ELO QUEBRADO./AUTOAJUDA/TRAGO

5, JULHO, 2017.

ELO QUEBRADO.

Viscoso, algo viscoso caiu sobre minha cabeça; toquei-o como se fosse algo asqueroso, senti-o devagar atravessar a pele dos dedos, um alfinete mesquinho, impiedoso. Rapidamente estava passeando por dentro da pele, esquivando-se de tendões, veias; surpreendeu a ausência de vileza, na forma insólita que possuía, achei, diante dos olhos que logo estaria morto… Teu propósito ainda me é duvidoso, sinto algumas pontadas na cabeça, na lateral direita do olho; aperto com o indicador, numa tentativa estúpida pará-la; não ouso buscar ajuda, deve ser algo pífio, mera coincidência de alguma doença ilusória… Quem diria que desgraceira não foi, a cousa que adentrou minha pele.

Os dias passam devagar, e cá ainda sinto-a rastejar pelo corpo, causando ondulações nos ombros; quando chega perto do cotovelo, sinto cócegas e involuntariamente coço. Minha ultima namorada percebia… Pois em momentos, a sensação era no olhar, alguns pontinhos pretos disformes, feito partículas de sombras juntavam-se na imensidão da visão periférica e imbecil, como sou, tentava segui-las com o olhar atento; ela não suportou por muito tempo, os acasos de perda de foco, desinteresse enquanto estávamos a sós.

Houve um certo afeto entre a ilusão daquilo, a expectativa da peculiaridade; ative-me a ideia peculiar, como se tivesse caído de alguma paralela fresta -quebra de rotina, do universo. Seria cômodo a mim, em alguma visita médica, ter a perplexidade na face de qualquer médico experiente, a estupefação diante daquele sinistrismo… Porém, nada funciona, a imaginação é uma fonte incessável de raquíticos devaneios, incalculáveis, inaudíveis…

Ter-me sentado na espera, foi claustrofóbico, senti o ar esvair-se de repente e um embrulho forte no estômago, como se a cousa tivesse se irritado com a dúvida, ser incerto quanto a tua realidade; hesitei, levantei, busquei um gole d’água; uma moça viu meus olhos transtornados, a mão pressionando a testa e as arfadas, junto de algumas lágrimas que brotavam dos cantos dos olhos. Ninguém tentou me perguntar, haveria de ser frustrante àquela visita, era óbvio. O moço abriu a porta, era calvo e barrigudo, de sobrancelhas grossas, estendeu a prancheta em tom convidativo… Entrei.

Detrás da mesa sentou-se, me olhava com uma certa mágoa, dor detrás dos olhos; ali o bicho viscoso espetou meus olhos, saltei da cadeira e o rapaz não reagiu, bati com os punhos cerrados na testa, nas bochechas; tentava inutilmente rasgar a pele, tirar dali o ardor, a fúria do monstrengo.

-Tira de mim, doutor, tira de mim essa coisa, tira!

Os olhar esbugalhado do médico, o suor pingando da testa. Talvez não notasse o extremo daquilo, das picadas violentas.

-Tira! Tira, tira!

As unhas iniciaram um processo primitivo, como se catasse carne debaixo da pele de um carneiro; era-me sensível, doído, mas que outra alternativa havia. Em uma ultima tentativa, o salto, vi na mesinha um isqueiro… A mão esquerda segurava um ‘tufo’ de pele, com a ponta das unhas ferindo, deixando respingar gotículas daquele sangue, grudento como o primeiro contato… Acendi-o, em ameaça, o isqueiro crepitava feito algo vivo, as chamas feito mãos rasgavam o ar em busca da testa…

Encostei na pele, deixei derreter e não ousei gritar, mordi os dentes, cerrei até que balançaram, a queimadura não cessava e já borbulhante, tomou uma atitude o estupefato profissional; não me disse nada, gritou por ajuda de enfermeiras, que na minha mente demoraram, tardaram. Depois de alguns segundos, consegui ouvir um chiado ululante, vivo, algo pequeno morrera e embebedara meus tímpanos, naquele instante fui tão lúcido, sensato; porém puxaram-me com violência, não ouvia nada senão a luta prepotente, da ‘cousa’, enfim morta.

-Não há nada aí, rapaz, o que cê tá vendo?

-Ele foi embora! Ele morreu!

