CIÚME/ VAGOS (5)/ VAGOS (4)/ VAGOS (3)/ VAGOS (2).

19, MARÇO, 2020.

CIÚME (?) VAGOS (6)

A sensação estica-se até a ponta dos dedos, a vileza de pensamentos aberrantes conduzem o corpo a proposições deletérias, degradantes; a suposição alastra-se pelos cômodos, o corredor é um abismo, uma queda; as horas vão aprofundando mágoas recentes, nostalgias torpes e o olhar esbugalha e enrijece somente agonia. O pensamento rasga as vértebras, rompe as costelas; o peito arfa, pela insensatez borbulhante, tomado de rompante por tamanha desgraça; toda esta pressuposta, fictícia, ilusória.

Deitar malogrado, alvejado, deitar com os detalhes mórbidos destas suposições metafísicas, obsessivas. O corroer da alma, por uma expectativa péssima.

A peste, a neblina de uma sensação.

16, MARÇO, 2020.

VAGOS (5) (Ignóbil)

A sordidez das minhas memórias transbordam em agonias simplórias; ouço vozes que ecoam, traços de rostos pútridos, decompostos; movo-me pelo breu de uma madrugada qualquer e tateio o abjeto trajeto das minhas curvas trágicas. Não alcancei a parte minúscula dos prognósticos antigos, não alvejei e toquei nada. Fui transformando-me na agonia contida, amordaçada e presa, num calabouço asqueroso onde uma corda balança numa altura distante dos meus saltos ridículos.

Tua voz parece ecoar em um ciclo, ao redor da minha cabeça, pelo crânio; tua voz amolece, afasta por instantes a chaga, traz consigo no bojo uma saída, um escape. Eu em súplica demando do tempo, horas e horas para que cê estivesse, pudesse fazer parte das desgraças que acometem-me.

A dúvida rói toda a minha carne, o futuro é ilusório, decrépito; a mim, talvez, este rompimento diário, seja uma condição.

12, MARÇO, 2020.

VAGOS (4) (LUÍS).

o luto engessado na garganta de tanta gente, petrificado, o choro largo omitido, silenciado pela distância dos corpos que jazem contaminados;

observa-os, não? não os vê, peste? que tipo de otimismo ocupa tua goela? a forma execrável que prolifera tuas decadentes proposições; teu estado apático, sentado no amontoado de corpos esticados, estirados, juntos um a um sem organização, sem luto; onde está o teu desespero, teu movimento, tua moral?

o eleitorado bolsonarista-genocida é um tipo apodrecido de ser, mortificado, pútrido; arrasta-se pela terra com certezas intangíveis e malditas. a sensação detestável ecoa pelos cômodos dos quartos, os corredores, janelas; a morte atinge-os?

a democracia escancara opções claras, explícitas. que tu tem a dizer?

11, MARÇO, 2020.

VAGOS (3)

Abro as partes do meu corpo com os dentes e unhas, junto os pedaços num amontoado qual venero na mesma medida que detesto; todos os dias vão escorrendo pelos dedos pífios, pequenos e na vã tentativa de os alcançar solto um grito agudo, rasante, que é impedido pela traqueia e sou silenciado como que enforcado por um espectro invisível.

Sinto o amor latejando nas pontes breves dos meus delírios, ocupo e refaço a distância dos meus olhos a tua boca, descanso a ofegante tristeza contínua; olho-me de soslaio e detesto, paro, olho-me de novo e fico petrificado, no pulsar ignóbil dos meus olhos, dos vãos colossais escondidos pela pele, pelos ossos; minha consciência vai cavando buracos, soltando pestes e desgraças, que percorrem todos os caminhos das minhas veias.

As calçadas não me trazem sossego, todos os meios vão gotejando pragas em forma de brasas, rompendo a minha pele. Tento em vão pontuar, dizer e caio nos labirintos eternos desta condição humana. A tragédia de existir dentre tantas formas próprias.

6, MARÇO, 2020.

VAGOS (2)

Descanso minha carcaça tétrica, no suor amargo que goteja da minha pele; acumulo os suspiros infernais, odiando cada centímetro da minha causa imbecil. Ouço vozes na distância, braços que estendem e mãos a tentar me amparar, tirar qualquer resquício do ópio odioso que assola meu âmago; dou um breve sorriso largo, arrasto-me de volta pro canto e entro em decadência. O futuro emana introspecções horríveis, visões saturadas, mesquinhas, nada que viesse a tirar o prognóstico odioso do corpo, do espírito; resgato meu corpo, levanto-o até a cozinha, pego um copo d’água e mantenho-me vivo, mas lembro das vezes quais fui sugado pelo mar; pelo cinza que seria, ter sido levado pelas ondas.

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