quimeras.

QUIMERAS.

01, SETEMBRO, 2025.

  As luzes mesclam futuros previsíveis deletérios; meu corpo arde em vão, minhas rotinas milimétricas traduzem fascinantes resquícios amargos. Luzes inquietas depositam preces opacas ante meus dedinhos ruidosos laminando rasuras orquestradas, lapsos dissociativos quiméricos hediondos. Lá fora habitam seus corpos e traduzem sons plácidos; corpos singelos pueris, manifestos angelicais. Este homem olha-me dos pés a cabeça, altivo e sólido não requer outro princípio ativo a não ser o próprio existir; seus gestos calmos ordenam-me, obedeço e vou. Já é tarde, os outros foram, só me resta; sempre me resta, a constituição mera raquítica, robustez lentamente conduzida por decisões malogradas. Jaz inerte observando os alheios como alturas intransponíveis, todos vêm a mim guilhotinas. Me tirar desta reta infinita, me tirar, a carapaça espinhosa deixando rastros coagulados, meu sangue goteja e produz reticências monumentais. Sou-lhe raso pouco e inútil, deste mundo inteiro restaram-me abismos.

 Palavras cáusticas enfim, palavras longínquas populadas metáforas ardentes. Seus olhos atravessavam os meus, lagoas inteiras derramavam suas águas escuras. Nadei até longe e pude ver ainda, tudo está visto, ocupado, não há terreno escapável. Rogar em vão, existir em vão; ser, como um deplorável sentimento nebuloso nascido de um abismo novo. Há tanto tempo ainda, tantos sistemas ainda; tanta vida lá fora, ao som nefasto dos fins. É uma época diferente, um desejo. Fui aos poucos sendo alvejado por lâminas miúdas, rasgos sistemáticos, coágulos longos; há em mim vários do mesmo canto, um mesmo lugar para deixar findar-se. Detestei ler, detestei ver, viver; deram-me olhos, ouvidos, boca, sentidos e caí. As ondas deslizam e acertam meu corpo, desfaço-me.

 Útil e claro, calmo ordinário. Meus dedos terminam epopeias minúsculas, imagens voltam dos obscuros lugares maquinados organizados pelos diabretes. Eles e eu, eles a mim, súplica. Vê se puder até onde o precipício jaz opaco, rasgando as luzes inebriantes, trazendo consigo sombras viscosas; eu ali submerso fugidio, buscando entre lapsos altivos vivos, razões de permanência. Razões para continuar. Desfeito o mundo corroído, cada passo alargado por sensações desgraçadas. Um sol nasce espectral, ilumina todas as diagonais e a vida pulsa; lástimas silenciadas pela brevidade inteira daquele minuto, onde o azulado céu ruminava divindades esquecidas. Lá estava todas as razões, todos os mundos. Por um instante ruidoso as lógicas surgiram rompantes, meu crânio aberto pelo golpe infernal e pude sentir, pude notar uma calmaria específica rara, senti-me feito os alheios, feito todos os outros; e caí de novo. Caí pela escassez subjetiva, pela escassez corpulenta, corpórea; a mim o mundo foi projetado para mostrar suas rasuras, faltas, agonias; toda minha alegria residia entre estados alterados, alcançados por momentos quiméricos, nascidos pela quebra do contrato. Quando enfim eles cansavam, soltando as linhas dos grilhões em meu corpo. Saudade mor das eras em que pude existir.

 As compressões jazem espirituosamente contínuas. Líquido viscoso escorrega entre os lábios. Corpos deslizam pela madrugada açoitados por desejos dantescos. Luzes intermitentes variam suas preposições, acertam olhares miúdos e produzem sentires ligeiros. Via-lhe transfigurada pelo piscar violento, mesclado pela fumaça das máquinas. Via-lhe e tateava sombriamente aquele especular miraculoso dos olhares encontrados, senti vida pulsante vibrando no bojo do espírito razões puras. Seus olhos maquinários especulativos, viam-me, mas o sentido era diametralmente oposto; via-me como se vê o mundo, via-me como nasce a visão obrigatória condição daqueles que vêm; olhar-me ali fora atribuído ato simples perceptivo, vira um homem. A mim tudo estava refeito, o abismo por dois longos instantes esquecido, minha queda esmagada. Princípios inebriados instintos, pelos líquidos viscosos na mente e âmago. Fui introspectivo equipado das artimanhas milenares, das palavras seculares e o rosto uma feição pífia cômica, do estado químico alterado. Fomos grudados pela circunstância. Os sons abafavam ao ápice qualquer palavra dita, era suicídio a partir do dito dizer; então o ato sobrepôs-se. Seus lábios roçaram nos meus, a língua viscosa brindava aquele entardecer mágico, e pouco a pouco derretia na sua pele.

 Servir ao ato primordial, locomoções simplórias. Os homens são condições praticáveis sistemáticas, capital e medo; medo e saúde, medo e sistemas. Há brechas ruminantes, passados degradantes; rotinas chacinas diárias. Ao pai, ao filho, uma cobrança celestial. Asas a mim, partir de encontro ao sol. Cair das alturas místicas, indagar sobre uma punição miúda, a mim; que deus me fizera isto, qual deus pudera e quisera organizar-me manchado pelos diabretes autônomos. Por eles, jamais a sós, sempre amordaçado e violentado pelos dizeres. Caminhar até lá e ver de perto. Tudo está aí nítido e plácido. Eu não sirvo para nada.

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