INVESTIGAÇÕES SINTÉTICAS (2).

01, MAIO, 2022.

  INVESTIGAÇÕES SINTÉTICAS (2).

Suspira o alívio desta semelhança rasgada pelo ódio. Suspira a tranquilidade química destas injeções, entre sussurros induzidos, a expectativa silenciosa do acontecer que se aproxima. Acomete-se pelo óbvio, desta repetição, na inquietude mórbida de assemelhar-se e aproximar do afeto. O medo arrastou-o pelos pisos, corredores, entre luzes amareladas. Rostos deixando marcas na sua alma, linguagens e dias ululantes, tentaculares. Todas as premissas de aproximação foram compostas pela desgraça, em um nítido ser desesperado.

Pestilentos remorsos arrodeiam este corpo. Suas introspecções vertiginosas, abrindo espaço entre as costelas e um sussurro áspero contínuo, ante qualquer movimento brusco. O sangue fervilhava, a chaga de si ou como percebia a razão de ter ido, deixava rastros pelo caminho. Olhos inquietos puxavam para si o mundo, sentia algo firmando nos ecos sórdidos das vozes alheias. Um corpo acometido pelos sons e ruídos da música, em tentativas nítidas de desaparecer.

Suas aspirações resumiam-se ao criar, esquecia sempre de ser humano. Dividido, colapsado. Há tragédias semelhantes nas esquinas de ruas. Que isso importa? A semelhança dá algum tipo de paz? Quais identidades ainda precisaria roubar para si, quais formas e conteúdos alheios precisaria pegar para si, o que há lá que é necessário, tão desgastante, maldito, que lhe impede de ser? Seria o feminino, então? Os outros? É tão escasso deste jeito? Ou não queria e foi, pelo movimento, por tentar escapar das rachaduras do teto, do piso, dos céus e de mim?

Estas substâncias, sempre lhe causaram repulsa. Resignado usara, como chegara perto daquele e daquela. Enganou o próprio ato de criar, pelo suposto labirinto navegável entre entorpecimentos. Dias depois, tentando por algo, pintar algo, chorava; não habitava mais nada daquele dia. Sua memória era só a experiência, sua subjetividade estava contida naquilo, no lembrar; como se lembra de qualquer outra coisa.

 Seu conteúdo escasso, está na nitidez das ausências contingentes. Amavam-no na cobrança, no material, na demanda; entre dias e noites, a robustez daquela solidão esgueirava-se por toda a casa. E os ecos, chiados, sussurros e o medo maldito, ocupava todas as curvas do seu ser. Apresentou uma, duas vezes, aqueles cantos de si; e fora posto no caixote da loucura, da religião, do diferente. Ele não escaparia de nós assim.

Os goles, as substâncias. Pela substituição de ser-se, para dissolver no sangue. As premissas hediondas daquela alma, desta alma, parecem-se com um sujeito mequetrefe, controlado por diabretes enquanto senta no barco de Caronte, para ir ao inferno.

Ele não sabe como é criar, sentir, dizer sem estar submerso n’uma substância; não sabe o aspecto maravilhoso do amor, do gozo, da pele; sem a substância.

 Elas levaram-no ao ato, ao sexo; e deixaram o que lhe rasga o âmago todos os dias. A dúvida dantesca, infernal do que de fato se quer ser; quem de fato amara?

 Ele não vai se livrar de nós. E aos poucos, no suor que ampara-o ao deixar a química inteira destes anos pelo asfalto, consegue notar o que de fato amara, mesmo naquela incessante penumbra.

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