24, JUNHO, 2020.
CARTA AO LEITOR.
a ti que lê-me hoje, deve notar uma erudição pútrida, mortificante; deve como d’outrora fugir aos prantos, pálido e estupefato com a sordidez das correntezas intransponíveis de tamanha alma. deve ainda, rastejar ao pé dos degraus da própria casa e submeter-se ao sacrilégio, ao profano, dormitar nas camas de enxofre untadas e grudadas, pelas peças infames de alguns sonhos celestiais. verá, diante desta robustez, desta delicadeza perspicaz, que não há nada a que se aponte e grite: por isto, lutaria. verá o sórdido mar, do sal, das correntes e os ossos roídos dos dias eternos. meus olhos grudarão na tua testa despida, tua testa pálida e enrijecida pelo tremor e a convulsão que logo mais virá.
arrasta-me pelo subsolo, pois nada há de salto para fora da essência, tudo isto sou eu. as quimeras, os símbolos, nada disto é-me quisto, é vontade; falta-me a vontade de organizar, de digitar os deleites e os prazeres; desta minha escrita só há maldição, pestilência, caos; vou, vou continuar pois o corpo vive e precisa vivo estar. as vírgulas, os pontos, nada disto importará.
tu, a tu, que ousa ler; nada disto é sensatez lograda, isto é um ser oriundo das navalhas, dos cortes e a máquina que rói meu crânio sempre que tento dormir.
ter paz?
paz?
e aos odiosos que da linguagem tentam encaixotar-nos, que tentem, e tentem muito, façam disto toda a tua vida; e enfim, descalço e maltrapilho me gritam, me chamam, eles vão me(te) adorar.
22, JUNHO, 2021.
ENGRAÇADO. sem razão (1)
-engraçado que nestas empreitadas sempre me pergunto o motivo, qual razão e não as encontro facilmente, é como se nublasse ou fosse vendado e obrigado a apontar diretrizes, curvas, sentidos, sem ver coisa alguma.
-diz isso para?
-justificar as leituras, cada vez mais as vejo como meios para nenhum fim. como se cada motivo singular me pusesse ou tornasse minha causa algo abjeto, deletério.
-nenhuma leitura teria lhe dado nada?
-óbvio que sim, seria descuido dizer que de todos estes pequenos livros ou trechos, não tirei nada. o que faço é observar atentamente causas e efeitos, motivos e o que eu quero desvelar com cada página lida.
-e o prazer? o envolvimento?
-não o sinto, senti algumas vezes, lembro exatamente quando e quais foram os momentos. sempre busquei, ora, pera, sempre mesmo, tentei ver-me diante dos exemplos diante de mim; ah, por favor! não é uma comparação pífia, é necessidade, não atribuo minha forma a um tipo singular de ser, peste!
-sim, do convívio e das multifacetadas relações, constrói reações e destas sente-se perdido, é, razoável.
-justo. é como se o prazer de ler ou o hábito fosse algo pútrido para minha natureza. como se o ópio de cada pequena dosagem que me dou, estivesse alimentando algo que pulsa no meu ego, no meu bojo. sim, sim, a capacidade de condução diante da vastidão é feito algo intransitável por mim.
-vai ver é pelo movimento criativo que o habita, quase patológico se posse dizer. é como se diante dos postulados, das criações, em cada leitura o teu bojo fosse posto em crise, crise simples, tipo derreter ou moldar, lapidar um sintoma; o sintoma é simples, é tua existência.
-é deletério, não? sentir que o calabouço se expande, torna-se abismo e devagar os tentáculos vão atormentando e transformando meu eu, num tipo de peste insaciável.
-diz tudo isso para?
-desgraça, para?
-sim, ora, para?
-para dizer que não me encontro em nada disso. folheie alguns livros que tinha posto como meta, conduzi meu corpo pelas páginas, os olhos até a exaustão; sinto algo como que deslocar-se, não pertencer. é hediondo, todas as facetas que atribuí ou que contaminaram minha causa, estão diante de todos os meus delírios.
-estes delírios são pontiagudos? desgraçados?
-eles são a minha forma prática.
25, DEZEMBRO, 2015.
Segunda-feira. Vagos (-2)
Velhos barbudos sentam-se em cadeiras de plástico, nesta época que não passa de um fiasco melado pelas verdades impostas, numa história moldada por imperialistas travestidos de incríveis homens das nações.
Outro dia repeti a mim que seria maior que as estrelas que assistia, num céu escuro, brilhando, crepitando feito fogueiras celestiais. Mas o incentivo solitário, é semelhante a o mormaço de uma segunda feira. Repete-se, toda semana, quase que pré-programada para dar-lhe epifanias que nascem da insatisfação momentânea, nada mais que uma coceira no fim das cotas ou na garganta.
