Acordo sobre a cama, o suor que desce as costas; fome, sinto fome, de algo intangível; levanto e vou até a cozinha, abro a geladeira, fecho e abro mais algumas vezes até perceber que não há nada pra mim ali. Não possuo perspectiva, ou fuga ligeira pra este momento singelo, preciso de algum tipo de dengo; teu dengo seria fantástico, deitada ao lado, com o roçar dos lábios no meu pescoço nu; enquanto trocamos olhares, absorvendo tudo de cada, em disparada, em pressa. Não desloco o corpo até perto, pois sou medroso, cair as vezes pode ser fatal e a altura de qualquer delírio, é gigantesca na mente de quem sente; força, queria ter tua força.
Volto com os pés descalços, pisando a cerâmica gelada, dou alguns saltinhos -cê riria se visse- feito criança, pra acelerar a chegada, no mormaço do quarto. Os corpos dividem solidões, onde vivo, e quando dizem ou querem, tacam pedras, indiretas ácidas; resoluções rápidas, tudo breve. E cá, ainda, sento-me na cadeira desconfortável, enchendo os olhos de lágrimas insensíveis, mesquinhas. Escondi um cigarro na gaveta, outro no bolso detrás da bolsa, devo ter sido otário ao ponto de crer que seria ruim a mim -a ela- ter fumado.
Não esqueci muito de tudo, mas decompor a culpa é um processo lento; desculpar a ideia, o tempo, o templo, que vida. Saudade, quanta solidão voluntária ainda não hei de me submeter, pela ausência de um mimo, um dengo; nas cabeças ao meu redor, é bobeira, ter-se carícia, é algo rápido -um só contato, um aplicativo. Na certa fui amaldiçoado, pelo encanto dos olhares raros, que me possuem e rastejam dentro do âmago; feito o teu, que até hoje ao te olhar, sinto um aperto no peito, um gelo que desce pela garganta e derrete-se inteiro, lá.
Saudades de ter-me dengo, e não me martirizo por não instalá-lo só pela falta; prefiro cá, ser-me imbecil, de mágoas coloridas, que tristonho submerso em tantos braços pífios, casuais.
ME ALCANÇA.
Me alcança, esta agulha sórdida e ignóbil, arrasta consigo uma mancha de sangue cáustico; o enxofre dos pesares pagãos, amontoados nos cantos do quarto qual vivi. Um destes, dera vida ou germinara uma incauta desgraça; o “quê” de toda a metamorfose até o dia, este dia, até hoje.
Tantos breves desejos solidificados e mistificados no apetecer das ilusões colossais e o abismo que arrodeia-me, como um pano que cobre minhas vistas e o turvo, denso, é o meio de fazer-se exposto, uma mistura de cores hegemônicas; eu sou da cor daquele abismo, deste abismo, uma decadência sincera e robusta, ávida, de decomposição.
Muito bom!
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