INVESTIGAÇÕES SINTÉTICAS./FRAGMENTO DE UM OLHO FECHADO.

19, ABRIL, 2022.

INVESTIGAÇÕES SINTÉTICAS.

 Exibições rotineiras sempre tatearam meus olhos como vertigens. Premissas destes ao redor como labirintos líquidos, inescapáveis; meu corpo sente em cada detalhe introduzido um deslocamento escorregadio, desesperado. Ouço e observo o mundo nesta nitidez induzida, tentacular, transeunte algum toma forma de passagem; a memória faz de tudo um vislumbre maldito. Não esquecer se torna uma chaga introspectiva arrastada pelos centímetros inteiros do corpo, e alguns traços torpes deste detalhe é que o efêmero se instala tanto quanto e é um ato ensurdecedor separar memórias, valorá-las.

Despenco entre deslizes simples, caminhadas gesticuladas nos acenos ilusórios crepitados nas constelações metafóricas das minhas indisposições colossais. Assolado por olhares alheios e um sol que rasga as nuvens e jorra seu líquido corrosivo nas minhas retinas. Afasto sussurros deletérios surgidos nos soluços entrecortados de algum açoite rememorado, debato entre conduções e contradições incessantes, na medida que alcanço uma nova esquina. Todas as ruas surgem como epifanias sistemáticas, inefáveis; meu corpo consome as cores e árvores, calçadas e rostos aleatórios surgidos entre frestas de janelas. Os ambientes invadem-me feito uma substância corruptível, inescapável.

Semblantes ou rasgos de têmporas, lembro daquele rosto alheio e de um significado raso; sujeito que em ação para si completamente comum, guardou as malas. Mancava, magricela de uma voz esganiçada, em seu chapéu avermelhado e roupas folgadas; os hálitos e cheiros grudados no ar que exalava através das descargas dos ônibus. Ali ainda relembro o café amargo para utilizar a internet, o hostil e gordo bigodudo que notara minha razão, recebera o dinheiro em seguida como penitência. Uma mulher entre risos agudos feito gralha, xingando algum atraso em seu traje amarelo; todos como pingos de chuva em dia ensolarado manchando minha pele.

(~)

 Sintético, alcances sintéticos para assemelhar; sintético para um tipo de tranquilidade invejável nos afetos próximos. Sintético em desespero para um tipo de gozo ali contado pelo outro. Sintéticos passos que tornavam meu ser algo minúsculo, entre as quedas livres e a metáfora explícita de um despertencimento, rejeitado por algum que eu desejava amparo; a nefasta carência existencial, pois não há experiência criativa ou ser deste modo que viva de si em satisfação suficiente para alcançar felicidade. Desprezível a mim sempre foi a questão da dúvida e o ódio tatuado na memória, daquele que impôs nas minhas exibições algum tipo de desejo de ser a este modo; detestável.

Sintético como aquele sorriso sistemático contado por horas nas reposições. Supor o labirinto que me arremessou nos anos de experimentações incessantes. Substâncias variadas, tentativas variadas de reduzir-me a estes, os quais colocaram a obrigação de um laudo; que devia os dar algum tipo de satisfação, algo fisicamente aceitável. A tragédia foi ter corroído meu ser nesta necessidade. Mas estamos todos no mesmo lugar, se você acha que a insegurança e o sintético que manteve tanta vileza próxima um ato que me desmerece, você precisa sair de algum tipo inescrupuloso de medo, a diferença é sempre uma maldição pro ego. Você não vai tanger a dialética que me faz ser, nem a continuidade explícita das minhas criações; pois minha ausência de identidade, é por me ser em completo algo que não se reduz. O que crio é de um lugar completamente meu, toda leitura, tudo visto é a mim um devorar, é fome; não quero pertencer, pois nunca pertenci.

18, ABRIL, 2020.

FRAGMENTO DE UM OLHO FECHADO.

parece absurdo, mas de repente percebi uma necessidade óbvia há alguns ordinários, destes tão robustos nas atitudes, dos planos de fundo da alma; os observava quase a tremer, arrepiava-me os trejeitos tão sintéticos, maravilhantes, repetitivos… e então sinto um raio nas vértebras, um pulsar repentino e sólido: a repetição. esta me teve quase como imbecil, não me propusera, sempre a odiara; aqueles que repetiam-se ante mim, era afrontar, odiar.

e então fechei meus olhos, descansei o turvo, sombrio da expectativa periférica, a obrigação do caos render-se ao absoluto do sentido… descansei nas sombras densas e ululantes da escuridão projetada, detestando o não visto, invisível, tateando com os sentidos da pele, dos músculos; respirei aflito a primeiro instante, saltei com o mais leve vento que vinha de fora.

descansei os olhos depois de décadas, aprendi a não enxergar por obrigação do absoluto, do percebido e codificado, como que saísse do prisma odioso da coisificação.

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