O dedo arranha, e o movimento vai e volta, quase que coreografado. E então cessa, pois já não coça, já é hora de voltar a casa e beber um copo de suco, perto dos filhos e a própria autoestima moribunda. Defuntos, a morte deixa somente defuntos, que o tempo esvai, os leva… a imaterialidade já uma perspectiva mais aguda, desnecessária.
Celulares vibram numa harmonia icônica, hospitais de desistentes, as pequenas telas do computador e planilhas. Chefes atrás de chefes, nas promessas de que hão de crescer os que assim querem. E como de fato queria, este, eu, neste caso. Daria a mim um quarto e algumas estantes lotadas das minhas promessas. Desafeto, antes de ter sido, pela ilusão básica da pre-modelação da própria casa.
Diabos verdinhos arranha as minhas janelas, batem nas paredes, logo quando vou dormir. Prendo-me nas correntes desta cama, adocicada por um ventilador que mais geme, que venta… é uma pena, trouxe comigo um pouco de carinho, mas a data expirou…
Amo uma segunda-feira, tal qual o natal… as repetições, é uma cronologia básica, e o destino sei lá, meio que me apaga. O vinho está posto, a mesa cheia, e eu farto destes horários, até me desfazer na ebriedade e ser mais sincero que a própria divindade, antes mesmo de existir.
11, NOVEMBRO, 2016.
Diálogo entre o concreto. diálogos vagos(1)
-…Um diário para se eternizar, quão egoísta é o corpo que parasita e ainda depois da própria putrefação causa dano aos que ainda respiram. Ingrato por ter tornado a existência tão patética, deita no solo fétido como um espinho ardiloso, ferroando os ainda vivos.
-E de onde diabos tu me veio com esta…
-Só vim, nada mais que ter vindo com uma ideia.
-E foi longe demais… Porque não para com estes devaneios imbecis e descansa tua cabeça em algo real.
-Desgraça de palavra ridícula, que vem a ser real?
-O corpo, a dor, a perda, o luto.
-A probabilidade de tudo isto ser escasso é gigantesca demais, poupar-me ao delírio honesto (trabalho, instinto), pela generalização social?
-É o melhor, não?
-Na cabeça da mula… e não peço desculpas.
-Hahaha… Quão ingrato, mastiga dos ombros aos pés da família, para popular páginas em branco, com ideias tão absurdas?
-Não seja tão escroto, faço parte só, que culpa cá tenho de ter tido o ócio de uma vida?
-Toda…
-Eu sei.
-Então pare logo.
(dois minutos, entre um cigarro dividido.)
-Não ouso parar, a metáfora de viver é descrever a vivência, não?
-Mas de ti não vem instinto nenhum, é quase apático a qualquer resquício íntimo ao teu redor…-É asperger isso, não? hahaha
-Seria, mas ai tu transformou-se, veio aos poucos e pela tua estupidez se agigantou, agora é esta peste ai…
-Sim, sim. Minha apatia é falácia tua, sabia? A dor me cerca feito um arame-farpado numa ventania forte, mordisca a pele e fere a qualquer resposta negativa… você não veste as minhas vestes…
-Verdade, mas não tenho tempo para isso, desculpa…
-A culpa é somente tua, otário.
-E me cerca também, só não me machuca tanto quanto você.
-É paralelo, teu sofrimento é um poste aceso e a dor é somente quando pisca, mas só eu o assisto piscar, de onde eu sento, sinto o teu corpo esbouçar aquela reação trágica e tua alma meio que sussurra ao pé do meu ouvido.
-É…
-Não há nada que prove a utilidade do tempo, amigo, o teu dever ou a sua soberania, nada realmente prova-se, são questões de intimidades e a propagação dos teus relatos pelas bocas dos que te assistiram. Se cá tu vive em busca da memória, tais de fato nas linhas correta.. Hahahaha… (tempo aqui, como suas conquistas). Há aquele que vira entidade, pela bebedeira num bar, numa rua perdida… Outro vira lenda, pelos assassinatos e ao meu ver, tu vai se tornar um chato… Ri?… Teu ser será espalhado pela família, os filhos e há nisso algo incrível…
-Um sacrifício importante.
-De fato, por ter se apegado ao fato: tu és a hereditariedade e eu, amigo, o esvanecer de qualquer realidade proposta… Aos que me arrodeiam serei só esta irritação… Um degrau a mais, em todo fim de escada.