22, FEVEREIRO, 2022.
SOBRE O AFETO.
Esta forma enveredou pelo meu sangue, deixando rastros enigmáticos e impulsionando pensamentos caóticos de lembranças vis; acostumei-me a nivelar sensações prazíveis com a torpeza, o afável e o deletério, alegria e a agonia completa. Arrastei-me por anos entre oscilações macabras, conduzido por instintos silenciados pela química tentacular e a morbidez calejante, um suposto amor atroz em suas exposições sistemáticas, arrancando pedaços da minha carne e as expondo num museu lotado pelas imagens condensadas daqueles anos, modulados lentamente com a junção viscosa do meu sangue coagulado em imagéticas representações desgraçadas.
O cômico de alguns dias era através do que hoje solidifica-se como um amor real, minhas premissas mostradas assustavam ao ponto de causar medo e a sensação penosa emitida pela fala atenta destes, atravessava-me como uma afronta àquela arquitetura, um corte óbvio e que eu negligenciava pela crença e submersão na neblina corrosiva de uma expectativa patética; ter posto em dúvida a vileza direta daqueles movimentos, onde de fato tudo fora feito por desejo autônomo e minha chaga, ruína germinava dali -elas sabiam.
Acostumar-se nos labirintos melancólicos, janelas e grades lacradas; choros ruidosos nas celas ao redor. Vozes e rostos chocando-se em desespero nas paredes de tijolos quebradiços; gotas de chuva detrás daquelas nuvens acinzentadas; atrapalhados sentimentos culposos, em relatos raquíticos de si a si, pelas introspecções formuladas e expostas por sombras. Alguns braços esticavam-se pelas grades enferrujadas, estendendo entre dedinhos cadavéricos um redondo chaveiro lotado de chaves, entre soluços observava alarmado e algo arranhava a garganta, escorregando pelas veias, pulsionando uma apatia e a certeza decrépita de que estar entre todos aqueles arruinados seria melhor que não estar, seria melhor que estar só. Encolerizado socava a mão, praguejava, cantarolava odes que estava bem dentre os calabouços e poças de lágrimas.
Gesticular com facínoras despretensiosos entre galhofas mistificadas, vozes eruditas e sermões colossais enquanto caminha ou pedala por entre calçadas, esquiva-se de carros, amedrontado com pretéritos sórdidos que são expostos a cada nova metragem alcançada. Estar em contínua dialética, de personagens casmurros, moralistas, odiosos e ignóbeis; e o pífio fato que acerta seu crânio com um machado, sempre em uma surpresa repetida, um caos cheio de mesmices, diante de tanta especulação e organização, certezas mirabolantes criadas e discutidas; o real, que está sempre diante de si, põe não só em cheque mas faz arder todas as suas movimentações, como bolhas ácidas estouradas e que escorrem pela pele gerando novas em um contínuo desamparo consigo mesmo. É um ego que se esvai por sentir-se raquítico, e mesmo lotado destas personalidades absurdas fará sempre de si um dependente, uma necessidade nítida de ser guiado.
Tormentas como a ausência inescrupulosa de afecções romantizadas, ausência afável e de movimentação mútua; ausência de algo explícito, ausência de alguma certeza de ser amado. Submergir nas confusões guiadas por rostos cheios de olhos, bocas devoradoras, abraços como agulhas, aproximações assemelhadas ao horror tortuoso de um corte inábil. Estar sempre ali, nestes efeitos agonizantes e a constância catastrófica dos erros inaudíveis ao espírito de si; amar terá sido isto? Ser consumido por inteiro?
Semelhanças com infernos criados pela mente infante em dias completamente ordinários, silenciado pelo pavor líquido esbouçado nas reações dos seres ao redor; e na convulsão primeira notar que não criaria personagens e sim bonecos, daria vida da mesma forma que se via, como um rosto transfigurado e montado por algum diabrete odioso.
Confundir e estar tão amedrontado pelas cósmicas sensações que emanaram dela, não lhe causa mais choro e agonia; só desespero pelo fato nítido de desperdiçar, por literalmente ter sido idiota; estar apaixonado, pelo seu pretérito, lembra-o da morte; mas a ela, ele não consegue sequer dizer uma palavra sórdida. Só sente-se triste, de sentir que da mesma forma que derrete e esvanece na constante de um delírio, não ter entendido e lhe dito pode fazer com que ela desapareça.