01, FEVEREIRO, 2022.
ABJETO (2).
A brevidade dissociativa destes passos pífios, vendo trajetos retilíneos tomando curvas insólitas e as dúvidas injetadas pelas premissas que escorrem entre os dedos, em toda tentativa de agarrar-se a alguma solidez objetiva e prática. As mesmices odiosas, representações simbólicas injustificáveis e rasas pela intransponível rigidez deste martírio em trazer uma sensação moribunda para cada detalhe que se arrasta pelo corpo. Sempre soa como tentar dizer algo impraticável, uma evidência nítida dos processos e como todos foram a ele, ilusões absolutas.
Medo não lhe tiraria dali, medo trouxe somente o abstrato silêncio e um ambiente ruidoso cheio de curvas para labirintos que modificavam-se todos os dias. Diabretes em formas de sombras passeando pelos cômodos, deixando rastros líquidos. Sons ruidosos escalavam paredes, imagens refletiam no espelho a disformia contínua do rosto; ecoava entrecortadas canções odiosas e intraduzíveis, língua infante contornando chagas borbulhantes em ódio puro.
Morte, o inadiável processo transfigurava-se pelos dias, observava atento a idade descascando peles alheias e a rouquidão destes outros, a podridão de ideias e observações fajutas sobre aspectos físicos, ideais de si que formulavam durante processos invisíveis. Adultos conduzindo-se por quimeras meticulosas, rompendo linhas tênues nestes inconsoláveis seres minúsculos, afastados pela ausência de algum tempo para serem ouvidos e o lamento traduzido pela abstração ou violência. Perseguia a vocalidade destas epopeias raquíticas, sonhos petrificados, engavetados na morbidez negativa atribuída a um olhar desprezante. Sentia-os atravessarem a própria agonia, colocava partes, roubava e expunha no imagético inescrupuloso, disforme da sua imaginação.
Dias não modificavam-se, horas e segundos eram idênticos. Germinar escapes ou ideias metamórficas tornara hábito ou traço, entendia-se somente através de um ciclo repetitivo, qualquer mudança era um disparate à personalidade. Criar trouxe consigo a primeira questão metafísica, não achava a lógica mordaz para impor causa e efeito, a língua parecia ter vida própria, autonomia cognitiva e de um salto a outro era como assistir o derreter do rosto e dos pingos da pele derretida, formava-se outro no dia seguinte. Morrer para uma outra ideia existir, sem resquício algum da anterior.
Amar é de fato uma tragédia cósmica, perceber ou ser atravessado por este desejo alheio germinado por algo intangível. Ser um corpo que em si projeta esta forma para além do imagético, um afeto nítido, percebido. Conduções que o tirariam dali, de um decompor das autonomias corrosivas de si. Estes, todos estes movimentando-se para devorá-lo. Consumido, gesticulado, feito algo que deve e cumpre o dever de causar o gozo do outro, sentindo algo surreal somente ali fora de si.
A solidez objetiva das navegações contínuas, impor uma leitura cheia de si, sem a dúvida constante e induzida pelo fragmentário colapso diário, que não se dissocia do pífio corrosivo, disformia imaginária redutora de qualquer aspiração a uma sensação pútrida. Porém, deixá-lo existir é permitir um olhar que confunde o melancólico, que vê algo fantástico na angústia explícita. Tanto ele quanto os outros todos são o mesmo, projetam-se da mesma forma, é de si que cria o movimento contraditório; uma dialética de formas próprias.