05, JULHO, 2025.
LAMÚRIAS.
Os ares horripilantes mordiscam meu pescoço nu. Refaço meu trajeto diário enquanto assisto o definhar vagaroso dos meus olhos; estou exausto, miraculosamente vivo ainda que estático. Brilhantes dias distantes jamais percebidos, supostas guilhotinas operantes, uivantes lamentos distantes. Quem há de habitar-me e substituir as decadências por euforia, alegria; palavras ruidosas distintas, milagres impossíveis. Perecer ante vidas opacas, minha própria rotina detestável idêntica desde o primeiro ato consciente. Ter corpo, esta carapaça robusta, nefasta conduzindo-me por ruas longínquas a lugar nenhum. Homens altivos erguem promessas ululantes, imperiosos categóricos inabaláveis, feito pai.
Arrastem-me pelas frestas escaldantes destas portas, todos os quartos repetíveis sistemas burocráticos desta chaga desgraçada. Meu ir, vir, devir. Testemunho fidedigno das lamúrias angelicais, lágrimas dos caídos. Para os outros meu timbre escasso, meu caminhar letárgico e uma vida inútil. Dizeres, requintes, métricas e metáforas malditas criando quadros bélicos, mortíferos para dias ordinários; nascem d’algum canto místico onde entidades gesticulam entre si, organizam periódicos, constelações e órbitas deploráveis para ruminar e germinar lapsos torturantes nesses meus dias intranquilos. Vê a mim, tão escasso e cáustico, vê a mim e permanece, faz brilhar outra vida.
Vi-lhe, chorei por algumas horas alvejado por sons roucos, batidas intermitentes, vozes distantes opacas; nada habitava-me quando lhe vi, nada perturbava meu caminhar, dissecava meu tempo ou memória. Arremessado logo caí pela distância demoníaca afetuosa, pelo entardecer nefasto daquele adeus incauto; meus dias tornados chagas milimétricas, maquinários frenéticos arruinando faces alheias, transeuntes lembravam-me da distância usual dos fins. Seu rosto permaneceria ali, aqui, lá, trazido por ondas furiosas e entre ideias, ideais mágicos. A funesta parte dos fins, da irascibilidade trazida por aspectos malogrados e perturbados pela inquietude da impermanência, duma raiz mitológica inconsciente –o amor desfeito. Vê-me escaldado, olhos marejados lacrimosos avermelhados decadentes; não há existência lá ou aqui, tudo está desfeito.
Há lugares possíveis para transcendência, para catracas funcionarem lisas imperturbadas. Há espaços entre dissociações incautas, desejos raquíticos moribundos, desafetos intermitentes; há alguns estágios do alheio, dos outros em que a voz intercalada, mistificada, brilhante; onde jaz o perpétuo, a forma, o espírito e permeado, molha a língua pelo tamanho magistral da epifania porvir; uns pelo existir cauto, pelo existir em si manifestam mares quiméricos, ondas violentas, magia. Uns trazem consigo um bojo para o nascer poético, profético da vida. A sós – em contraste -, ruminando e mordiscando própria pele tirando até certa parte um destino inexorável, lamentoso, estrondoso e uma pura insatisfação miserável. A solidão metafísica traz em seu pranto um silenciar inexorável; mas o ato filosófico, em si parece ser só.
Os lugares apropriam-se da minha face, do meu estar, reduzem-me ao negativo nada. Um nada metafórico a princípio, sentimento dissociável, semelhante a alguns outros, estado mental cadavérico. Há em todo ser esta premissa morna borbulhante, um contágio mortificante, arrastando consigo um desejo pueril inocente de não estar, de findar-se; morrer. O nada fugidio inalcançável contrastado pelos seus aparecimentos violentos; em estado pleno se distancia, remonta poesia, ideias, imaginação; é decadente, sua raiz jaz perpétua enquanto há vida. Seu desafeto continuado, seu lembrete execrável de um não estar mais, de um desistir convoluto. A parte trágica deste desencanto é a permanência continuada, o existir em si digladia suas pulsões mortificantes, todo desejo de não estar, findante se faz real no corpo vivo. Toda pulsão mortal está habitada na vida. Permanecer é dar a este nada mais faces, mais robustez; não atoa a vida se torna impossível em certo estágio, pela nítida decomposição mental. Viver enfim pelo nada, pois não há nada na morte que a vida não esmague.
Ver-lhe rasga minhas costelas. Há sentidos viáveis, métricos para o existir, para a permanência; razões angelicais, quilométricas. As dores do mundo, dos detalhes intransponíveis, das chagas ordinárias; a parte física desta carapaça, de possuir corpo. Todo o manifesto irascível do meu olhar esculpido, expurgando mesmices aleatórias repetidas. Todo meu manifestar desde nascente, do sol opaco escurecido manchado. Meu dizer, meu ir-vir, estados cáusticos deploráveis, magnitudes eufóricas. Todo o meu lamento pelo corpo vagarosamente decomposto. O pessimismo sistemático desta malograda razão. Há força motriz silenciosa, invisível, maquinando todos meus desprazeres e esta dor infernal. Ver-lhe, pois a memória de outrem traz consigo existência, razões minúsculas para retornar e ser; mesmo que sua estadia tenha ruído, e dos escombros daquele afeto, tiro cortes degradantes e um lugar único onde pude dizer aquilo que já me é impossível.