O sorriso doía o maxilar, olhava pras lâmpadas passando e meu braço esticado, depois de minutos submerso na fórmula heroica vim sentir a ferida aberta, a queimadura no canto do olho; a vista escureceu, depois de um pinicar anestésico, nada energético como o bichinho que me deu vida.

5, JULHO, 2016.

AUTOAJUDA.

Jaz ardente nesta esfera específica, quatro cantos de desordem pura, esmagam a solidão rasgante. Vejo pétalas chorosas caindo do céu, em um tipo de sincronia assustadora. Os ecos de princípios esmagados, a lentidão do envelhecimento da bebida, a vontade de ser e não há, de ter em curto espaço -todas as coisas do mundo. Gritar ao sol por paz. Gritar por um segundo sequer de calma, e afeto sincero, neste esbelto patamar degradante, a terra que se tornou um mirante para somente o mal.

Vedar-se é um privilégio aguço, num submundo de apeteceres de desgraça, sentir calor e amor na alma, é feito milagre divino, em um olimpo cheio de traças demoníacas. Daqui ainda voltam ao primitivismo, onde de cá o sentimentalismo é mijado, feito canto de rua ou um beco, que é senão o melhor banheiro, naquela hora de aperto angustiante. Das pragas jogadas ao ar, pelo sentir em excesso dos poucos que voltam o espírito para os entraves, das meticulosas brigas estúpidas, aos prazeres abstratos no papel. Os românticos que vi morrendo, caindo em um lamento milenar, dos desprazeres e sentires roubados, pelos nobres ensanguentados -mas o sangue é pintado- com dotes de objetivo.

Saltar ao céu e embebedar-se com o divino, tocando uma viola e cantando os doces acasos passados, de lábias e beijos. A risada triunfante em um estado de eco, da terra soa feito trovão, mas lá é um toque de motivo, de ter ainda no âmago um sentido fixo para colocar-se diante da decadência diária, nas escolas ou nas praças. Ver agora lá de cima, em uma queda assassina, o ar extinguir-se, por pouco não se exonera do físico e vai para um lado mais sensível às hegemonias. Os absolutos, ah, estes dominam e hão de, como cá sombras ocupam as casas e lares, soltam-se pelas cidades e atacam os imunes, os impunes que se safam nesta terra santa.

Abençoa os filhos cheio de lágrimas nos olhos, pela lentidão sincera nos projetos belos, para fazer do tempo uma giratória-evolução contínua, com as poucas peste cuidadas. Dos mares vermelhos, exigem sangue e o retorno do único para que cá nos salve, feito aceitação, contrato entregue de que aqui só faz por si, para no extrafísico, na possível ficção milenar, se esquivar de qualquer estupidez ou mal de raiz propagado.

Os acervos literários, lotados de autoajuda, pois cá as mulas não sentem ou querem o fardo. Não veja-se superior por carregar uma melancolia certeira, e sentir a massa cefálica urgindo em dor, gritando e os neurônios ganhando formas pequeninas, golpeando o crânio em um pedido de paz. Aceita o teu ego, e cá tu percebe ter dito tanto, terminado como uma autoajuda.

Ah, transborda em delírio, feito cachoeira

Lágrimas incessantes

Tristezas ecoantes

Nesta certeza

Um absoluto fim.

05, JULHO, 2019.

TRAGO.

“O primeiro, o primeiro que viesse; juro, o primeiro… ah, bom, foda-se! o primeiro, qualquer um de lá” Disse este, que jamais obteve sucesso algum, em seus ideais robustos e complexas fórmulas sapiens, pensantes, ainda assim gritava “Volta, quero que volte! Se por aqui pisar, arrasto a face nas brasas da churrasqueira; pode rir, pouco me fodo!” Entre tanto bravejo, indisposição e posição, havia um ser raquítico deformado, postulando simetrias devastadoras inalcançáveis ao melhor estilo dele. “Rasga a peste dos livros dele, vai, rápido! Vai, moleque, porra!” Ernesto, o pivete másculo de ombros largos e um tipo de fronte martelada, enrijecia os músculos para olhar de volta àqueles gritos pontiagudos, como que saídos da garganta de uma calopsita “Não vou, deixa os livros dele.”

E nada disso viria a calhar, pois até um que ainda pensante suponha tanto, era suposto e eu que o ouvia, a dizer melhor, observava caretas formulando-se entre pequenos ululantes gracejos e toques no copo de cerveja, ria a mim, pois deveria ter visto tudo isto acontecer.

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