19, JULHO, 2021.
MAS NADA.
as sensações vão se avolumando como cortes graves na pele, deixando sangue gotejar e escorrer pelo piso. cada centímetro que se aprofunda é uma vertigem, os soluços e o choro entalado roendo devagar a garganta, fazendo o tempo algo breve e finito. a existência lhe escapa, lhe morde, lhe é tudo e ao mesmo tempo nada. as voltas nos caminhos curtos, breves, dentro dos quais sentira a mesmice construída pelos afetos mordazes; toda a culpa torna-se indigesta e o pulsar um mero movimento automático e ridículo. ouve dos outros que são alguns poucos pífios, ouve que a lentidão do processo é a forma da vida, que cada um possui seu espaço e época, sua hora. prefere dizer-lhes não, prefere rugir feito um animal ferido sedento por algo instintivo já que os pensamentos são guilhotinas contínuas.
o que há a dizer senão o idêntico, o metafórico e malogrado. a imensidão cósmica dos ecos oriundos de quaisquer vozes que ultrapassam os dias, seja com machados ou gritos de dor. são lampejos que perpassam os ouvidos atentos. mas não deprime, sequer traz vida, traz algo diferente, algo metafísico como as odes rotineiras das almas que caminham solitárias até os cumes.
volta somente quando há fome, quando há sede, quando há desejo de algo que não o pensamento, a continuidade dos rasgos no crânio por odes de desespero puro, todos acinzentados por diabretes sistemáticos.
mas, mas, mas nada.
21, JULHO, 2021.
RUÍNAS.
Despeço-me deste afeto que rói minhas costelas devagar, deixa rastros inomináveis; digo-lhe adeus em um desespero atípico das minhas condutas, observo da janela você partir, cortando as ruas. Não repito nenhum mantra para satisfazer ou acalmar minhas têmporas, simplesmente deixo que o aspecto mórbido devore minhas retinas, faça das minhas introspecções pequenos cortes macabros. Detestável jeito de partir, de ser, a projeção correta de que ela não voltará, amordaça-me, solto ruídos tenebrosos, um choro contido por tanto tempo, uma mistura bélica de liberdade e sacrifício; a pressão vai caindo e o seu rosto vai desenhando-se nas paredes e nos cantos, cada centímetro do apartamento é uma memória sólida e corrosiva, toda tua.
Ouço as vozes ecoantes dos contemporâneos a dizerem fórmulas sensatas, conduções para que a introspecção da saudade não destrua meus próximos atos, que a tua forma tenha sido como algo efêmero, ligeiro e de sentido nítido; e eu os enxoto com palavras fortes, sistemas de um romantismo antigo, moribundo, escuto as risadas ásperas dos mesmos pela certeza fúnebre de estar soterrado nas memórias malditas, daqueles nossos dias. Cada um em seu aspecto lisonjeiro, de afecção pura, tentando com seus dedos variados mostrar um tipo de horizonte onde a ruína e a queda são centímetros diante do possível, do que ainda habita em mim; e de novo, em tom cáustico os acuso, acuso como que soterrar-se fosse uma ode necessária, que a chaga deve espalhar-se por todos os cômodos ao infinito da minha desgraça.
Cômico de cada ousada movimentação brusca diante da tristeza incessante é que as mesmas tornam-se sólidas, certezas fictícias, vão arrastando-se por toda a alma, surrando os precipícios torpes do choro contido e os transfigurando em uma felicidade sistêmica e possível. Um grito dentro da escuridão dos quartos, de cada quarto que ousei chorar. O inferno trágico desta razão é sua escassez, as endorfinas cômicas duram algumas horas somente, porém possuem a força de alterar uma solicitação, um desejo, um amor; enquanto entorpecido pela causa, os outros tornam-se possíveis, o mundo algo palatável e a vida completa-se, faz jus a si mesma e possui lógica. Mas dura somente um curto tempo, uma proliferação rasa de intenção.
A satisfação mera de ser um coabitado de tantas curvas pontiagudas e torpes, epifanias constantes em um mar que arrasta as pequenas causas e as afunda, afoga. Os contextos solitários, memórias ignóbeis conduzindo a textos e escritos antigos, imagens estáticas daquelas sensações que nos transbordavam e faziam do símbolo uma possibilidade magnífica. Rasgar os papéis dos projetos, das semânticas moribundas. Os contemporâneos são sistemáticos na apresentação de cortes, de exemplos de morte; sei do sentimento das suas ações, o otimismo mórbido deles, quando ao notarem em mim um fajuto ser que ruiu, não me faz diferente de nada. Desta forma, idêntico feito o comprimido que nos serve, sei que vou dopar-me até que eles saiam. Enquanto os tenho perto, prometo transfigurar-me, mas a ti, saiba que proliferará cânticos e quedas do sexto, décimo-terceiro andar, em um tipo de perpetuação da sua forma em meu espírito.
6, JULHO, 2021.
MECÂNICO.
A chacina contínua destas memórias torpes, mordiscando a pele exposta, deixando rastros de sangue coagulado no piso por onde andas; devasta devagar as introspecções, conduz solicitações ignóbeis para que o transtorno seja uma predisposição eterna. Observa atento o afeto antigo ser pisoteado. É agora isto, deve ser até que o dia torne-se uma guilhotina e a vida escape do corpo, para que assista o próprio decompor. A paciência póstuma, atenta, uma memória nova para um desajustado adeus de si; como organizar o futuro na inércia eterna, como ser algo que não o corpo estático, junto do mal cheiro que passa a coabitar o cômodo, poluindo devagar todos os centímetros do quarto. O cheiro, o silêncio e você.
Saudade que regozija, nas nostalgias ordinárias, sempre rostos e contatos breves aleatórios. Os projeta, mas a insatisfação agoniante começa a persistir, quando não há mais nada a ser feito, só projeções da consciência que vai deteriorando-se.
Súplica, súplica qualquer. A hedionda certeza absoluta, dos germes que vão causando desgraça nas tentativas imbecis de saltar, pular pra fora da carcaça. Os restos meros do pensamento num tipo de apatia para consigo, onde enfim nasce a parte sólida e solitária do bojo, do ser, algo mecânico e totalmente químico. Sente as ideias formulando-se feito martelo tentando atravessar uma parede de tijolos, abrindo buraquinhos até que torna-se possível ver algo por detrás. Este ato é o movimento do antigo pensar diante da sua parte mecânica, o mecânico são os fragmentos pouco visíveis que o pensar antigo tenta, cada vez mais incapaz de atravessá-lo, sendo um reflexo fajuto de uma existência que vai cessando. O mecânico é a natureza de algo instintivo, um combate que fazia parte de toda a sua forma, que agora é tão sólida e vem a ser óbvia, a morte.