jurava

04, JUNHO, 2024.

JURAVA.

Arrasta-me para odes nefastas, sequer trouxera consigo alegria, chaga, veio até mim rasgando pele músculos, caí e fiquei lá arfando palavras inexprimíveis. Seus olhinhos derreteram nas córneas sombrearam qualquer futuro oposto, lamuriar diariamente o ato borbulhante ardente, da manifestação corpórea sua genuína magistral ausência, vê-la ir e vir, atado por cordas inquebráveis sem vendar-me, imperioso observar milimetricamente toda vida distante dos meus dedos, da minha forma. Há ecos sombrios tortuosos descascando a pele, arrastam-se pela cerâmica empoeirada, sussurram intercalando seus trabalhosos minuciosos, lhes sou vítima e como tal não há descanso. A embarcação chacoalha por incorpóreas memórias ruidosas, vórtices factíveis e irrisórios, sádicas imagens diferenciadas onde desperto ensopado choroso, dos possíveis futuros esmagados; há tanta dor ociosa inescrupulosa arremessada das bocas divinizantes, diabólicas, caem em meus ombros, só há uma resposta – cair.

Duas desculpas movimentam-se violentamente pelos contornos da alma, espírito lamuria abertamente, desiste. Sentir-lhe despedaça dias inteiros, cada resquício gotejante rejuvenesce futuros sepultados, maquinário sistemático. Caminhos turvos assolados por introspecções deteriorantes. Tudo já foi dito, tudo já está manifestado. Qual a razão dos dedos, destes dedos, daqueles dedos; o dizer, o ato, tudo coagula mancha a utopia, mais uma vez lhe vejo distante corroída. Amar rompe silêncios esboçando condenações inefáveis, pois de nada é amar, nada significa amar; o real distante movimentando suas formulações contraditórias, injetando horror pelos detalhes ainda infecundos, por prognósticos intangíveis. Saber ou reconhecer maldições individuais, material algum injeta sua diferença elementar neste que é isso, e volta a isso, visto que não há outro.

Interrompa, é cedo, inadiável é a morte, toda outra continuidade é alterável. Caso seja, aquele qual amaldiçoado perpétuo ao labirinto abre janelas, portas, cai mas reergue pois é este contínuo. Verá amores acumulados escalando as paredes, deixando rasuras, sons, canções ecoantes delirante e fará pulsar ódio, desespero, quando vê-las amontoadas displicentemente por anjos cômicos no rosto novo, deste novo amor. Amar mais lhe será açoite, penitência, todo simples impulso instintivo tentará traduzir e soará pífio, insano, como um desejo de diferença. Mas interrompa, lembrar a morte como um futuro simples, nada invejável, deixar ser.

Divida o corpo com tais e concomitantemente tente persuadir-se, construir pontes para vidas possíveis. Qual dedo é este, qual sensação é esta, quem é aquele lá. Ser variáveis continuidades intransponíveis, ondas terminando sonhos em recifes.

Jurava não sentir, desejava não querer, pulsava dissociar. Sentir, ó, feito pedregulho descansado sua rota em meu crânio, tonto, pernas bambas e uma queda lenta fustigante. Sangue quente transforma-me em ilha, meu crânio uma ilha. Há berros, gritos, há tanta desgraça miraculosa mirabolante, tudo está aí, tudo está feito. Desculpar-me, enfim, pelo sentimento puro genuíno, arrependimento metafísico, da vida ter continuado diante daquele clamor angelical; derreter em sua pele, para enfim ter um só rosto.

Toda razão está multifacetada, todo horizonte é a ruína do anterior. A diferença, tal qual o credo, está na salvação individual. Há muito cristo na asserção, genuinamente salvar a mim, aos próximos a mim e o resto, ao resto. Oscilações infernais, aberturas colossais nos confins terrestres. Oceanos finalizam seus séculos diariamente em silêncio. Sequer fosse química, ato químico, desbalanços milimétricos autênticos substituíveis por comprimidos dissolvendo, resolvendo detalhes algures. Está desfeito, há constelações asquerosas do sempre foi assim, o homem é assim, o humano é isto. A razão está alcançado seu limite cósmico, sua própria sepultura, o ser.

Eu estou.

Decepados horizontes, guilhotinas. Rolam pelas escadas ossudas, ecoam suas desgraças aprisionadas nas traqueias decompostas, há formas de ouvi-los, na quietude plácida das madrugadas pálidas; onde os dias findam suas letargias.

Amar-lhe para que o nada esteja enfim somente conceituável, não o destino inexorável dos mundos.

Ao nada, não estou.

Seu fantasma invade e arruína dias inteiros. Não há poção que lhe arranque da carne. Desgraça, há culpa minha. Sempre a culpa é minha.

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