13, NOVEMBRO, 2025.
IMAGENS.
Os tentáculos envolvem-me, percebo reticente ausências pueris. Está desfeito, entrelaçado e mortificado. Meu silêncio escorrega da língua manchando imagens fúnebres. Está desfeito. Coágulos púrpuras amontoam-se, jaz caído o habitável, indissolúvel e mágico; respeito figuras heroicas degradantes, suas vozes ecoam por labirintos inescapáveis. Abri a ultima porta amedrontado, ouvi sussurros e passos, ainda assim continuei. Lá luzes amareladas jorravam suas lágrimas até mim, conduziam-me a novas saídas em novas curvas, novos lares. Desde infante percebo meu lamento umedecer e a paz se tornar deplorável, distante, uma epopeia ululante dos meus dedinhos até a lágrima caída. Está desfeito. Lhe ouvir causa úlceras e borbulham, rasgam, minhas costelas assolam e rasgam meu peito aberto; ouço respeitosamente suas vozes detestáveis, esquivo-me do possível, mas decadente e merecedor permaneço açoitado. Chicotes brindaram-me até o soluçar indigesto desta madrugada horripilante desta nova fase, desta vida nova. O novo sempre fascínio, sempre possível deletério a mim. Sair é como voltar, contornar a chacina, exigir a mim uma guilhotina. Todos os desejos vãos nascentes desta fonte inevitável, deglutido, mastigado, vindo do inferno. Respeitáveis quimeras facínoras, caminhar até lá e ver de perto o inesgotável mar de faces e um barqueiro simplório estende sua mão esquelética, propondo-me nova parte, novo mundo.
Reerga-me das quedas diárias, você, desculpe-me se possível, atente-se ao rejeitável e minúsculo das cordas vocais sombrias; arrasta-me até lá onde brilham estrelas mórbidas, onde um céu jaz perpétuo e enegrecido pelo nublar magistral. Olhar já me causa repulsa, respirar o ópio delirante das vociferantes máquinas giratórias em suas rotinas quaisquer. Desespero um átimo mero indissociável, fraquejaste lá onde urgia controle, caído então mais uma vez. Olha-me se possível, esquece dos planos possíveis à sua consciência distante inalcançável; ao pai pena, a mãe uma desgraça tempestuosa. Meus olhos ardem da chacina recorrente, da lamúria mortificante. Desista, desista. É uma era inteira para ser miúdo, desapegar-se, desaparecer. Esvanecido o mantra voltaria, caído repercutiria, não há saída. Abra a mesma porta, a mesma reta por baixo dos postes ensolarados e sombras vagarosas. Carros passam e me atravessam, seus olhos permanecem intactos ao entardecer, ao sono póstumo.
Voltar se os oráculos estiverem corretos, voltar ao início, abraçar aquele princípio último e nefasto sem o qual a existência transbordaria na chaga. Chagas oriundas das tentativas macabras, das fantasias organizadas por dedinhos caóticos. Rejeitar o princípio, a fé, ter fé; sem fé o que será se não um absoluto nada transparente, voltando aos cacos, reprimido e desolado. Ela vira-me, torturado, aos prantos um choro agudo coagulado. Não repita palavras, não repita desejos, não nos diga nada; nada pode ser dito, nada pode ser revivido, tudo jaz lá onde o barqueiro aguarda pelo mar e rio d’almas. Ouço-lhe como condenado, detrás duma grade alta onde as luzes atravessam exaustas e me banham, atormentam. Não peça para que me largue, me solte deste âmbito, deste lugar impuro; a pureza lá fora habita os corpos rotineiros, catracas delirantes. Seu corpo ainda deixaste gosto na ponta da minha língua, meu suor transpira e geme a diferença do seu; queria derreter, ter derretido em sua pele, esvanecido em fim, puro amor. Desista, desista. Olhar chama azulada, cigarros acesos entrecortadas misérias, vícios pulsantes cadavéricos, o álcool me ridiculariza, suas vozes me molestam. Sexo lá onde habitam, odes simples quiméricas, desejos altivos desmistificados, tudo milimetrado e simples; a mim tortuosos, turvos, nebulosos e degradantes, a mim resta o coágulo da fala que antecede qualquer sofisticação, qualquer movimento em direção. Direções claras, desejos diretos, ser um homem. Seja um homem, miserável, venha ser um homem.
A praça urgia suspiros altos, gritos mistificantes. Corriam alguns, outros fumavam, alguns bebiam; ainda é cedo, era cedo. Caminhava por baixo das árvores alegres balançando seus galhos e folhas, uma ode desprezível ao caído que ali perdurava. Esperava-lhe urgente, todos os rostos manchavam-se desfigurados por massinhas e diabretes; via-lhe em todos e todas, meu peito arfava e chacoalhava dando-me calafrios rasuras de uma hipótese; veria chegar, você chegar. Há um corpo deitado há dias, estúpido e calmo, seus olhos claros calmos transfiguravam o entardecer, manchava as luzes vindas. O breu enfim surgia repentino, cortinas lacravam as lamúrias daquela última lua do mês. Vi-lhe, meu âmago rompeu a traqueia, a guilhotina ativada e meu pescoço rompido, meu crânio rolou até os seus pezinhos e abriu um sorriso nefasto. A maldição estava lá rosada clara, meus olhos verdes pouco a pouco tornando-se um cinza decadente. Seus braços esticaram puxando-me para perto, envolveu-me. Os ecos dos burburinhos evaporaram, o lugar transtornado dos olhos degradantes desfeito. O mundo por um segundo mágico fora esquecido. Estava envolto.
A infância está posta, observe este bisturi abrir espaços milimétricos entre distâncias colossais. Vê-se enfim deplorável, todo aquele horror noturno, toda aquela rotina silenciosa dos desprezíveis diabretes colossais; ouvia tudo ao mesmo tempo, chiados, ruídos. Abra espaço olha esta face, vê, olha cautelosamente a figura transfigurada, um pai, olha ao redor balança os braços pequeninos, vê clarividente, a mãe. Vê-los já velho e transportado, a fase oposta e clemente de um ser responsável, das necessidades utópicas. Já é tarde para vê-los, seu sangue. Não os via até ali, aquele instante raro cáustico que rememora, mas a forma é embaçada, decomposta pelo arfar das eras. Vê-los trouxe proximidade, cuidado, mas a voz ainda não sai, o medo permanece. Quando seria diferente, se seria diferente, pode ser diferente.
Saltei dos sextos, décimos terceiros, segundo andar. Minhas asas não abriram, meus olhos observavam a queda, mas meu âmago reticente e calmo permanecia, meu ser estava lá petrificado. Minha imaginação como uma gigantesca ode mirabolante insuficiente. Meu horror e torpor dera-me vida e tudo. Consigo ver suas reações aos meus dizeres antigos e calmos, não aprendi a escrever.
Aprendi enfim, que não há servidão a mim. Não sirvo para nada.