13, JUNHO, 2021.
ELA.
As horas passavam devagar, cada centímetro breve do cigarro a escorregar nas partículas, na fumaça. Observava teu sorriso fazer e se desfazer de forma obsessiva, conduzia minhas ideias de forma caótica, sem justificar-me ou sequer dar tempo de perceber, que ali estaria o último estado não apático de nós.
Repagino as métricas sólidas dos versos ridículos que ecoavam nas horas de ódio, de torpor puro. Assistia de forma entusiasmada suas objeções, suas agressões; alimentava-me e transformava o maldito, em vivo, necessário. Enquanto nos entrelaçávamos diante da maior chaga, do choro contido e num gozar que rugiam todas as lágrimas.
Todas as minhas quimeras vão lapidando-se, em cada passo que dou e respiro, revisito dias terríveis e calmos, na mesma continuidade que ouço meus ossos, pele, dentes, arruinando-se. Não sinto falta alguma de nada, mas relembro com alegria todas as machadadas e castigos.
Teu olho sempre será um calabouço de vergastadas violentas, não valoro ou posiciono uma chaga diante da outra, mas não negaria o corte grave, e a saudade do teu apelido manso e riso celestial. Nas escadinhas, nas caminhadas e todo o caos que borbulhava nos meus olhos e talvez se eu tivesse tido calma, estaria lá ainda. As personalidades que transfiguravam-me, sentia puro acolhimento nos teus braços esguios, numa época de desordem, era um tipo de calmaria estática, amor puro.
Ao moralista que me habita, diria tudo, sendo como naquele dia um tipo atípico de forma, cada estado da alma contigo fizera-me espectro. Arrodeio àquelas memórias como um condenado.
O rio ou a espera, cada conversa longa e cansaço.
Vai ver eu valoro mesmo e vou ser a contínua inquieta disposição de preencher-me do outro, sendo sempre nada.
13, JUNHO, 2021.
PERCO. INQUIETO (8)
A tragédia cáustica de ser-me, a forma espectral dos desejos que escorregam entre os dedos. Cada centímetro de fala é uma imposição inquieta, de uma robustez malograda. Assistir a queda livre de todos os minúsculos sonhos farejados, rastreados, toda simples movimentação e condução do ser, para enfim num deslumbre magistral, cair e ser agarrado por tentáculos de uma chaga infinita e irredutível.
As músicas afastadas pelos membros, uma tentativa patética de ser algo que não aquilo que se é.
Vegeto lentamente, assisto os olhares atravessarem-me, rasgando minha carne podre, expondo-me aos urubus. Os pássaros que pousam no meu rosto, mordiscam minha pele.
O caos inebriante das estatísticas, dos homens e mulheres que vestem e são causas, símbolos. Os dias vão arrastando-se e minha memória ridícula constrói labirintos de paredes invisíveis.
A solidez desta causa é justamente sê-la, não há movimento que desvele-me, não esconderia -até pela fraqueza do meu ser.
Não consigo manter-me nesta labuta constante, devo ater-me e satisfazer minha trajetória em algum movimento simplista, por imposição da própria natureza.
E esta escrita? Peste, sequer leio. Sequer consigo desenvolver sem cortar e fazer sangrar os dígitos, assim como fora e agora acometido de memórias amaldiçoadas, construídas por mim.
Volta e meio detesto-me. Fraco. Perdão às expectativas que rompem o cordial, a catraca e no silêncio torpe de algum dia que leu ou ouviu as preces.
Preencho estas semanas com o vazio espectral que no meu dito, é o nada.