EU CANSADO/CALMO/QUEDA

4, NOVEMBRO, 2019.

EU CANSADO.

eu me arrependo amargamente de cousas que somente ecoavam, enquanto adormecia nas cordilheiras ácidas, desta montanha amaldiçoada; visitava florestas com as vistas turvas, nublava os ensolarados dias com dedinhos tateando nuvens brancas, pintando-as com rancor e mágoa ressentida.

eu sei muito sobre as partes tentaculares daquele édipo minúsculo, e o farejo em noites longas, debaixo das luzes ululantes, cadavéricas; reconheço tal qual a memória infante, faz mais jus à interpretação simbólica, escapando do fato -que seria o simples acontecer.

eu rejeitei o afeto, surgido entrecortado pelas curvas internas, ecos alternados pelo assombro labiríntico, e toda luz surgente era comprimida por uma nova parede erguida, sobre o calor eufórico, medo torpe.

eu surjo imundo ante os colossais risos satisfeitos, os vitoriosos dias magistrais, dos homens ao redor da minha causa e mulheres em lápides ornamentadas, arquitetadas por traços indiscutíveis, metafísicos; e toco faces, olhares, como uma sombra cósmico indigesta, um profeta raquítico tremeluzindo.

eu retorno a mim por anedotas alegóricas das suposições impossíveis, e aí observo meu dilema com a linguagem. a linguagem é um artifício catastrófico para o movimento dos fatos, tangíveis e intangíveis pela percepção.

2.

pro inferno com tamanha indisposição, meticulosos tratados dissociativos, um prefácio despersonalizado, em expectativas meramente supostas, jamais vistas.

3.

cansaço.

10, NOVEMBRO, 2019.

CALMO.

a vida era tão calma, tão simples e direta. meditar era uma obviedade, submerso em apeteceres simples do céu rarefeito, ordinário, manchando o teto esbranquiçado. sorria na mescla desorganizada dos princípios ativos movimentando a face que externalizava a magistral solidão, não somente pífia, colossal. meu corpo tangia os disformes conteúdos daquele fim tardio, um sol rasgando as frestas minúsculas, atiçando brasas, ardendo a calma indigesta da metamorfose tétrica que me contornava ali entrecortados suspiros, um desejo detestável.

[meu nome nascia na ponta da língua e escorria ameno pelos lábios. eu jurava a mim que ser, vir a ser, surpreenderia a própria magnitude egoísta, que ser ‘eu’ seria melhor.]

desejo estúpido, possuindo minha carne e amordaçando-me; eu esqueci em uma destas esquinas, a vontade. esqueci em um gesto sonâmbulo, a causa e fome. vivenciei desastres quiméricos e insones arrastando correntes, chaves por todas as minhas tentativas de adormecer. ouvia suspiros raquíticos nas vozes alheias, urgindo por contato. eu consegui vislumbrar o vício patético, entre os corpos. uma saudade contínua, deplorável.

[meu nome tangia os teus seios. rasgava a traqueia, derretia os pulmões. meu nome saia deslizando feito uma navalha em tuas costas.]

esquecer é impossível. a memória desliza por estas cordas vocais desprezíveis. eu sinto agora a causa mórbida. existir foi-me sempre um labirinto, compelido a entorpecer-me.

[desistir é então a saída. virar um nome qualquer, uma ideia qualquer.]

26, SETEMBRO, 2017.

QUEDA.

um homem não existe só em si, é o colapso diário das verossimilhanças, dos tratáveis fatos ridículos, nada que se interprete, pode tomar rumo de verdade pela mescla dos diversos contrapontos impostos nos diálogos próximos; um homem tende a ver-se de várias formas, sem jamais tocá-las, como se girasse em alta velocidade e visse vultos, estes vultos são personas e estas carregam um semblante cansado, exausto por uma culpa indigesta que é o gosto pelo outro; por esta causa, vê-se despido de razão, ao invés de saltar a ponte para furar o rio, prefere atravessá-la a passos lentos, de mãos dadas com quem lhe quer bem, mas e o que este homem quer? pouco importa no fim, as razões que o desmistificam, são também ordinárias; pois no olhar do outrem, este torna-se outro também, não um sujeito íntimo mas um que fora visto pelo olhar d’outro; se por algum acaso fosse capaz de ter isto em mente, não estaria atordoado pelo pensamento recente, pela notícia. quando um amigo cai, é como se este caísse, e a face fosse atirada no piso, o nariz amassado junto da testa e alguns dentes se espalham; é como dividir um sistema conjunto, é coexistir numa vontade introspectiva de desgrudar do plano, com o plano rastejando e segurando na ponta dos dedos, a canela despida.

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