CRUEL.

27, OUTUBRO, 2021.

CRUEL.

 Cruel observar os pontos fracos do espírito, perceber a forma como uma tragédia explícita dos trajetos perseguidos. O acúmulo dos anos feito um corte grave e ensanguentado movimentar-se pelos corredores, abrir janelas, olhar para fora do apartamento sentindo uma falta mórbida de si. Os dias são letargias rotineiras, o passo é sempre um dado sensível de uma quimera pífia; manter-se vivo. Detestável, mísero ao espelho, como uma face que fica disforme em cada pequeno lapso de atenção que se dá. Deve dizer algo, devia dizer, mas não o faz, mantém-se refém de um princípio ativo e ridículo, o nada. Suas projeções dependem da produção que lateja deste ambiente inalcançável, embora o motor da sua existência. Produz a partir deste modo, deste estado, na mesma medida que não o faz. Súdito, servo de um processo ríspido, uma continuidade de machadadas no próprio crânio, um observador raquítico da evolução de qualquer outro.

 Mas os dias vão mostrar algum caminho diferente, menos caótico. E nesta sensação que virá, romperá linhas e projetos sólidos, mistificados. Precisará reduzir-se, anotar e ser fiel a centímetros, escapar de ideais e antagonias constantes. Este ser morderá antes a própria carne, deixará o sangue escorrer pelo piso e assistirá a própria decomposição, a ter de mudar. Mudar exigirá um tipo de rotina, um tipo de modo de ser; e este não consegue repetir nem voltar a nada, a manutenção é uma contradição explícita, e as sequelas dos anos compõe-no, moldam-no de uma maneira inexplicável

Reveja algumas situações com qualquer ótica que não a deste, refaça os seus caminhos com cautela, aproxime-se de quem o amou ou tocou, perceba quais estão e o notam, quantos o percebem. Será sempre triste, quando deparar-se com a insignificância das suas características e como pouco altera os ambientes, os movimentos alheios. Diante do feminino é sempre frágil, sensível e inquieto, há ali um tipo de horror à dúvida, horror a qualquer negatividade. Temor de não ser, e na medida que não tem certeza, entra em lapsos de desentendimento para consigo, e no silêncio que ocupa dando mordidas violentas no cérebro, fica ali, na expectativa de uma percepção. Patético, verá, quão patético se é.

 Desista, abandone-o como ele mesmo o fez. Viver ou existir são palavras que comovem, deixa lápides e epitáfios lotados, será que terá vivido? Não deu-se este luxo, fora um fantasma, atravessando paredes em busca de qualquer ópio simples, em um tipo de medo obscuro de perder a razão. Mas qual razão o mantém? Vergastado pelos comprimidos durante anos, assolado por ideais tétricos do outro, delas, deles. Um homem sem face alguma.

Mas volte, talvez amanhã em algum corte ele perceba, perceba algo que não está ali. Se deteste menos, consiga gozar sem a necessidade do orgasmo do outro. Talvez a morte o esqueça.

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