era vida

ERA VIDA.

20, AGOSTO, 2024.

 Era vida. Hoje medo. Somente a indubitável razão, forma permanente; desgaste. Todo emaranhado supersticioso afunda em princípios básicos, da raiz amaldiçoada resta continuar. Suas vozes entrecortadas fundem-se, germinam variações tempestuosas noites insones, são idênticas fraquezas. Era vida. Hoje é tarde. Resquícios autênticos, tentativas magistrais decadentes; todo arremessar e ir acertar este crânio plástico e senti-lo arder neste impacto primeiro. É um ano novato, ontem tentaste hoje já diferente sequer memora aquele início cáustico, donde ela mirava-me impiedosa, que falharia – de novo. Sou aquele corpo estirado soterrado por vertigens tangíveis, pós vê-la me despedi certo da ruína; ali envolto sobrecarregava três décadas em meu coração miúdo, sentia pureza, certeza inefável amor. Hoje é tarde mágoa.

 Dois ecos soavam arrastados. Dois passos. Três vozes. Meu medo especulava reticente misturado às sombras inquietas atravessando as frestas, formando braços, pescoços, cabeças. Aquela infância inteira murmurante silenciosa, beliscava-me questionando se estava presente. Lá fora o tempo nublara, nuvens escondiam qualquer céu e a sós esperava alguém. Alguém deveria me tirar, por em outro lugar; assim como o amor jaz plácido pueril. Pureza nenhuma viria. Dormiria tal qual defunto acertado, despertaria arrastado pelos grilhões de um espectro coveiro rabugento, sua língua afiada derramando farpas em mim que só queria dormir. Sentia-os mergulhados profunda sonolência, meu nome raso santificado permanecia quieto penitente, aguentar fora sina desde uma pequenina consciência reticente.

 Sofria, sofrer. Quem trouxe aquele eu desperto imaculado, afundado nas águas verdejantes químicas imundas. Do céu afrontava, do inferno ardia, do limbo permanente invejava. O teto abria e caia um eu raquítico esguio, deitava assombrado. Meu sonhar, meu dizer amassado torturado e criava assim labirintos suplicantes invejando a queda. Um teto aberto, nascia de novo, neste mesmo corpo.

 A quem ir quando tudo derrete e investido pelas décadas através das quedas e certezas miraculosas. Belíssimo o princípio ativo, despertar e sentir, sentir, como um penitente a vida chicoteava insolente meu corpo exposto. Nada e ser, repetidos processos como existir é sina, viver era-lhe ruína. Vultos sombrios mortais, onde noutro tempo julgara infinito, julgara-me imortal. Volte somente certa, indubitável milagre que de cá iremos ao limbo, sermos nada prático substancial vultos flutuantes sentindo nada.

 A coragem está aí posta, todo ir e vir requer princípio, requer forma corajosa. Dizer, agir, voltar ou ficar, permanecer descascando feridas vertiginosas, despertar inquieto noticiando fracassos retumbantes. Dois mundos convergem, nascem pulsantes, ali interseccionando estou rasgado por ambos; a ferida umbilical eterniza toda a história. Tirado daquele berço, daquela mãe para sempre vivo. Voltem se puderem para perguntar se estive bem quando o medo brilhava cegante. Insônia decadente, vigília forçada, onde um homem se vê fraco, eu tão fraco caí ali quando perguntavam para onde iria. Ir ao nada voltar para o nada.

 Os destinos lançados aleatórios. Desistir requer coragem, voltar requer coragem, existir requer coragem. Minha sina sempre foi necessitar empurrões, outros, alheios a mim para guiar e resolver, ser sempre esteve coabitado por estes encontros. Precisar do aprovar doutrem, do tudo bem infernal oposto. Um humano desprezível inapto, cauto ao requinte adoentado, cauto e recluso. Um precisaria existir para que eu existisse. Todos os atos nascem d’algum lugar e permeiam nosso existir, daquelas luzes turvas me guiei até cá e vivo sobrecarregando meu coração miúdo com todo o infinito das almas.

 Se voltei foi pela sina. Sem destinos seríamos caos. Nascido cá ou ali, daquela ou desta, como dados lançados. O bem está diametralmente oposto ao ser, filantropias hoje necessitariam curvas tão longínquas; somos indivíduos enfim, criaturas solitárias tiradas das mães para construir existência. Já é tarde para diferenças, tempo algum nos resta, a próxima quebra será apocalíptica.

 A chuva molhava alegre nossos corpos incautos, corríamos saltitando calçamentos, calçadas, tocávamos campainhas e gritávamos até a exaustão. Aqueles cursos d’águas correntes de ponta a ponta daquela rua minguante, ao final onde espectros rondavam, fantasmas nasciam, monstros viviam, sentíamos infinitos. Olhava calmo como último instante, aquela brincadeira miraculosa distante do horror noturno; retribuíam-me verdes, precisavam que os deixasse em casa ao anoitecer. Era vida. Não os mostrava aqueles vermelhos vultos tremelicando nas turvas horas, sequer dos passos sussurrantes. Deixava cada um em casa e voltava a minha, meu coração ardendo tamanho o mundo daqueles infantes amigos. O piso gélido recebia-me, porta enorme pesada arrastada, cozinha ainda em penumbra. Meus olhos acostumados esquivavam-me das cadeiras, das mesas, dos vultos e bestas. O quarto chiava desenhos animados, ninguém ali me recebia. Se voltasse a tempo sequer receberia reclamações ásperas sobre o porvir, aula, escola. Era vida. Hoje medo.

 Os sons ruidosos rasgavam tímpanos. Era um homem prático, sem muitos mistérios, quando os requeria acendia cigarros contaminados por doses de uísque. Quando necessário imaginar e sentir, álcool vinha a ponta daquela língua viscosa. O mundo sempre se manifestava alheio a si, distante ilusão, miragem plástica. Podia tocá-la e manchá-la consigo, misturando efeitos, misturando ser vivo. Detestava o outro abusando substâncias, seus rancores, suas vozes marés salgadas. Ele raramente esquecia, raramente vivia.

 Hoje a vida existe lá onde o corpo não está. Corpos, labirintos. Sua douradora batalha consigo, com premissas simplistas. Manutenções chacoalham seu corpo fraco, inveja limbos Dantescos, onde a permanência sequer se percebe e a memória sequer permeia; lá onde tudo está puro estagnar, esquecer é uma substância distante sequer palpável. Tudo é, então nada é. O teto abriu-se novamente, caí robusto e largo. Com vigor, força. A semelhança novamente circular; puro medo. Novo medo. Antigo medo. Medo.

 Volte.

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