DEDOS.

23, ABRIL, 2022.

DEDOS.

Todas estas vozes sórdidas lapidam algo que justifica meu existir atual, tentáculos ruidosos arrastando-se pela cerâmica empoeirada dos dias que decidi abandonar; dos desejos inescrupulosos mantidos nas caixas minúsculas e formidáveis. Algo gesticulava nas sombras do abajur na varanda, um tipo de vento mordendo as grades que evitavam meu salto. Trazia nos bolsos um tilintar agoniado de chaves, sentenças mórbidas entre soluços cortados por vontades alheias que me traziam de volta para cá. Não existe niilismo aqui, não há conteúdo explícito ou formulação conceitual para estes desesperos contínuos que se mantêm na solidez subjetiva das minhas razões de permanência caóticas. Amar os que me trazem de volta, não é suplica, dependência, é um fato.

Um silêncio sistemático envereda pelas minhas veias, atributos e desilusões assemelham-se a um destino inexorável. Testemunho nascentes corruptíveis nos transeuntes, noto atentamente desânimos formulados pela perplexidade que estes absorvem no próprio existir, mas que ao sentirem o absurdo, rejeitam numa naturalidade maldita; evitam colapsar, um motor feito catraca parece tirá-los desta morbidez, e minha alma então desespera por estar em contraste, parecer um devaneio, parecer um privilégio. Sentir deste jeito, pelo tempo que recebo do sangue. Devo dizer algo?

Pernas arrastam e nestes lapsos redutíveis a migalhas filosóficas, receio estar à deriva, feito um espectro. Pulsações, sentado neste barco, entre burburinhos e sussurros destes aqui tão idênticos na robustez subjetiva, do desejar completo encontrado e justificado neste horizonte elementar e nefasto, donde enfim não haverá mais inconstância. Enfim algo seria permanente, uma ausência completa, um esvanecimento contínuo e etéreo da forma. Todos neste barco vão esvanecendo devagar, e o guia ali conduzindo-nos esboça um completo fascínio habitual, satisfeito de nesta leva não haver um desistente. Entre risos escarninhos toco nas pernas esguias dele e inquiro, não há resposta, só um apontar de dedos que sigo curioso, toco a água da cor de uma esclera, e a ponta do meu dedo corrói.

Olhe-me nos olhos antes de ir embora. Acompanhar este aspecto corpóreo devagar derreter feito tinta, acumulando neste piso sórdido que aos poucos se mistura nestes outros seres; o barqueiro parece feliz, me olha, acena e sinto algo afável atravessar-me. Não consigo lembrar de você. Meu corpo está enfim alegre.

Gesticulo o passado afável deste ultimo delírio de alegria, nos dias cinzas. Lembro de você enquanto volto correndo e o asfalto fura os meus pés. Vozes ecoam das janelas de prédios vazios. Não há luz neste céu, as nuvens são meus dedos.

Olhe-me de novo, toque a cor verde como tinta escorregando na tua pele.

 Queria esquecer, fazer algo em mim efêmero. Apagar os rostos, os olhos; e o absurdo de como não consigo tocá-la nas minhas memórias, mas não a esqueço. Nitidamente uma forma, feito eu.

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