, o peixinho que só ele sabia dar. Depois das súplicas cintilantes, a epifania do porvir, do riso e alegria contagiante nas crianças lá presentes enfim decide e corre. Corre, corre e um salto pequeno para a beirada seguido da impulsão do arremesso ao ar, milésimos de segundo deixam-no flutuando e o vento lhe atravessa até sua perfuração na água e não ouve mais nada. Visto lá fora parecia um legítimo golfinho, as mãozinhas juntas e o corpo reto. Um baque seco rompe o imaginário arrastando sua testa pelo fundo, abre um corte e o sangue mancha a água. Levanta junto das lágrimas nascentes pressionando a testa, sai da piscina e volta andando choramingando para casa. Sua memória turva as navalhas da água e sabão limpando a ferida como tinha visto nos desenhos animados. Limpo vai até a cama, liga a televisão e esquece todas as outras horas, mas é resgatado para o momento cada vez que toca o hematoma e trinca os dentes. Não contou a ninguém.

 Aos dias quais magistrais sentimentos nascem contínuos, quais sensações inaudíveis esboçam saídas esperançosas. Aos momentos raros e que mancham a retina feito delírio pela obviedade cósmica da sua manifestação escassa, que depois daquele instante jamais se repetirá. Aos rostos borbulhantes, aos rostos diferentes, à esperança do não ser só, do não ser nada. Voltar à vida, voltar ao osso. Desculpar-se, mas desculpas a quem. Hoje não foi como ontem e antes disso pior ainda. Hoje tudo está manifestado sem saída.

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