ABJETO(3).

11, FEVEREIRO, 2022.

ABJETO(3).

1.

Versos compostos de formas antigas, percorrendo minhas veias obsoletas; revejo cenas em dias ordinários, tateando a pele corroída por algum pretérito mórbido. Meu ópio contínuo estimulou pessimismos platônicos, idealizações robustas entre cenários que rompiam qualquer premissa possível, gesticulava com a disformia absoluta composta pela ausência gritante de qualquer ação. Via-as nos delírios quiméricos, imagéticas comorbidades rasgando meus dias, não formulava qualquer princípio de movimento até qualquer uma destas, mas borbulhava entre colapsos diários germinando hipóteses odiosas, escatológicas destes laços invisíveis. Sempre fora improvável contá-las qualquer traço destas pulsões, sequer mapeava os locais destas construções caóticas; o espírito em si não conseguia negar nenhuma delas.

Eu lapidava sistemas perspicazes. Assisti um primeiro sintoma na involuntária continuidade imaginativa, vozes entrecortadas junto das sombras entre turvas luzes amareladas ecoando pelos corredores e cômodos, premissas induzidas por um pavor escorregadio, líquido viscoso a descer pela garganta, enevoando aquele choro soluçante que brotava a cada centímetro entorpecido pelos horrores formulados naquelas horas infinitas. Não havia alma alguma a ouvir-me. Dentro de dias já estava consumido e o inebriante medo virava rotina explícita, sentia falta quando as noites eram amenas; a torpeza, vileza, na dúvida cética que derretia na noite seguinte.

2.

Não há caminho possível para uma forma deste jeito, a certeza tateia o piso fétido das memórias horripilantes que pulsionaram todas as saídas e escapes; a incapacidade nítida de permanência em algum processo retilíneo, construção de algum futuro composto por degraus lógicos. Ser sempre este contido em algum caos tentacular, arrastando-se pelas memórias e dias, devorando os transeuntes e imagens, consumido pela nitidez mirabolante destas introduções involuntárias dos lugares quaisquer; numa incapacidade mórbida de estar enfim satisfeito com alguma finalização.

Servir para algo funcional, ecoar algum símbolo, ter proveito de si. Todas as pestes rastejantes pela pele, delírios ululantes junto do cotidiano e a letargia assustadora de despertar em ambientes novos; o caos inebriante das caminhadas longas entre luas derretendo asfaltos, calçadas. Nuvens escorregadias pelo azul cintilante, ondas do mar golpeando as paredes e janelas do apartamento. Cômico em dias horríveis era a saudade do mesmo temor melancólico do quarto que supostamente fora sua casa. Em cada queda por tentar, gesticula-se, pensa se o óbvio não seria o aspecto completamente sincero de não servir para nada.

Voltar lembra um aspecto tétrico, são sistemáticas pulsões inescapáveis e o absurdo sempre fora a constituição formidável, diante destes ouvintes. Causa um delírio que em si mesmo há algo de real para voltar, de ir. São fantasmas metafísicos conduzindo a alguma morte maldita, dantesca. O inferno está em todos os anos. Não há nada em mim, não tenho nada a dizer.

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